- Fernando, meu filho, vem aqui, nós precisamos conversar.
- Oi, papai.
- Eu tenho uma missão para você lá na Terra.
- Na Terra, papai?
- Sim. Eu sei que você fará muita falta aqui no céu, mas lá em Três Lagoas estão precisando muito de sua ajuda.
- Meu filho querido, estou te enviando à Terra para uma missão muito bonita. Você vai nascer em uma família humilde e unida, e vencerá através de muita luta. Seja forte, você já tem a minha benção. Me dê um abraço, e vá até lá.
Quero que mostre o quanto é importante acreditar em um sonho. Você será um investigador da Polícia Civil, exemplar e dedicado; sua profissão irá ajudar uma sociedade inteira. Você receberá homenagens pelos serviços prestados e irá encher seus pais e irmãos de orgulho. Mas, olha, não vai ser nada fácil.
Eu sei que você vai conseguir brilhar, porém chegará um momento em que eu terei que te chamar de volta. Sua passagem será curta, mas deixará marcas que não se apagarão jamais.
Boa sorte! Vá até lá, cumpra a sua missão e me deixe orgulhoso. Nos reencontraremos daqui 28 anos.
E foi assim - como esta história de Rafael Magalhães - que veio ao mundo o menino Fernando Lourenço Ribeiro, filho do casal Évelyn Lourenço Ribeiro dos Santos e Silvio Teodoro dos Santos.
Um herói e um filho maravilhoso. Esta foi a definição atribuída ao jovem investigador da Polícia Civil de Três Lagoas, Fernando, que nos deixou precocemente aos 28 anos para retornar aos braços do Pai. Cheio de sonhos e com uma carreira enorme pela frente, o investigador morreu jovem para viver para sempre, deixando nada menos que amor e saudade.
Fernando nasceu em uma família humilde e venceu através de sua determinação e seu talento. Tímido e reservado, foi forte e guerreiro. Viu portas se fecharem, mas não desistiu e acreditou nos seus sonhos. Com a benção dos pais, foi atrás de sua paixão: entrar na Polícia. Determinado, passou no concurso da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul em 2005, mostrando para as pessoas o quanto é importante acreditar em um sonho.
Serena, Évelyn conta que o filho sempre foi tímido e reservado desde a infância. Quando pequeno, estudou na Escola Estadual Afonso Pena e, desde aquela época, já demostrava interesse em fazer parte da Segurança Pública do Estado.
Filho mais velho de Évelyn, o jovem era de poucos amigos, e tinha um excelente relacionamento com os irmãos - Thiago Ribeiro dos Santos e Luana Ribeiro dos Santos.
Fernando era querido por todos, e tinha uma grande admiração pelo tio, Ari Teodoro dos Santos, sargento do Corpo de Bombeiros e seu companheiro de pescaria, um amigo para todas as horas.
“O Fernando era um filho maravilhoso e dedicado à família. Amoroso, ele me entendia só de me olhar. Nunca foi de ficar na rua ou em bar. Ele gostava de reunir os amigos em casa e pescar. Meu filho era feliz, nós passamos muitas coisas boas nesses 28 anos de sua vida”, disse a mãe.
Évelyn comentou sobre o seu neto caçula, de 11 meses - filho de Luana - que recebeu o nome de Fernando em homenagem ao tio. “O meu dia-a-dia ficou mais vazio, mas a vida segue e outras pessoas precisam de mim. Não posso deixar a peteca cair. Os meus quatro netos me ajudaram muito depois da perda do meu primogênito. Ser mãe do Fernando foi uma das missões mais valiosas que recebi de Deus. Perdê-lo foi o maior e mais duro golpe da minha vida, mas é a ele que vou buscar forças para lutar e seguir em frente. Em tão poucos anos de vida, ele me ensinou tanto”, falou.
Para a namorada, Carolina Bastos Carli - de 33 anos - Fernando era tudo. Amigo, companheiro de viagens e confidente. “O Fernando era minha vida, a pessoa que eu encontrei e queria estar ao lado até o fim, mas infelizmente Deus não permitiu. Nós fomos muito felizes, vivemos momentos incríveis. Dois meses antes de ele sofrer o acidente, nós tínhamos comprado um terreno”, contou. A união dos dois foi tão especial que Carol é madrinha de Fernandinho, sobrinho caçula que recebeu o nome do tio em homenagem à excelente pessoa que foi, e ao legado que deixou.
Ela lembra que quando o namorado se acidentou, e devido à gravidade foi transferido para Campo Grande, ela abriu mão do emprego em Três Lagoas para cuidar dele no hospital e ajudar Évelyn, a sogra.
“Foram quatro meses muito difíceis naquele hospital, mas Deus tinha planos maiores para o Fernando. A vida segue, mas o vazio fica. Lembro-me dele todos os dias, a comida que ele gostava, o cheiro do perfume que usava... Essas coisas nunca saíram da minha cabeça e nem do coração. Ele faleceu quando íamos completar quatro anos de namoro. Não achei que o Fernando iria embora, sempre mantive a fé e a esperança. Ele sempre está presente em minha vida, todo santo dia; seja em foto, cheiro ou gosto, ele está ali com a gente”, declarou.
Assim que concluiu o curso de formação na Acadepol/MS (Academia de Polícia de Mato Grosso do Sul) em Campo Grande, Fernando retornou para Três Lagoas, onde foi lotado na 2ª Delegacia de Polícia Civil. Tempos depois realizou mais um sonho: pertencer à antiga DIG (Delegacia de Investigações) que, mais tarde, passou a se chamar SIG (Setor de Investigações Gerais).
Apaixonado pelo trabalho, ele sempre estava procurando melhorar e aprender cada vez mais
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O investigador dava a vida pelo serviço. Quando faleceu, estava no último ano do curso de Direito e seu próximo passo seria o concurso para delegado.
Durante o tempo em que permaneceu na Polícia Civil, Fernando participou de grandes apreensões, prisões e operações que foram de grande importância para o município. Seu esforço e seu comprometimento com o trabalho lhe renderam duas homenagens na Câmara Municipal de Vereadores. Fernando Lourenço Ribeiro também foi bastante elogiado pelo delegado Ailton Pereira de Freitas, com quem trabalhou por dois anos.
“O Fernando era um menino muito dedicado, esforçado, honesto, e cumpridor das obrigações; ajudava muito a delegacia. Era um excelente investigador e faz muita falta a todos que trabalharam com ele. O relacionamento dele com os outros policiais era muito bom; estava sempre junto de todos. Ele gostava muito da polícia e de trabalhar na DIG; era o sonho dele”, destacou.
O investigador sofreu uma queda de moto em maio de 2010, e, depois de quatro meses internado, encerrou sua missão na terra.