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Mães adolescentes três-lagoenses contam as dificuldades da maternidade

Confira o especial desta edição!

Hojemais Três Lagoas - Bruna Taiski
12/11/17 às 13h00
Mãe aos 14 anos (Arquivo Pessoal)

Gravidez na adolescência é um assunto delicado – e uma realidade presente. O Estatuto da Criança e do Adolescente considera adolescente o indivíduo de 12 até 18 anos de idade - o que quer dizer que meninas em idade escolar e, muitas vezes, ainda em fase de crescimento e desenvolvimento físico tornam-se gestantes.

Ao se tornarem mães, estas adolescentes acabam deixando de lado uma importante fase de suas vidas; algumas abandonam os estudos, outras buscam o aborto clandestino - colocando em risco sua existência; outras fogem de casa por rejeição de sua família. Enfim, a gravidez na adolescência, em geral, é causa de muito sofrimento - em especial para as adolescentes.

Segundo o médico ginecologista Dr. Eneas dos Santos Cano existem três tipos de mudanças quando se trata da gravidez de adolescentes: as físicas,

as hormonais e as psicológicas. O problema psicológico, para o ginecologista, é considerado a principal mudança.

“Ainda que ela esteja preparada do ponto de vista hormonal para que engravide, o corpo ainda não está em um estado total de amadurecimento. Já as mudanças hormonais são decorrentes de alguma situação que induziram esse organismo, de maneira precoce, a fazer a paciente ovular” - diz.

Os riscos vão além das complicações patológicas. Com poucas informações e uma vida sexual ativa cada vez mais precoce, muitas adolescentes estão engravidando numa fase da vida em que se encontram despreparadas para assumirem as responsabilidades de ser mãe - com todas as implicações que a maternidade provoca.

“Elas estão em um momento em que não é para ser mãe. No caso das meninas com 14 anos, perdem uma linda fase da vida delas da escola; a fase de brincar, de fazer descobertas. Por mais que já não brinquem de boneca, a fase não é para isso agora; elas têm de se preocupar

com outras situações - aí que entra a questão da gravidez de risco. É basicamente uma criança cuidando de outra criança” - afirma.

Possíveis perigos da gestação

O ginecologista, Dr.Eneas, conta que a gravidez é arriscada quando a paciente tem alguma patologia - como a hipertensão e a diabetes.

“Com a idade avançada pode ser gravidez de risco pelo fato de o organismo estar ‘envelhecido’; no caso de uma paciente jovem, o risco é para o bebê e o seu futuro - a não ser que a paciente tenha alguma doença diagnosticada” - diz.

O perigo, segundo ele, existe na imaturidade comportamental. É difícil que as mães adolescentes façam o pré-natal de maneira correta e responsável. A gravidez pode ser bem tolerada pelas adolescentes desde que elas recebam assistência pré-natal adequada, ou seja, precocemente e de forma regular, durante todo o período gestacional. Isso nem sempre acontece, devido a vários fatores - que vão desde a dificuldade de reconhecimento e aceitação da gestação pela jovem até a

dificuldade para o agendamento da consulta inicial do pré-natal.

“Teoricamente, o corpo está preparado - se não for nenhuma doença que desencadeou a ovulação para ela engravidar. Entretanto, o útero pode estar pronto, mas o psicológico não está. Se nós pensarmos no psicológico dessa criança grávida, o risco do bebê pode ser de negligência, porque psicologicamente ela não está madura para isso. É preciso ter os familiares ao lado para auxiliar com os cuidados e com orientação” - afirma.

Segundo o ginecologista, para evitar complicações futuras no bebê e ter uma gestação tranquila é necessário fazer o pré-natal corretamente.

“Em um pré-natal tardio, os problemas podem ser advindos na falta do uso do ferro - ácido fólico - tendo sequelas no futuro. O bebê também pode ter consequências, por exemplo, se a mãe tiver uma Sífilis - doença sexualmente transmissível - e não fez os exames previamente; ele pode nascer com sequelas” - diz.

“Engravidou porque quis”

De acordo com o Ginecologista Dr. Eneas nenhum método contraceptivo é 100% efetivo; ele afirma que diversas falhas podem ocorrer.

“Existe sim essa possibilidade de gravidez - mesmo com a paciente tomando o anticoncepcional - o que acontece na grande maioria é que o remédio está sendo tomado errado e em horários diferentes; todo anticoncepcional pode apresentar alguma falha. Ter a penetração antes e depois colocar a camisinha - há chances de gravidez também” - diz.

O apoio psicológico

Segundo a psicóloga Ana Luiza Martins Quatrina, uma menina que se encontra na casa dos 12 anos - nem criança e nem adolescente - está passando pela fase conhecida como ‘puberdade’ - está em plena transição. Conforme ela, esta transição gera, naturalmente, conflitos

associados a uma gravidez e pode acarretar diversos prejuízos no próprio desenvolvimento emocional da mãe como no da própria criança.

“A adolescência já traz uma desorganização emocional própria. O acompanhamento psicológico seria no sentido de organização de um ‘eu’ não preparado para a gravidez - fortalecimento de ego - fazer a elaboração de uma fase que se antecipou, aceitando seus limites e a realidade; elaborando um luto de deixar de ser filha para ser mãe - para que se consiga assumir um novo papel” - afirma.

Embora a gravidez não seja uma doença, toda mulher necessita de cuidados especiais durante a gestação; no caso da adolescente, esses cuidados devem ser redobrados. Cabe aos pais ou responsáveis encaminharem a adolescente para a realização do pré-natal e de todos os exames necessários; se houver necessidade, promover o acompanhamento psicológico apropriado à situação.

“O papel do apoio familiar é o que vai determinar uma boa aceitação desta nova

fase e das mudanças que irão acontecer no desenvolvimento dos nove meses e após o nascimento. O adolescente - como a criança - ainda utilizam os pais/família como um suporte e necessitam de ajuda emocional” - finaliza a psicóloga.

MAMÃES ADOLESCENTES

Ser mãe na adolescência é uma barra difícil de encarar. Lidar com o susto e as responsabilidades antes da hora não é fácil; mas, existem meninas que conseguiram superar todos os obstáculos. Embora os exemplos daqui sejam felizes, nunca é demais alertar às garotas e garotos sobre as consequências de relações sexuais sem proteção!

A estudante Isabella da Cruz Clemente ficou grávida aos 14 anos; sua filha nasceu no dia 08 de Janeiro de 2016. “Estou no 1º ano do Ensino Médio; trabalho e cuido muito bem dela. Meu amor por ela é maior que tudo; por ela sou capaz de dar minha vida. A partir do momento que me tornei mãe tudo que eu faço é pensando nela” - diz Isabella, hoje com 16 anos.

A jovem conta, com muito amor, que sentia medo durante a gravidez, mas que tudo mudou ao ver o rosto da filha pela primeira vez. “Percebi que foi o erro mais acertado da minha vida! Fui mãe nova sim; mas, assumi; dou muito amor e muito carinho e não falta nada pra minha filha” - afirma.

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O apoio durante a difícil fase veio de sua mãe, que cuida da neta para a filha continuar os estudos. “Quem me ajuda muito, que é um anjo na minha vida, é a minha mãe; ela que fica com o bebê para eu estudar - senão eu teria largado os estudos. Posso ser nova, mas jamais você verá a minha filha mal cuidada; criei muitas responsabilidades depois de virar mãe. Muda muita coisa, lógico; é difícil e muito cansativo” - afirma.

Ser mãe não é um trabalho fácil e, para Isabella, na adolescência a situação piora e as dificuldades aumentam.

“Hoje em dia, ser mãe - tanto nova como na idade certa - é difícil, mas na adolescência piora porque, muitas vezes, não arrumamos emprego; temos de largar os estudos. Então temos de nos prevenir mais; tudo tem sua hora - não devemos passar por cima. Mas, se caso acontecer, Deus sabe de tudo e, no futuro, iremos entender seu propósito” - diz.

Thaiz Bertalli engravidou aos dezessete anos; ela não estava namorando na época, mas afirma ter feito sexo com camisinha e que também ingeriu a pílula do dia seguinte - que falhou. Dois meses depois, com oito semanas, ela descobre estar grávida.

(Arquivo Pessoal)

“Para mim não foi nada fácil aceitar que dentro de mim batiam dois corações. De primeira, eu não quis o bebê. Sentia que minha vida tinha acabado; passei pela fase de negação, mas, mesmo assim, não quis esconder de ninguém que estava grávida” - revela.

A reação dos pais de Thaiz foi melhor do que ela imaginava. “O medo de contar para a minha família e eles me repreenderem de alguma forma era grande; mas, com meus pais foi tudo bem tranquilo. Eles me apoiaram; ajudaram-me com tudo que precisei” - conta.

A gestação da jovem foi complicada desde o início. Com 13 semanas ela teve início de aborto; aos cinco meses teve outro pré-aborto – pois, não estava controlando a diabetes corretamente o que resultou em um descolamento de placenta e pré-eclâmpsia. O bebê nasceu lindo e saudável - no oitavo mês - com 51 cm e 4 kg. “Por conta da diabetes ele nasceu muito inchado e gordo; se eu tivesse conseguido segurar ele até o 9º mês provavelmente ele e eu não iríamos resistir” - diz.

Durante a gravidez Thaiz pensava que não conseguiria ser mãe e que não aguentaria todas as complicações. “Tinha muito medo do parto, pois engordei demais e estava com a pressão muito alta; mas, com todo o apoio da família e das minhas amigas eu segui em frente, levantei a cabeça e consegui” - garante.

Apesar das grandes dificuldades que ela passou no período de gestação, a época também teve os seus momentos felizes.

“A melhor parte era sentir aqueles ‘chutinhos’ durante a noite; sentir que não estava sozinha era uma sensação muito boa. O maior desafio foi a hora do parto. Passei muito mal na hora do parto; meu bebê não queria sair, pois eu já tinha perdido líquido demais; mas, no fim deu tudo certo. Hoje em dia eu amo ser mãe. Não recomendo a ninguém ser mãe tão jovem, pois, muitas vezes, temos de deixar de nos divertir parar trocar fraldas ou então perder 2 ou 3 anos de faculdade, pois a preferência sempre será para o filho” - conta.

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