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Mulher motorista de Tritrem vence preconceitos e enche os filhos de orgulho

Mesmo em 2018, ainda existe o preconceito com mulheres que trabalham em “profissões de homem”, como em obras, em fábricas, e motorista.

com colaboração de Aurora Vilalba - Iolanda Carvalheiro
09/05/18 às 13h36

Mesmo em 2018, ainda existe o preconceito com mulheres que trabalham em “profissões de homem”, como em obras, em fábricas, e motorista. Cecilha é o exemplo vivo de que é possível vencer o preconceito e quebrar essas barreiras; a mãe é o orgulho de seus três filhos.

Cecilia Sales Buenos tem 44 anos, e tem uma longo jornada. Conheceu o pai de sua primeira filha, Letícia aos 16, engravidando dois anos depois. Casou-se e teve mais dois filhos, Guilherme, e Agnaldo Júnior.

13 anos depois, Cecilia se separou, e assumiu o papel de pai e mãe. Para ajudar, sua filha mais velha cuidava dos irmãos mais novos, para Cecilia poder trabalhar.

Pouco tempo depois a família mudou-se para Andradina, morando em casa alugada, e passando muita dificuldade.

“Minha mãe sempre foi batalhadora, fazendo salgado, bala de coco, trabalhando em frigorífico, limpando casa, nunca deixou faltar comida em casa”, disse sua filha Letícia.

Em 2007 Cecilia foi trabalhar em uma empresa que prestava serviço para usinas hidrelétricas, e foi lá que descobriu sua paixão.

Entrou trabalhando como faxineira, sem profissão. Todos os dias via os motoristas dirigirem os ônibus, carregarem pessoas, viajarem, e isso deu esperança para ela de que ela também conseguiria.

“Eu pedi para o meu patrão se tinha como ele passar como motorista, só que na época não existiam mulheres motoristas, e isso é complicado. Mas ele me deu uma chance, e pediu para fazer algumas viagens e ver como eu me saía”, disse Cecilia.

Em sua primeira viagem foi até a usina onde prestavam serviços, mas um rapaz recusou a viajar com uma mulher de motorista.

“Eu vivi na pele o preconceito. Mas não fiquei com medo”, comentou.

Cecilia ligou para seu chefe que mandou prosseguir com a viagem sem o rapaz, dizendo para ele que tinha competência igual a qualquer homem.

“Isso me deu forças. Eu agradeço o senhor Antônio por ele ter me incentivado”, falou.

Infelizmente a empresa não tinha como manter Cecilia, porque não conseguiria aloja-la, mas isso não a fez para de correr atrás de seu sonho.

Depois de sair da empresa, ela levou currículo para uma usina, onde foi contratada como motorista de Kombi, onde trabalhou por um ano. Fez um teste e trabalhou em empresa de caminhão por dois anos e meio, decidindo mudar-se para Três Lagoas.

“Eu vim sabendo que aqui tinha mais espaço para mim, tem muita oportunidade de serviço de motorista. Eu e meu esposo viemos para cá”, falou Cecilia.

Três meses morando na cidade, entrou na Breda como motorista de ônibus, trabalhando por dois anos e meio, mas saiu a procura de mudanças, porque o que queria mesmo era trabalhar como motorista de caminhão.

Foi então que foi contratada por empresa de celulose da cidade.

“Aprendi bastante lá, fiquei mais três anos lá, aprendi e agradeço, mas eu queria mais. Quando nós almejamos uma profissão, nós tentamos sempre melhorar, e como lá eu ficava apenas no baldeio, eu queria estrada, queria campo. Como a mulher ainda tem um pouco de preconceito, mesmo nas firmas, e essa empresa de celulose não aloja mulher. Eu sabia que lá eu não poderia seguir o que eu realmente queria, que é viajar”, afirmou.

Então Cecilia pediu as contas, e entrou na sua atual empresa Expresso Nepomuceno, onde trabalha há cinco meses.

“Eu estou muito feliz, estou realizada, preconceito não há, mesmo porque a maioria que trabalha comigo já me conhecia da Usina, ou me conhecia da Breda, já sabe o jeito que eu trabalho”, disse Cecilia.

Ela agradece a Deus por cada momento, e instante que lutou e que conseguiu realizar seu sonho. Hoje ela afirma com certeza que está realizada profissionalmente, e lembra do apoio de seus filhos.

“Não é fácil trabalhar, 12, 14 ou até 16 horas, mas o gostoso é chegar em casa e saber que eles estão esperando e me apoiando, e eu agradeço meus filhos por isso”, falou.

Mesmo após tanto tempo na profissão, Cecilia ressalta que ainda há preconceito. Ela conta que há alguns dias chegou em casa suja, e alguns amigos foram visita-la, perguntando porque não abria um negócio caseiro, afirmando que a vida de Cecilia é sofrida.

“Quando eles terminaram eu falei para eles, gente eu sei fazer salgado, eu sei fazer bala de coco, eu sei cozinhar, eu sei vender, só que o que eu quero é isso, é chegar em casa suja, mas realizada.

Não adianta nada eu trabalhar dentro de casa, e não ser feliz, eu já fiz isso. Mas hoje não, quando eu vou trabalhar, eu levanto cedo mas feliz, levanto contente porque eu sei que eu estou indo fazer o que eu gosto”, disse.

Cecilia diz que cada mulher tem que ser o que quiser ser, se você gosta de botina não de salto, use sua botina.

“Não resolve você querer ser o que não é, andar em um salto se o que você gosta é uma botina. Eu não sou uma mulher vaidosa, não sou de me arrumar, eu gosto de coisas simples, porque a vida é simples. Para mim ser motorista é gratificante”, disse.

“Eu tenho orgulho em dizer que eu sou motorista, e eu tenho mais prazer ainda de ver o olhar, o sorriso das mulheres que sonham em ser alguém a vida, em ser uma motorista, mas não poder por algum empecilho, dificuldade, ou mudar a letra da carta. E é o que eu gosto de fazer. Se eu puder ajudar mais mulheres a fazer o que eu faço, eu ajudo com certeza”, finalizou.

Sua filha mais velha demonstra o orgulho que sente por sua mãe.

“Ela é uma mulher guerreira a quem eu devo tudo o que sou hoje. Meu maior exemplo, a minha amiga confidente e amorosa. Eu tenho que agradecê-la muito por ter cuidado de nós. Um dia quando for mãe, quero ser igual ela, guerreira”. 

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