Nos últimos anos tem se formado o conceito que a pecuária destrói o meio ambiente. Que ela derruba o cerrado ou a floresta, incendia e aniquila as matas. Só que não. Ao contrário das lavouras, especialmente as de soja e cana, a pecuária na sua modalidade extensiva, preserva o solo e boa parte das árvores.
É o chamado sistema silvipastorial, que consiste em criar gado no meio da vegetação natural, extraindo das pastagens o mínimo possível da vegetação.
Nossa reportagem entrevistou um dos mais conceituados pesquisadores da EMBRAPA- Gado de Corte em Campo Grande (MS) para falar sobre esse assunto. Valdemir Antônio Laura, agrônomo e mestre formado na UNESP de Ilha Solteira disse que a criação extensiva, com o gado no meio das árvores proporciona não apenas um rendimento satisfatório, como atende a uma nova exigência que ganha valor no mercado: o bem-estar animal.
JORGE NAKAGUMA
Queremos com essa reportagem, homenagear nosso saudoso Jorge Nakaguma, um dos primeiros grandes pecuaristas a instituir o sistema silvipastorial em suas propriedades no Mato Grosso do Sul e São Paulo. Nakaguma morreu no ano passado e deixou o grande legado da experiência bem sucedida de criar gado de corte, com o menor impacto ambiental entre todas as formas de intervenção no solo para produção de alimentos.
Entrevista
1- O consórcio da pecuária de corte com eucalipto ou outra vegetação, até mesmo natural, tem futuro? Por que?
VALDEMIR - Acredito que o consórcio tenha muito futuro, por alguns fatores importantes e atuais na discussão dos sistemas de produção. Um deles é o bem estar animal. Cada vez mais os mercados consumidores mais exigentes estão preocupados com esse item. As condições tropicais da nossa pecuária de corte propiciam temperaturas fora da zona de conforto térmico para os animais e, as árvores no sistema, reduzem as amplitudes de temperaturas, melhorando a ambiência para os animais.
Outro fator importante é o balanço dos gases de efeito estufa (GEE) nos sistemas de produção. Nesse sistema de criação de gado de corte com árvores, estas absorvem o gás carbônico pela fotossíntese e o imobilizam nos seus tecidos (sequestro), mitigando ou neutralizando o metano entérico emitido pelos bovinos, ou seja, uma carne com menor emissão de GEE, como o mercado deseja. A Embrapa criou, em 2019, a “Plataforma Pecuária Baixo Carbono Certificada”, com o objetivo de reunir marcas-conceito representadas por selos de garantia para a comercialização da carne bovina e seus derivados. Nesta plataforma está incluída a “Carne Carbono Neutro” (CCN), cuja certificação é focada na neutralização do carbono em sistemas com a presença de árvores plantadas, como silvipastoris ou agrossilvipastoris (ILPF), e a “Carne Baixo Carbono” (CBC), elaborada para carne produzida em sistemas em integração lavoura-pecuária (ILP) ou em pastagens bem manejadas, sem a presença de árvores.
2- Qual a relação de custo/produtividade do sistema pecuária/floresta e da monocultura do capim ou eucalipto?
VALDEMIR- Essa é uma questão muito complexa, pois depende do tipo de solo, clima, localização, número de árvores, nível tecnológico adotado etc. Das análises econômicas já realizadas por colegas da Embrapa, tem-se que o sistema é mais produtivo e lucrativo do que os respectivos monocultivos. Os preços, tanto da carne quanto dos produtos madeireiros variam em função dos ajustes macroeconômicos, portanto não é possível fazer comparações com números fixos entre os sistemas.
3- O mundo que anunciou pagar mais pelo “boi verde” abandonou a ideia de apoiar quem preserva?
VALDEMIR - Agregar serviços ecossistêmicos e/ou atributos ambientais à imagem e ao valor da atividade agropecuária brasileira sempre foi um grande desafio para o País, pois a captura de valores intangíveis incorporados à carne e outros derivados, e transformação destes em remuneração aos atores da cadeia, requer mapeamento e gerenciamento do processo.
Uma vez que tenhamos a carne bovina com valor agregado, o fato de pagar a mais dependerá da demanda e da disponibilidade do mercado a pagar, o que oscila ao longo do tempo.
4- O boi gordo está na região de terras mais baratas. Por que? O monopólio de grandes frigoríficos pode estar aniquilando a concorrência e achatando o preço do boi gordo? Isso é verdadeiro?
VALDEMIR - A pecuária de corte situa-se nas áreas marginais para a agricultura, em função da sua menor lucratividade relativa e da maior remuneração das terras pela agricultura, ou seja, é necessário buscar áreas com menor custo da terra.
Pessoalmente não acredito que se possa dizer em monopólio de frigorífico, pois temos pelo menos três grandes corporações que comercializam a carne bovina e seus derivados, talvez se possa dizer que há um oligopólio para o mercado consumidor. Considerando o lado do pecuarista como vendedor do boi gordo e os frigoríficos como compradores, poderia até dizer que há um possível oligopsônio, ou seja, uma estrutura de mercado caracterizada por haver um número pequeno de compradores de um produto específico. Entretanto, a carne bovina é uma commodity e tem seu preço definido globalmente pelo equilíbrio entre oferta e demanda, assim como o preço da soja ou do petróleo. É nesse sentido que se pretende apresentar ao mercado um produto com diferencial no balanço de GEE, garantido por uma certificação, que agregaria valor ao mesmo, deixando de ser uma commodity.