Viver Mais

'Desde criança colocava as roupas, os sapatos da minha vó'

A drag queen Rajhi Silva deixou Araçatuba (SP) em busca de oportunidades em São Paulo, em plena pandemia; em entrevista, ela conta sobre sua expressão artística e os desafios enfrentados nesse período

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
25/07/21 às 19h25
(Foto: Nelson Barbosa/Divulgação)

Nascido em berço evangélico, o araçatubense Gabriel Silva da Costa, de 22 anos, não pensou duas vezes quando decidiu assumir sua homossexualidade para a família e amigos da igreja que frequentava. Na época, teve apoio de todos, principalmente da avó, a qual chama de mãe.

Também não reprimiu a sua identificação com as drag queens e, quando usou roupas femininas, peruca (ou lace) e maquiagem pela primeira vez, viu que era esse o seu caminho para os palcos. Nasceu, assim, a personagem Rajhi Silva, nome artístico que será adotado nesta matéria também.

É importante destacar que drag queen é uma artista que usa elementos, na maioria das vezes, do sexo oposto, para expressar uma linguagem. Não possui relação com identidade de gênero ou orientação sexual – um homem heterossexual pode ser uma drag queen, por exemplo. Geralmente, as drags se montam apenas para as apresentações artísticas ou ocasiões pontuais. 

"Não queria estar no mundo sendo apenas um homem gay. Desde criança colocava as roupas, os sapatos da minha vó. Eu me realizava. Me encontrei como drag queen aos 19 anos. Quando me montei pela primeira vez, minha vó estava ao meu lado, me apoiando", conta. 

Rajhi atua como cantora, dançarina - fez oito anos de balé -, apresentadora e modelo. Em Araçatuba (SP), antes da pandemia, chegou a se apresentar em algumas festas particulares e também no espaço Oficina de Macacos, local que foi palco do seu primeiro show.  

Rumo a São Paulo

Há oito meses se mudou para São Paulo em busca de expandir seus trabalhos como drag queen. A ideia veio da sua avó, já que boa parte da família mora na capital paulista. Em uma semana, já haviam decidido sobre a mudança e partiram. 

Por conta da pandemia, os palcos estão tendo que esperar. No dia a dia, seu trabalho é na área de telemarketing. Porém, Rajhi afirma que já tem dois shows marcados para o ano que vem em duas das principais casas noturnas LGBT de São Paulo. Enquanto esse momento não chega, ela prepara repertório com músicas mais atualizadas, seleciona bailarinos que a acompanharão, escolhe novos looks etc.

Rajhi também conta sua história no projeto cultural Limoeiro 2k21, onde fala da sua trajetória e outros assuntos, e se apresenta cantando e dançando. ( confira o vídeo abaixo ).

Descoberta 

Ao Hojemais Araçatuba , a artista diz que sempre gostou de cantar e dançar, e vendo as drags famosas, como RuPaul, Glória Groove, Pabllo Vittar, sua mente foi se abrindo para o universo. "Me realizei com isso", frisa. 

Porém, não foi fácil essa transição de Gabriel para Rajhi. "Quando comecei a fazer shows e a me montar, foi tudo direto. Não tive um tempo para pensar sobre como seria a maquiagem, ensaiar canto. Quando vi, estava em cima do palco, cantando, maquiada".

Para ficar pronta, Rajhi demora cerca de três horas. Segundo ela, o público LGBT busca muito a perfeição da estética. A lace tem que estar alinhada, a maquiagem impecável e a roupa tem que passar uma mensagem. "Tento buscar as características femininas. Tem que ter um preparo, conhecer o próprio rosto para fazer os consertos necessários para ficar um rosto feminino".

Para isso, ela buscou informações nas redes sociais, como Youtube, e recebeu dicas do amigo maquiador Douglas Pinheiro, que ensinou várias técnicas. As roupas, sapatos, maquiagens, são presentes da avó, que acaba comprando tudo o que ela precisa para as suas apresentações. "Tudo o que aconteceu na minha vida até aqui é por conta da minha avó".

Quem é Rajhi?

O nome Rajhi foi sugestão de um amigo, Rafael Fidels, que fez uma referência ao personagem indiano Rajhi, do seriado The Big Bang Theory . Como na época não tinha um nome artístico, gostou da ideia e adotou Rajhi Silva para os palcos. 

A araçatubense conta que as pessoas dizem que há diferença entre ela e Gabriel. "O Gabriel é delicado, calmo, gosta de conversar. A Rajhi tem isso do Gabriel também. Não consigo ver diferença entre nós, porque eu me sinto sendo o Gabriel, só que de uma forma mais expressiva. A Rajhi é uma expressão do Gabriel que não pode ser o dia todo. É um lado do Gabriel que ela mostra". 

Rajhi ainda ressalta que sua personalidade é uma mistura de Gabriel com todas as mulheres do mundo e que a sua transição para se tornar drag queen vem desde a infância. "Gosto de brincar com roupas e maquiagem, mas na essência, a Rajhi quer passar para as pessoas, e quer se colocar também, como uma mulher forte."

(Foto: Divulgação)

Respeito

A artista explica que há ainda muita confusão na sociedade sobre o trabalho das drags. Inclusive, ela conta que já foi comparada com mulher trans. "Eu não sou trans, sou drag queen. Tudo é relacionado a uma forma de expressão. Expressamos o que sentimos, o que nós somos. Eu sempre quis ser uma mulher, mas ao mesmo tempo estar no corpo de homem. Me identifico com o Gabriel e também quando estou vestida de mulher". 

"É muito interessante ser drag, porque não fico numa forma padrão, eu não gosto de padrão. Eu posso estar com peruca preta num dia, rosa no outro. Eu gosto dessa brincadeira com a maquiagem". 

Ela comenta também que há na sociedade, fetiche por drags e que algumas pessoas acabam confundindo o trabalho com prostituição. "Sempre me vejo como profissional, como cantora, apresentadora, dançarina, modelo. Coloco limites. Rajhi é uma construção, que vem desde o meu nascimento, com a educação que eu tive da minha família. Tudo se resume a isso". 

Inspirações

Além de se inspirar em nomes já citados por ela, e artistas mais antigas, como Nany People e Silvetty Montilla, Rajhi afirma que sua família tem veia artística e desde criança ouve muita música e seus familiares cantando e tocando. 

Rajhi canta músicas de vários estilos, não apenas do meio LGBT, e isso, segundo ela, é um grande diferencial. "Eu canto de tudo, forró, samba, rock, quem sabe até um louvor. Ser eclética é um diferencial, porque não gosto de me limitar. No meu show não vai só o público LGBT, vai todo mundo, famílias. Tenho que acolher todo esse público, porque ele também me acolhe". 

Limoeiro 2K21

O vídeo com Dalla Déa está disponível na programação do Limoeiro 2k21 ‘Ambiente Cultural On-Line’, uma plataforma que, na prática, funciona como um festival permanente de artes integradas com acesso livre e gratuito.

Concebido pela Aruê! Arte, Cultura e Holismo, produtora em Araçatuba (SP), dirigida por Rafael Batista, o Limoeiro é realizado por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC Expresso LAB), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e do Governo Federal - Lei Aldir Blanc.

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM VIVER MAIS
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Empresa Jornalística e Editora LTDA
32.184.870-0001/54
Editor responsável:
Aline Galcino - MTB: 43087/SP
aline.galcino@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2021 - Grupo Agitta de Comunicação.