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Professoras de Araçatuba apontam literatura e cultura como alternativas para a construção da autonomia da mulher

Bárbara Bedran e Amanda Barros conversam sobre literatura, feminismo e cultura; bate-papo pode ser conferido em programação on-line

Da redação - Hojemais Araçatuba
18/07/21 às 17h10

O número de registros de violência contra as mulheres no Brasil aumenta ano após ano. Dados divulgados em março de 2021 em pesquisa feita pelo CNJ (Conselho Nacional da Justiça), mostra que o Brasil teve 105 mil denúncias registradas somente em 2020.

Nos últimos dias, o assunto ficou ainda mais em evidência nas redes sociais depois da exposição de vídeos em que um famoso agredia violentamente sua então esposa, que o denunciou e divulgou o caso publicamente.

“Vivemos em uma sociedade extremamente machista, misógina, sexista, que nos oprime e nos mata e que, praticamente, dobra os números de seguidores de um agressor em uma das plataformas de redes sociais mais lucrativas do mundo”, enfatiza a professora Amanda Barros, de Araçatuba (SP). 

No entanto, diante de tantos fatores que contribuem para essa triste e cruel estatística, existem alguns caminhos que podem ser trilhados para que cada vez mais mulheres consigam sair de situações como essas e, para além disso, que casos de violência não sejam mais normalizados. E a literatura, arte e cultura podem ser alguns deles. 

(Foto: Divulgação)

Amanda explica que a literatura, por exemplo, contribui diretamente para a construção da autonomia da mulher justamente pela forma explícita que a leitura tem de nos informar e passar a informação. “Acredito que a informação é uma potência para a mulher se construir dentro da realidade patriarcal que nós vivemos”, diz.

A professora ainda ressalta que a literatura, assim como qualquer outro tipo de leitura, é também uma forma de expansão do conhecimento e da autonomia. “É muito difícil algumas informações chegarem em alguns grupos sociais, porque é, de fato, um projeto que isso não chegue. A gente sabe que existe um projeto para que parcela da sociedade continue analfabeta, semianalfabeta ou analfabeta tecnológica. Precisamos, então, quebrar essas barreiras para que cada vez mais mulheres tenham acesso. Ler não será prioridade se a barriga estivar vazia, por exemplo”, destaca.

Expansão por meio das palavras

Bárbara Bedran é letróloga e professora da rede estadual ensino e, para ela, a literatura é a arte da palavra, da escuta, do conhecimento amplo. “Por meio dela, podemos relacionar informações, acessar mulheres incríveis e lê-las. É ter acesso mais profundo ao mundo e suas reais necessidades. É também ter a escuta mais aguçada. É para além de se identificar com histórias: é acessar a História e entender como viemos parar aqui e agora”, frisa. 

“Nosso passado é monstruoso e coberto de atitudes macabras. Esses ‘valores’ foram nutridos e reformulados no decorrer de todo tempo histórico, muito focado na ascensão do homem e decadência da mulher. Em contrapartida, muitas mulheres estiveram e estão numa linha de frente ferrenha rachando a todo custo essa engrenagem que desfavorece a todes, que é o sistema patriarcal”, ressalta Bárbara.

Bárbara ainda destaca que, quando se fala de textos, é importante pontuar tudo aquilo que gera comunicação, logo quando se fala de leitura, fala-se, sobretudo, da comunicação com o mundo e a literatura é um pedaço de toda amplitude da troca.

“Acredito ser a música a maior e mais potente ferramenta textual, onde temos acesso ao que se sentem e ao que se pensa de uma maneira incrível. Dá para conhecer muito através da música e ouso dizer que é o ‘lado B’ da história. Temos mulheres incríveis contando e denunciando histórias nos mais variados gêneros musicais, nos acolhendo, nos informando, fortalecendo nossa autoestima e nos provocando à reflexão”, afirma Bárbara. 

Falta de acesso

Por outro lado, é preciso levar em consideração que, hoje, muitas mulheres não têm acesso à informação e, principalmente, à leitura.

“Normalmente, essas mulheres são pobres, mulheres pobres pretas, mulheres indígenas. Mas qual alternativa para esses casos? É preciso mesclar leitura e cultura. Não a cultura do senso comum, mas a cultura de identidade. A leitura precisa ser colocada de acordo com a pessoa que terá acesso. Quebrar com o classicismo que foi colocado em cima da informação, escolarização e leitura. O sertão é cultura, o funk é cultura, o hip-hop é cultura. E é possível transformar essas culturas em leitura e não somente temas que as pessoas consideram cultura. Desta forma, fica gostoso e acessível”, afirma Amanda.

Houve avanços?

A luta pelos direitos das mulheres não começou agora. Pelo contrário. Apesar do longo percurso até os dias de hoje, será que é possível apontar avanços? Para Bárbara, quando se olha para o macro, a impressão é que poucos avanços ocorreram.

“Não foram poucos, porém, ainda não suficientes. Temos muito a avançar e não há avanço sem conhecimento, consciência e intenção de mudar. Para melhor, claro. Quando acessamos a real história da sociedade, percebemos que o momento atual ainda é o menos violento comparado ao que nossas antepassadas vivenciaram. São tantas atuais, reformuladas violências que não podemos nos apegar ao presente menos pior que o passado. Nós temos que nos tocar em grande número e agir no dia a dia com foco de uma sociedade sem violência legitimada pelo estado contra mulher.  São nossas atitudes de base, atitudes diárias que fortalecem mais e mais a queda desse sistema que tanto nos violenta”, dia.

Já para Amanda, o avanço tem ocorrido a passos curtos. “Estamos caminhando. E quando digo caminhando não é diminuindo os passos das mulheres que nos abriram caminhos. É como diz a frase: ‘se hoje eu corro é porque muitas mulheres caminharam’. Então, eu considero que nós estamos caminhando em passos firmes, pontuais, mas ainda não vejo nossa realidade como um avanço”, aponta.

Limoeiro 2K21

O vídeo com Bárbara e Amanda está disponível na programação do Limoeiro 2k21 ‘Ambiente Cultural On-Line’, uma plataforma que, na prática, funciona como um festival permanente de artes integradas com acesso livre e gratuito.

Concebido pela Aruê! Arte, Cultura e Holismo, produtora de Araçatuba dirigida por Rafael Batista, o Limoeiro é realizado por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC Expresso LAB) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado de São Paulo e do Governo Federal - Lei Aldir Blanc.

 

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