Ciência e Tecnologia

Rede Brasileira de Mulheres Cientistas mobiliza pesquisadoras de Maringá

Um grupo de mulheres cientistas lança, nesta segunda-feira (19), a Rede Brasileira de Mulheres Cientistas em busca de impactar as políticas públicas em meio à pandemia da Covid-19

Redação HojeMais Maringá - Kris Schornobay
19/04/21 às 09h30

Um grupo de mulheres cientistas lança, nesta segunda-feira (19), a Rede Brasileira de Mulheres Cientistas em busca de impactar as políticas públicas em meio à pandemia da Covid-19. Elas se reuniram num manifesto , que já conta com milhares de assinaturas, para denunciar falhas e exigir providências, de forma coordenada, às demandas femininas, entre elas, maior participação nas esferas de decisão. As investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, por exemplo, serão conduzidas exclusivamente por senadores homens, não há nenhuma mulher na comissão, sendo que as mulheres foram as mais atingidas nestes 14 meses de crise sanitária.

Durante a pandemia, aumentaram os relatos de violências sofridas pelas mulheres —o que a carta sublinha. Mas, além dessa violência, de forma geral mais falada e explícita, há uma precarização geral, afirma Flávia Biroli, professora de Ciência Política da UnB e integrante da rede.

"É preciso lembrar que a taxa de desemprego do último trimestre de 2020 foi de 14,4%, subindo para 17% entre as mulheres. A taxa de participação destas na força de trabalho remunerada caiu para 46,3%, a menor em 30 anos. Como em outras partes do mundo, a vulnerabilidade tem rosto de mulher. Isso compromete a autonomia e integridade dessas mulheres, mas também as de crianças, adolescentes e idosos, já que quase metade dos lares brasileiros são por elas sustentados. A desigualdade é ainda mais perversa no caso de mulheres negras e pobres, marcadores sociais de diferença que interseccionados revelam um grupo ainda mais vulnerável." Diz a carta, que segue distribuindo dados concretos sobre a pressão que se impõe à sobrevivência das mulheres.

A carta usa os próprios dados do governo para denunciar a situação; a Pnad Contínua, do IBGE aponta que 8,5 milhões de mulheres deixaram a força de trabalho no terceiro trimestre de 2020 (dado mais recente), na comparação com o mesmo período de 2019, ou seja, antes da pandemia. Com isso, mais da metade das mulheres com 14 anos ou mais ficaram fora do mercado de trabalho —a participação na força de trabalho era de 45,8%, queda de 14% em relação ao anos de 2019.

Uma das ideias do grupo é agir com assessoramento técnico-científico junto a agentes públicos, pensando no legislativo e no poder municipal, principalmente ao se considerar que o poder federal, basicamente na figura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), tem muitas vezes ignorado o conhecimento científico disponível. Além disso tudo, ainda existe a questão hisórica de "apagamento" das figuras femininas na ciência. 

A professora Marta Bellini é bióloga de formação, pós graduada em Educação, doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo, professora associada da Universidade Estadual de Maringá desde 1986 e atua em diversas áreas transversais com projetos de Pesquisa nas áreas de Epistemologia Genética e Retórica aplicada à educação. A pressão sobre a produção científica das mulheres nunca foi novidade para ela. Marta conta que há anos trabalhou numa pesquisa com coordenação de um homem que pôs o nome dele como autor de um livro que ela e uma orientanda fizeram.

"Ele poderia ser o coordenador, mas quis a autoria sem ser autor. O patriarcalismo, a mentalidade escravocrata, a misoginia, o deboche são armas de luta de muitos cientistas homens ou de burocratas dos recursos financeiros. A posição de muitos homens mudou muito. Há uma legião de colegas homens que mudaram. Mas há o núcleo duro da instituição. No currículo lattes não pode ter um período sem produção. As mulheres cientistas mães que ficam no período dos primeiros cuidados e construção dos afetos sem publicar. Temos um direito usurpado pelos ditames burocráticos do currículo."

O desprezo pelas mulheres na ciência é histórico, mas as reações a ele também vêm sendo escritas e registradas. A professora Ana Lúcia Rodrigues, hoje vereadora, passou a vida acadêmica envolvida com pesquisas em Políticas Públicas e Desenvolvimento. Agora vive na prática, na câmara de vereadores, a possibilidade de mudar essa realidade.  "Estou subscrevendo a Carta como pesquisadora da UEM, a segunda universidade do mundo com a maior proporção de mulheres pesquisadoras. Louvável e imprescindível esta iniciativa, especialmente neste momento de retrocesso do governo federal no que se refere ao financiamento da Ciência e Tecnologia e à valorização do conhecimento para responder a tantos sofrimento que o país está enfrentando." Enfatiza.

Maringá tem uma boa participação feminina,mas é preciso que ela seja ouvida e valorizada, diz a professora Carla Almeida, do Departamento de Ciências Sociais, da UEM  e Coordenadora do Mestrado em Políticas Públicas. Ela avalia o movimento como fundamental num contexto tão dramático e percebe Maringá como uma cidade privilegiada quanto à rede de apoio às mulheres, em comparação com outras cidades do país. O município tem uma Secretaria da Mulher, estruturas públicas de apoio à segurança das mulheres, um Conselho Municipal da Mulher, uma universidade com dezenas de cientistas mulheres gerando conhecimento e que já aderiram ao movimento.

"Não é o ideal, ainda há muito a se fazer, mas já é o suficiente para que se articule formas de incluir as cidades da região nessa discussão das questões de gênero e  ajudar a implantar políticas pública que valorizem o saber e o conhecimento produzido por mulheres onde for necessário." Explica.

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Franquia:
Maringá PR
Franqueado:
SPOT COMUNICACAO DIGITAL LTDA
37.794.547/0001-16
Editor responsável:
Victor Faria / Kris Schornobay / Amaro de Oliveira
contato@mga.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2021 - Grupo Agitta de Comunicação.