Cultura

Em recurso do Prêmio Aniceto Matti, cineasta ataca outro artista: "pedagogo com a voz afetada"

Caso repercutiu nas redes sociais e no meio artístico do município; José Padilha perdeu edital, criticou pareceristas, Semuc, Prefeitura e o artista Danilo Furlan

Victor Faria - HojeMais Maringá
23/07/21 às 09h00

Um recurso protocolado no prêmio Aniceto Matti causa indignação nas redes sociais, desde quinta-feira (17). No documento - público e oficial - protocolado junto a Semuc (Secretaria Municipal de Cultura), um dos concorrentes do prêmio, José Padilha, critica as notas dadas pelos pareceristas e ataca de forma velada, o artista Danilo Furlan, que ficou em primeiro lugar na categoria de literatura do Aniceto Matti.

"Se a pior situação de risco que você esteve foi, dentro de um escritório de paredes brancas, atrás de escrivaninha, cortar-se numa folha de papel em branco, ou aforgar-se na burocracia, entre um copo de café e outro, desculpe mas você não tem currículo para me julgar, te falta repertório", diz um trecho do recurso.

José Padilha é cineasta. Segundo afirma no recurso participou de mais de 120 homenagens e prêmios internacionais de cinema. Até a tarde de quinta, ele era o presidente da Procinema (Polo Cinematográfico de Maringá), mas foi afastado de suas funções após toda polêmica envolvendo o caso. Além de diminuir os pareceristas do edital, ele criticou o vencedor do prêmio na área de literatura, Danilo Furlan.

"Quanto vale estar numa encruzilhada entre a vida e a morte? Quanto vale ser passageiro privilegiado nessa viagem? Quanto isso vale como experiência de vida? No formulário de gabarito dos avaliadores do Prêmio de Literatura de Maringá não vale nada, ou quase nada, vale a nota mínima. Vale menos do que um pedagogo com voz afetada, vestindo um figurino de trapos sem sentido estético equilibrando um penico num espanador", argumenta Padilha no recurso.

A Secretaria Municipal de Cultura publicou uma nota de repúdio a postura do artista e se solidarizou a Danilo Furlan que foi alvo dos ataques. O município destacou que "medidas cabíveis estão sendo avaliadas pela equipe da Cultura. O secretário se colocou à disposição de Danilo Furlan para todo tipo de apoio". Apesar disso, o recurso publicado - e que solicitada a reavaliação do projeto de Padilha para o primeiro lugar do prêmio, deverá ser analisado, por se tratar de protocolo do edital.

Padilha participou do edital com a obra "Pesadelos da Hora Mais Sombria da Noite - Sobre o Amor, Dor e Outras Fraturas da Alma: Crônicas de Paixões". Sobre o caso, Danilo Furlan se manifestou nas redes sociais, lamentando os ataques e cobrando ações de entidades representativas e da Semuc.

"Hoje minha voz "afetada" foi calada. Por um instante ficou em silêncio para que lágrimas desenhassem meu rosto em uma amarga realidade, a da homofobia. O Brasil é o pais que mais mata LGBTQIA+ no mundo. É por isso que não posso fingir que não aconteceu e simplesmente deixar pra lá. Depois de ter meu projeto "Convite a Contação de Histórias " aprovado em primeiro lugar na categoria Literatura, obtendo a 3° maior nota de todo edital, recebi um ataque gratuito de homofobia sendo chamado de "pedagodo da voz afetada" em um dos recurso apresentados", disse Furlan em uma pubicação no Facebook.

O CASO

Por não ter ficado em primeiro lugar no prêmio e depois de ter recebido notas baixas do corpo de pareceristas do edital - contratados para avaliar cada projeto de forma independente - José Padilha disse ter seu projeto rejeitado é a maior vergonha que a Semuc já passou em sua história. Confira o trecho específico:

"Insustentáveis cultural e artisticamente os argumentos lançados pelos 'avaliadores' que se traduzem em mera opinião, destituída de análise crítica, desarrazoadas inclusive com os critérios objetivos do edital, que são veementemente refutados e a se persistirem macularão o edital e principalmente a Secretaria de Cultura que ao homologar tais ignomínias estará assinando termo do qual se envergonhará e será objeto de ridicularização pelo resto de sua existência, atentando mortalmente contra sua credibilidade e domunicípio", enfatiza o recurso.

Depois de toda sua defesa, Padilha torna a atacar o artista Danilo Furlan. Segundo ele, um projeto de literatura oral - ou de leitura, caso da contação de histórias - nunca seria mais relevante do que a publicação de um livro. Furlan, além de artista é também pedagogo e escritor. É um profissional reconhecido e respeitado na área em todo o território nacional.

"Como um projeto de PEDAGOGO vestido de trapos e manipulando um espanador e um penico será tomado como modelo em sua área artística e cultural? Na área artistica jamais, até porque pedagogos não são artistas, são pedagogos. Qual a relevância cultural de uma contação de história numa biblioteca pública? É mais relevante que um livro?", indaga Padilha.

O QUE DIZ JOSÉ PADILHA

Confira a resposta de José Padilha na íntegra:

"Primeiro, gostaria de agradecer ao Portal porque é o primeiro órgão que me dá oportunidade do contraditório.

Segundo, esclarecer que meu recurso foi encaminhado a e-mail privativo, de acesso exclusivo,  direcionado aos avaliadores, e questionando o julgamento do meu projeto, sem a observância dos critérios estabelecidos no edital e em desconformidade com o tratamento dado a outros projetos, inclusive os classificados.

Terceiro, que, das 6.775 palavras e 29 páginas do recurso, foram retiradas do contexto quatro palavras, atribuindo-lhes conotação diversa da exarada.

Quarto, que dentro do contexto fica evidente que faço uma análise crítica do senso estético dos projetos classificados e, em absoluto, da carreira profissional de quem quer que seja.

Quinto, em nenhum momento das 29 páginas, em absoluto, em nenhum momento, me referi pessoalmente ao artista Danilo Furlan, ou à sua orientação homoafetiva, que desconhecia, tanto a pessoa quanto a orientação, pelo simples fato de que a orientação homoafetiva e carreira artística dizem respeito única e exclusivamente a Danilo Furlan, às suas relações de afeto, e a ninguém mais.

Sexto, que, instalada a controvérsia à partir da interpretação equivocada da manifestação, rejeito  veementemente qualquer atribuição do odioso crime de homofobia, a mim que, em toda minha existência, sempre fui militante das causas LGBTQIA+. Inclusive porque nenhum dos linchadores de redes sociais pode atestar ou certificar de forma inconteste que minha orientação homoafetiva não esteja abrangida na sigla LGBTQIA+, ou não encontre abrigo embaixo da bandeira do arco-íris.

E, o principal, compreendo perfeitamente que, em sua vida, Danilo Furlan deva ter sofrido toda sorte de preconceitos e discriminações, assim como invariavelmente todas as pessoas de orientação LGBTQIA+. Elas têm meu respeito, minha admiração, minha solidariedade e minha disposição de luta.

Lamento profundamente que a interpretação equivocada de minhas palavras tenha sido motivo de dor. Somos todos almas fraturadas numa jornada em busca de afeto, carinho, amor, respeito e compreensão. Danilo Furlan, quando e se um dia for possível, receba meu abraço e meu afeto.

Fico à disposição para outros esclarecimentos."

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