Economia

E a soja trouxe US$ 5 bilhões no mês

Marcos Fava Neves é professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Peto (FEA-RP) da USP

Jornal da USP - Marcos Fava Neves
24/08/21 às 19h32

Vamos às reflexões dos fatos e números do agro em agosto e a lista do que acompanhar em setembro. No cenário econômico nacional, segundo o boletim Focus do Banco Central do Brasil, a expectativa do mercado para a taxa Selic voltou a crescer, agora estimada em 7,5% para o final de 2021, mas deve manter seu patamar em 2022. No PIB, espera-se um crescimento de 5,28% neste ano e de 2,04% no próximo. Já no IPCA, os valores devem ser de 7,12% em 2021 e 3,87% em 2022, enquanto o dólar deve chegar a R$ 5,10 e R$ 5,20, respectivamente. Outro bom sinal para a economia brasileira foi o crescimento do setor de serviços de 21,1% em junho, quando comparado ao mesmo mês de 2020. Também houve crescimento de 1,7% frente a maio, segundo o levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

No agro mundial, o relatório do USDA, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, sobre oferta e demanda global de grãos do ciclo 2021/22 revelou algumas alterações nos indicadores de produção daquele país. Os Estados Unidos devem produzir 118,1 milhões de toneladas de soja, o que representa diminuição de 1,8 milhão de toneladas em relação à previsão de julho, enquanto no milho a redução foi mais drástica, de 385,21 milhões para 374,67 milhões de toneladas. Na soja, as estimativas para o Brasil e Argentina foram mantidas em, respectivamente, 144 milhões e 52 milhões de toneladas, enquanto no cenário global o volume total foi reajustado para 383,63 milhões de toneladas, com estoques de 96,15 milhões de toneladas. No milho, a produção brasileira foi avaliada em 118 milhões de toneladas e a da Argentina em 51 milhões de toneladas, mantendo as previsões anteriores. Já no cenário global do cereal, a produção foi reajustada para 1.186,12 bilhão de toneladas e os estoques para 284,63 milhões de toneladas.

A estimativa de agosto da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sinaliza um aumento de 1,2% na produção brasileira de grãos no ciclo 2020/21 em relação ao passado, alcançando o volume de 254 milhões de toneladas. No entanto, em comparação à previsão de julho, o volume foi reduzido em 6,8 milhões de toneladas, devido as consequências da seca e das geadas na região Centro-Sul do país. O milho safrinha deve apresentar redução em sua produção de 19,3%, totalizando 60,3 milhões de toneladas colhidas, enquanto em julho eram esperadas quase 70 milhões de toneladas. Já no trigo, as expectativas de produção estão em 8,59 milhões de toneladas (+37,8%) diante do aumento de área plantada para 2,7 milhões de hectares (+15,1%) e produtividade (+19,7%). Com a colheita praticamente encerrada, o volume de soja está avaliado em 136 milhões de tonelads (+8,9%) numa área de 38,5 milhões de hectares (+4,3%). E, finalmente no algodão, estima-se queda na produção de 22%, agora em 2,34 milhões de toneladas de pluma, visto a queda na área plantada para 1,36 milhão de hectares (-18%).

O Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) revisou para cima o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) no mês de julho, de R$ 1,099 trilhão para R$ 1,109 trilhão, o que representa um incremento de 12,8% frente a 2020. As lavouras devem faturar R$ 757 bilhões (+12,8%) enquanto a pecuária deve somar R$ 352 bilhões (+4%).

As exportações brasileiras do agronegócio atingiram valor recorde para o mês de julho, totalizando US$ 11,29 bilhões, 15,8% a mais que os valores constatados no mesmo mês de 2020, de acordo com dados do Mapa. Apesar da queda no volume exportado de quase 10%, os preços 28,5% superiores têm sustentado o incremento na receita das vendas externas. O complexo soja liderou os embarques, com valor recorde para o mês de US$ 5,01 bilhões (+21,6%), com destaque para a soja em grão, que representou 78% do valor do segmento. Do mesmo modo, as carnes somaram valor recorde de exportação para o mês de US$ 2,03 bilhões (+34,9%), sendo que apenas na carne bovina as vendas alcançaram US$ 1,01 bilhão (+30%). Os produtos florestais aparecem na terceira posição no ranking, totalizando embarques de US$ 1,30 bilhão (+41,4%), com a exportação de madeira chegando a US$ 540,31 milhões (+71,0%). Já o complexo sucroenergético ficou na quarta colocação, com exportações de US$ 930 milhões (-10,5%). O setor de farinhas e preparações se consolida na quinta posição, somando vendas externas de US$ 469,08 milhões (-37,5%), sendo o milho responsável por 85% desse montante.

Os embarques de café apresentaram redução de 12,8% no mês de julho, com volume de 2,826 milhões de sacas de 60 kg, segundo estatísticas do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). A queda no volume é explicada por entraves logísticos, dada a concorrência por containers e navios com outros produtos. No entanto, no acumulado, as remessas de café ao exterior já somam 23,737 milhões de sacas em 2021, um incremento de 2,2% em comparação ao mesmo período de 2020, com uma receita total de US$ 3,20 bilhões (+7,0%). Os maiores importadores globais de café são: Estados Unidos, com 4,52 milhões de sacas (+4,5%); Alemanha com 4,18 milhões de sacas (+5,5%); e a Bélgica, com 1,69 milhão de sacas (+1,1%).

Por outro lado, as importações do setor evidenciaram aumento de 25,8%, alcançando US$ 1,24 bilhão. Com isso, o agronegócio entregou um saldo positivo de US$ 10,05 bilhões no mês, 14,68% maior que no mesmo período do ano de 2020. As importações de milho para atender principalmente a indústria de produção animal devem crescer 76,5%, chegando a 2,42 milhões de toneladas, conforme estimado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). A estratégia de importação visa reequilibrar os preços do cereal no mercado doméstico e trazer alento ao setor de proteínas, pressionado pelas altas cotações do milho.

Desde janeiro de 2019, o Mapa vem conduzindo acordos comerciais que resultaram na abertura de 150 mercados para produtos agropecuários em 43 países diferentes. Assim, o Brasil tem aumentado o seu leque de compradores e fortalecido o seu portfólio de produtos em um trabalho muito forte da pasta.

Dado interessante divulgado pelo Ministério da Economia mostra que o Brasil importou 16,63 milhões de toneladas de fertilizantes entre janeiro e junho de 2021 (1° semestre), somando um total de US$ 4,6 bilhões em compras. Na comparação com o mesmo período de 2020, o crescimento no volume é de 14,7%, o maior já registrado desde o início da série histórica, em 2010.

Outro fato que marcou o nosso agro em julho foram, infelizmente, os episódios com as geadas, que causaram prejuízos em diversas lavouras como o café, a cana-de-açúcar, a citricultura e hortifrútis em geral. Segundo estimativas da Conab, ao menos 170 mil hectares de café do tipo arábica sofreram danos. Essa área corresponde a 21,25% do total cultivado no país. Segundo a estatal, mais de 300 municípios produtores do grão foram afetados, com impacto maior no norte do Paraná, São Paulo, sul e sudeste de Minas Gerais e no Triângulo Mineiro. Os impactos devem permanecer até a safra 22/23.

Também em julho foi divulgada a nova versão do Anuário do Cooperativismo, pela Organização das Cooperativas do Brasil (OCB). Segundo a entidade, as cooperativas do agro registraram alta no faturamento em mais de 30% em 2020, chegando a R$ 239 bilhões, e com lucros de R$9,6 bilhões, crescimento de 74,5% em comparação com 2019. Já o número de novos cooperados no setor superou os 9,2 mil membros (+1,0%), alcançando pela primeira vez a marca de um milhão de cooperados no agro. Outro dado interessante é que as cooperativas renderam mais de R$8,5 bilhões aos cofres públicos na forma de impostos, valor 30% maior do que o registrado um ano antes. Além disso, o número de funcionários saltou de 207 mil para 223 mil, os quais receberam R$ 7,1 bilhões na forma de salários e benefícios.

Na semana de fechamento desta coluna, o progresso das colheitas pelo Brasil se encontrava nos seguintes estágios: milho segunda safra em 61,5% da área total (71,1% na mesma data de 2020); algodão com 57,3% do total colhido (58,3% em 2020); o trigo se encontrava com progresso de 2,1% (0,6% em 2020); e o café estava com 89% (90% em 2020).

Para concluir a nossa análise geral do agro, os preços dos principais produtos no fechamento desta coluna eram: a soja para entrega em cooperativa de São Paulo estava em R$ 167,30/saca para agosto de 2021 e R$ 160,60/saca para fevereiro de 2022. No milho, a cotação atual está em R$ 95,50/saca e a entrega em maio de 2022 fechou em R$ 93,15 (B3). O algodão fechou em R$ 170,84/arroba; e o boi gordo em R$ 314,30/arroba.

Os cinco fatos do agro para acompanhar em setembro são:

• A finalização da colheita do milho segunda safra e o volume produzido, o avanço das exportações de grãos do Brasil e o abastecimento interno;
• A evolução do clima e dos custos para o plantio da mega safra 2021/22, e as decisões de compra e venda;
• A crise hídrica e as medidas a serem tomadas;
• A crise institucional (política), seus reflexos no câmbio e as perspectivas econômicas com a aceleração da vacinação;
• O andamento da safra americana. As condições das lavouras se deterioraram neste mês. Porém, a perspectiva é de melhora no clima para o encerramento da safra.

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