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Casmurro, Dom desafiou o mundo

Artigo de opinião assinado pelo jornalista Victor Faria

Victor Faria - HojeMais Maringá
16/06/22 às 12h04

Dom é uma palavra interessante. Indica talento natural para algo. As pessoas dizem que alguém tem um dom para algo, quando, mesmo com pouco ou nenhum estudo, alcançam resultados sublimes. "Ele tem o dom da oratória", "Este tem dom para as artes". "Aquele é estudioso, mas não tem dom para isso". Há quem diga que a vida é um dom. No inglês - e neste sentido - dom é gift : um presente que deve ser aproveitado.

Um dom pode ser também um título. Não precisamos nos debruçar muito para encontrar fartos exemplos na literatura ou no cinema. O dom pode ser o padrinho de uma famosa família italo-americana, que ganhou o mundo no início da década de 70, ou algo oblíquo e dissimulado como o que, atento, ouviu a definição de quem era Capitu, na imortal obra de Machado de Assis.

O dom pode ser casmurro. Casmurro, aliás, é um adjetivo que indica as pessoas introspectivas - fechadas em si. Como quase todas as palavras do dicionário português, traz sentido ambíguo. Pode indicar também as pessoas que são teimosas e obstinadas. Casmurro pode ser uma qualidade ou um ônus. Depende, não só da perspectiva, mas da situação.

A vida, sendo um dom, leva contornos que não aceitam as trivialidades sedutoras da ficção. Infelizmente, no mundo, há poucas pessoas que podem ser casmurras sem algum tipo de consequência. Os olhos de mar ressacado, tornam-se água doce atormentada pelos rastros da vida que deixa existir. Verbos são interessantes. Em questão de segundos, altera-se o "é", para "foi". E, assim, indica-se que não mais existe.

Há pouco mais de 10 dias, o mundo procurava por um Dom, vivo como a vida, com os óculos da esperança. A visão, turva feito água, vestiu o Phillips em um tempo verbal diferente: 3ª pessoa no singular do pretérito perfeito de ser. As buscas foram intensas e a repercussão mundial. As vezes o silêncio de réquiem fala mais do que os gritos afoitos, que bradam o ódio ou amor. O luto é, infelizmente, didático.

O jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Araújo Pereira foram casmurros. Intransigentes em suas convicções e na luta pelo melhor. Suas bocas foram caladas, mas suas vozes irão ressoar pelo horizonte, nas matas e selvas de pedra daqueles que se acham imbatíveis. Esses casmurros fizeram mal a si próprios, na esperança de levar o bem ao próximo. Enquanto alguns exaltam o mito, eles se tornam mártires. E que o recado seja dado: o ódio não vai vencer.

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