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Qual o impacto da covid-19 sobre a saúde mental até agora?

Como parte do setembro amarelo, campanha internacional de prevenção ao suicídio, professor da Unesp descreve os reflexos da pandemia sobre problemas como ansiedade e depressão

José Manoel Bertolote - Jornal da Unesp - Redação HojeMais Maringá
25/09/21 às 17h30

A chegada do coronavírus ao Brasil despertou, na maioria das pessoas sensatas e razoáveis, uma preocupação bastante legítima ? apesar da minimização irresponsável  de sua gravidade por parte de altas autoridades nacionais. Com efeito, tratava-se de um vírus emergente e desconhecido, e sua rápida disseminação e taxa de mortalidade não pressagiava nada de bom: o fantasma da Gripe Espanhola, dos anos 1918-1920, ergueu-se de sua tumba.

Em suas quatro ondas, a gripe espanhola, causada por um vírus H1N1, atingiu praticamente todos os países do mundo e infectou cerca de um terço da população mundial da época: cerca de 500 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 10% morreram. Foi provavelmente a mais mortal pandemia da história da humanidade.

A COVID-19, causada por um coronavírus, o SARS-Cov-2, foi identificada pela primeira vez no interior da China em dezembro de 2019. Sua disseminação foi tão rápida que, em 24 de janeiro de 2020, um relatório publicado pelo periódico Lancet assinalou o potencial que a doença tinha para se tornar uma pandemia e recomendou que o pessoal sanitário passasse a usar equipamentos especiais de proteção; em 30 de janeiro de 2020, com um fator de transmissão de 1:100 a 1:200, a Organização Mundial da Saúde OMS) declarou o coronavírus uma Emergência de Saúde Pública de Preocupação Mundial.

Em 11 de março de 2020, o coronavírus já estava presente em 114 países, com mais de 118.000 casos e de 4.200 óbitos, o que levou a Diretor-Geral da OMS a declarar a COVID-19 uma pandemia .

Em 31 de janeiro de 2020 a Itália registrou os primeiros casos de COViD-19, em dois turistas chineses. No dia 19 de março de 2020, o país já registrava mais casos de morte por COVID-19 do que a China. O primeiro caso de COVID-19 no Brasil foi identificado em 26 de fevereiro de 2020, em um homem de 61 anos recém-retornado da Itália.

Nessa mesma data, o Ministro da Saúde do Brasil declarou a COVID-19 uma “emergência em saúde pública”, embora seis dias antes o Presidente da República, em uma entrevista coletiva de imprensa, tivesse qualificado a doença de “uma gripezinha”. Voltou a usar a mesma expressão quatro dias depois, citando a opinião de “um conhecido médico daquela conhecida televisão”.

A um vírus recém-descoberto, de origem incerta, que causa uma doença de disseminação rapidíssima e de alta taxa de mortalidade, somou-se a declaração pela OMS de pandemia mundial e a opinião desencontrada e contraditória das mais elevadas autoridades nacionais sobre a real gravidade dessa doença. Em conjunto, esses são ingredientes mais do que suficientes para causar uma epidemia nacional de ansiedade e de depressão, ligadas à COVID-19.

Acrescente-se a isso a maré politizada de desinformação e de fake news acerca da natureza e da gravidade da COVID-19; a alegada possibilidade de prevenção e tratamento com remédios milagrosos cuja eficácia, porém, nunca demonstrada; e a negação da legitimidade do uso das vacinas — desinformação essa promovida de maneira ingênua por alguns, mas malévola por outros — e temos um terreno fertilíssimo para a germinação e o desenvolvimento de desconforto emocional.    

A uma forma inicial de ansiedade (de natureza fóbica: o medo de contaminação e da morte) agregou-se outra de natureza irritativa, decorrente da decretação de medidas de distanciamento social e de restrição de determinadas atividades (transporte, comércio, bares e restaurantes, diversão, etc).

As perspectivas sombrias, a incerteza sobre o futuro, o desconforto decorrente das medidas restritivas, em breve tempo produziram situações de depressão, que vinham complicar a ansiedade ligada à COVID-19. Estas condições afetaram não apenas pessoas que nunca tinham tido nenhum problema significativo de saúde mental, mas, e sobretudo, aqueles já portadores de transtornos mentais diagnosticados (e, eventualmente em tratamento) antes da eclosão da COVID-19.

Efetivamente, um dos setores mais afetados pela perturbação e reorientação dos serviços de  saúde, não apenas no Brasil, mas em diversos países, foi o da saúde mental. Inúmeros serviços e atendimentos foram interrompidos ou mesmo fechados causando grande prejuízo a portadores de transtornos mentais graves, para os quais a continuidade do tratamento é vital.

Em compensação, a COVID-19 e o sofrimento social e individual a ela associados, despertaram  uma vaga de solidariedade até então insuspeitada e adormecida: uma miríade de serviços de teleacolhimento, de teleatendimento e outros congêneres, iniciados e operados por profissionais da saúde (sobretudo psicólogos) proliferou no Brasil e alhures.

Uma análise (ainda não aprofundada) destes serviços, que tentaram paliar não apenas os casos de ansiedade e depressão decorrentes diretamente da COVID-19, mas, também aqueles casos pré-existentes deixados desatendidos, revelou que a maioria desses novos casos de ansiedade e depressão eram de gravidade leve. Poucos eram de gravidade moderada e uns poucos de elevada gravidade. Todos os tipos de casos predominavam em jovens.

Um importante consequência dessa distribuição foi que, na maior parte dos casos, uma ou duas entrevistas à distância foram suficientes para resolver o problema; muito poucos casos necessitavam encaminhamento para níveis de maior complexidade.

Confirmando essa achados, temos a questão do suicídio durante a pandemia. Logo em seu início, houve uma preocupação de que, com o aumento da ansiedade e da depressão, pudesse também haver um aumento de tentativas de suicídio e de óbitos por suicídio.

A realidade revelou não apenas que essa preocupação fora infundada mas que seu oposto predominava.

Um estudo conduzido por Jane Pirkis e 60 colaboradores em 21 países de alta, média e baixa renda dos cinco continentes, publicado no periódico Lancet, revelou que em 12 desses países houve uma redução das taxas de suicídio de março a dezembro de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019; em oito países não houve diferença entre os dois anos e em apenas um país foi observada uma elevação da taxa de mortalidade após a eclosão da COVID19.

Confirmando ainda o que foi mencionado acima, parte desproporcional e significativa dos casos de suicídio nesses 21 países foi observada em portadores de transtornos mentais diagnosticados antes do aparecimento da COVID-19, cujo tratamento foi perturbado pela pandemia.

Em suma, além do cortejo de graves transtornos físicos da COVID-19, sua aparição foi acompanhada de desconforto emocional (ansiedade e depressão), felizmente de menor gravidade. O maior conhecimento sobre a doença, sua prevenção (sobretudo com as vacinas disponíveis) e seu tratamento devem, a partir de agora, reduzir bastante a frequência e a gravidade desse desconforto emocional. A solidariedade revelada durante a pandemia para reduzir o novo desconforto emocional dela decorrente é o melhor presságio de que dias melhores virão.

José Manoel Bertolote é professor voluntário da Faculdade de Medicina de Botucatu. Graduado  em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (1971), Mestrado em Transcultural (Social) Psychiatry - McGill University (1978) e Doutorado em Medicina: Ciências Médicas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990). Foi Oficial Sênior na sede da Organização Mundial da Saúde em Genebra, como Coordenador do Programa de Controle de Transtornos Mentais e Doenças Neurológicas. Ex-Professor Titular (Visitante) do Australian Institute for Suicide Research and Prevention (AISRAP), Griffith University, Brisbane, Australia, da Université de Lausanne (Depto. de Psychogériatire), Lausanne, Suíça e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Depto de Psiquiatria).

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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