Política

A vez e voz de Emmanuel Predestin

Haitiano, ele é o primeiro secretário imigrante da história de Maringá; além de ser doutorando em Agronomia, ele se destacou por trabalhos voluntários com outros imigrantes

Victor Raimundi - HojeMais Maringá
11/01/21 às 20h47

Sábado, 7 de novembro de 2020. Dois imigrantes angolanos são brutalmente espancados nas dependências de um disque bebidas. Nesse momento, para muitos, evidenciou-se a fragilidade de ser imigrante em Maringá. Exatos 50 dias depois dessa ocorrência, Ulisses Maia (PSD) traz à tona o que pode ser o primeiro passo de uma longa e árdua jornada contra a intolerância e xenofobia.

O anúncio do nome de Emmanuel Predestin para assumir a Secretaria da Juventude e Cidadania chamou, naturalmente, a atenção por si só. É inegável o peso de ter um haitiano em um posto tão importante e, de quebra, em posição de poder fazer mais pelos demais imigrantes que habitam Maringá.

Um currículo extremamente qualificado: tem formação em agronomia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e mestrado pela UEM (Universidade Estadual de Maringá), em “genética e melhoramento”, entre vários outros requisitos que qualificam para um posto desse nível. 

A ideia, aqui, não é ressaltar o currículo de Predestin. Apesar das glórias acadêmicas que incluem o mestrado defendido, um doutorado em andamento e uma série de tópicos apresentados no Lattes, ele tem muito mais a oferecer do que as vastas paráfrases acadêmicas. A história e vida do imigrante o credenciam - para além dos cercos acadêmicos - a chefiar uma pasta cujo cunho social é tão forte. 

Para um perfil como esse, entretanto, faltava-me um “quê” de poesia para começar um bom relato. Foi então, pesquisando sobre seu currículo, que me toquei do que realmente me chamou a atenção. Um nome ou, no caso, um sobrenome que guiaria não só essa história, mas daria um sentido um pouco mais lírico para este perfil. 

“Predestin”. Meu francês estritamente básico e enferrujado havia ligado o sinal de alerta, ao ressoar desse possível vernáculo em voz alta. Em uma rápida consulta encontrei a resposta: ao que tudo indica, o sobrenome deriva da mesma raiz de prédestiné -  predestinado, em português.

Predestinado significa “que ou o que é destinado de antemão a; que ou aquele que foi destinado por Deus à glória eterna”. No momento, faltam-me credenciais para atestar algo de divino no novo secretário. A predestinação de Emmanuel para um cargo de tamanha representatividade social vem, podemos dizer, de sua trajetória como imigrante. 

Longe da família, que lutou para lhe dar a base necessária para estudar em terras tupiniquins, passou a estender a mão e trabalhar na AERM (Associação dos Estrangeiros Residentes na Região Metropolitana de Maringá). Lá, no trabalho como tradutor voluntário, apresentou uma faceta que o levaria ao posto de secretário, além de o aproximar ainda mais de preocupações importantes do ser imigrante em um país como o Brasil.

“Prestatividade”. É com esse substantivo que começa a definir o novo secretário, Cléo Vinhães, que atuava como coordenadora de Emmanuel no projeto de tradutores na AERM. “Ele ficou conosco nessa função por 7 meses e nos marcou”, disse ela.

As memórias, para a antiga coordenadora, se enfileiram como livros em uma estante. A mais vívida, talvez, é a da entrega da tradução do texto de proteção a direitos básicos e cidadania de imigrantes como ele.

“Lembro de ligar de madrugada para ajudar algum haitiano nos hospitais da cidade e de que ele sempre respondia ao chamado. Sempre esteve disposto a ajudar a falar pelos que precisavam. Faça chuva ou faça sol”, ressaltou.

O tempo na AERM foi se acumulando, bem como as funções de Predestin na entidade e as características desenvolvidas que hoje o ajudarão no trabalho junto ao poder público, como secretário.

“Ele é prudente, responsável, e muito competente no que se propõe a fazer”, disse Ronelson Furtaldo Balde, presidente da Associação. Balde relata que nos 3 anos em que o novo secretário esteve junto à instituição, desempenhou o papel de intérprete de francês, espanhol e inglês. Vai além: ele se prontificou a liderar a organização do 1º Torneio Mundo Sem Fronteiras, que tinha o objetivo de promover a integração entre imigrantes e maringaenses e que foi realizado em julho de 2019.

Mais uma vez menções eram feitas à capacidade de integração, articulação e sobretudo representatividade nas ações de Predestin. As recordações do presidente também apresentam mais aptidões naturais de Emmanuel com sua nova função junto à prefeitura maringaense.

“A proximidade com a juventude era clara, levando em consideração o tempo investido de bom grado com jovens AERM para ensiná-los a tocar diversos instrumentos musicais. Emmanuel os ensinou a tocar de tudo e também falava muito de Deus”, ressaltou Balde.

E se esse Deus, de fato, escrever certo por linhas tortas, Emmanuel pode ser uma prova viva que o dito popular tem fundamento. A carreira profissional e, sobretudo, acadêmica segue sendo promissora. 

Foi na associação, entretanto, que Emmanuel não somente se encontrou, como passa, agora, a ser instrumento para a harmonia entre pessoas em situação de vulnerabilidade, imigrantes, jovens e todo o restante da população maringaense que demandar os seus serviços.

O orçamento da Secretaria Municipal da Juventude e Cidadania é modesto, se comparado a outras pastas do município: R$ 276.832. Mas, segundo o presidente da AERM, não há empecilho àqueles que se dedicam de corpo e alma aos seus chamados. O orçamento, neste caso, é apenas um vil detalhe do que pode ser alcançado de 2021 para frente.  

“Acompanhando o voluntariado dele, nunca tive a impressão que ele estava trabalhando. Parecia que era coisa genuína, do espírito”, concluiu Balde.

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