Cotidiano

Pintor aluga barco para recolher lixo no rio Tietê em missão solitária

Marcos Canola é pintor de peças de motos.

Lr1 - Vitor Moretti
04/03/19 às 17h19

Marcos Canola é pintor de peças de motos. Aos 55 anos de idade, possui alguns cabelos grisalhos e uma disposição de dar inveja a muita gente mais nova. Falante e de bem com a vida, tem nos olhos o brilho de poder ajudar o próximo, principalmente a natureza. O melhor dia da semana, para ele, é o sábado. Ele pega seu carro, vai até o rio Tietê, em Araçatuba, e aluga um barco. Não, não é para pescar. É para recolher lixo das águas de um dos principais rios do Estado de São Paulo.


A reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL acompanhou Canola em um desses dias de aventura. O relógio marcava 9h. O Sol já estatelava no céu azul de brigadeiro da região. Saímos da oficina do pintor, que fica na Avenida Waldemar Alves. De lá, pegamos carona pela rodovia Elyeser Montenegro Magalhães (SP-463) até chegar nos condomínios de ranchos, às margens do rio Tietê.


É lá que Canola há cinco anos aluga o mesmo barco. Ele possui um motor, por isso paga R$ 40,00 pelo aluguel da embarcação. Dinheiro que sai do bolso dele, por livre e espontânea vontade. Depois de acertar os últimos detalhes, o locador leva o barco até as águas do Tietê. Dali em diante, todo o resto é por conta do pintor.


“Está vendo ali?” – perguntou o homem à nossa equipe ao avistar um amontoado de lixo. “Eu limpei toda essa área aqui não tem nem 15 dias. As pessoas já jogaram de novo”, complementou.

Isso que a nossa navegação não tinha nem começado ainda. Após recolher os objetos às margens, Canola e a nossa equipe embarcou junto com ele, desbravando o que há de mais bonito na natureza e também cenas tristes. O percurso até o local onde o pintor parou da última vez de recolher lixo demorou cerca de 20 minutos.
No trajeto, pescadores se espalhavam pela largura do Tietê. As aves e as capivaras se aventuravam nas águas daquele responsável pelo sustento e pelas suas liberdades.


É assim a vida de Canola há cinco anos. Sempre gostou de pescar, mas certo dia fez algo diferente. Ao invés de trazer consigo os peixes de um dia inteiro, resolveu trazer dentro do barco os lixos que encontrou ao longo do rio.
“As pessoas viram aquela atitude minha e chegaram a me aplaudir. Dali em diante, eu não parei mais. Todo o fim de semana essa é a minha felicidade. Chegar aqui, sair com o barco e voltar com três, quatro sacos inteiros carregados com lixo”, contou.

Ao chegarmos no primeiro ponto de parada, um cenário devastador. Os lixos se espalham. Até parece que não estamos no Tietê do interior, sempre muito limpo de despoluído, diferentemente do cenário encontrado na capital paulista.

Rapidamente, Canola desce do barco com um saco preto de lixo nas mãos e já sai recolhendo tudo o que encontra pela frente: garrafas pet, garrafas de vidro, recipientes de plástico, pares de sapatos e até pneus de caminhonetes.
“Nesses anos todos, eu já encontrei tudo o que você pode imaginar aqui. Recentemente, pneu de trator, um freezer e até um fogão”, contou.


O pintor não para sequer um segundo, nem mesmo para tomar água e descansar. Ao encontrar um rapaz que estava com a água na altura dos joelhos, em busca de tucunarés, nas águas calmas do Tietê, Canola não perde a oportunidade.

“Toda vez que vem pescar aqui, você recolhe o seu lixo certinho?”, perguntou ao pescador.
Com a resposta afirmativa do jovem, o pintor ficou mais tranquilo e o parabenizou pela atitude tomada. “Se cada um fizer a sua parte, que é o mínimo, a gente vai conseguir conservar essa beleza que Deus nos deu no nosso interior”, complementou Canola.

Nas andanças rio afora, muitos perigos. Canola já até enfrentou cobras venenosas. Hoje, possui até uma associação, a “Associação Amigos do Tietê de Araçatuba, que tem um único membro: ele mesmo.
“Eu já tentei chamar alguns amigos, alguns já até chegaram a me acompanhar, mas nunca mais apareceram”, lamentou.

Em duas horas de percurso, o pintor recolheu três sacos lotados com lixo. O sorriso era inevitável. Ele estava pronto para ir embora satisfeito em mais um dia de ajuda à natureza. Uma parte do barco foi lotada, não dava nem mesmo para nos movimentar muito dentro da embarcação,


Na volta para o local de partida, um flagrante. Canola, com os olhos e a visão que poucos têm, conseguiu avistar no horizonte uma recipiente laranja, usado para acondicionar produtos de limpeza. Não pensou duas vezes e levou o barco até lá para poder recolher o lixo.

Chegando às margens do Tietê, o alívio de ter feito aquilo que muitos não fazer, mesmo que for o mínimo. Menos lixo no rio, mais vida aos animais e aos peixes. Depois de arrumar tudo e fazer a separação, Canola conta com a ajuda dos ribeirinhos. Eles levam os sacos com os lixos até um ponto onde existe a coleta. E assim se repete, todo fim de semana, a ação do pintor.

PLANTIO DE ÁRVORES
A oficina dele possuiu mais mudas de árvores do que peças de motos. Além de recolher o lixo do rio, o pintor é um apaixonado pelas plantas. Há duas semanas, plantou mais de 40 mudas às margens de uma estrada. Ele sabe que Araçatuba enfrenta um déficit arbóreo e, por isso, faz questão de plantar e até mesmo doar as plantinhas a quem se interessar.

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