Muito utilizada na confecção de cordéis no processo de criação literária, a xilogravura, técnica de impressão milenar, ganha destaque na exposição “Ocupação Xilográfica” no Sesc Birigui, a partir do dia 1 de novembro.
A mostra reúne obras de 11 jovens artistas que utilizam o método de gravar imagens em madeira em trabalhos que apresentam pesquisas em torno da cor, da tridimensionalidade e de grandes formatos.
O público pode conferir as 63 obras, além de uma instalação e uma obra tridimensional, gratuitamente até dia 29 de janeiro de 2023. A visitação acontece de terça a sexta, das 13h30 às 21h e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h.
Madeira
Para a curadora Célia Barros, gravar uma madeira implica lidar com a rigidez e resistência do material, além dos veios que aparecem. “Cada madeira oferecerá diferentes características e adversidades, que inevitavelmente se farão visíveis na obra. Apesar disso, dependendo do modo como o artista se adapta à matéria e extrai dela seu potencial expressivo, conseguem-se gravuras de uma leveza e agilidade a princípio inimagináveis”, explica.
Para além das confluências em seus trabalhos com a madeira, os artistas escolhidos para compor a mostra – Beatriz Lira, Fernando Melo, Gabriel Balbino, Igor Santos, Julia Bastos, Jovana Basílio, Kamila Vasques, Luisa Almeida, Rafael Toledo, Santídio Pereira e Taís Melo – também compartilharam vivências dentro dos mesmos ateliês e acompanham os trabalhos uns dos outros pelas redes sociais. “Essa reunião evidencia a importância do ambiente de formação e dos ateliês de gravura disponíveis para o exercício e o aprofundamento da prática no país”, comenta Célia.
Para Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc SP, a exposição trás a luz uma geração emergente de artistas dedicados a conferir novos contornos a essa técnica ancestral. “É nessa intersecção da técnica ancestral, com a relação dos jovens com a recepção da arte que o Sesc inscreve sua ação cultural, fomentando experiências de formação para uma apreensão sensível e crítica das imagens que povoam a vida”, completa Miranda.
Xilogravura
A xilogravura é uma técnica milenar cujos primeiros registros datam de aproximadamente dois mil anos atrás e são provenientes da Índia e de diversas regiões da Ásia. Na época, era empregada a técnica da aplicação de carimbos, ou “block print”, na estampagem de tecidos ou na reprodução de textos chineses, com a utilização de “tipos” (ou letras) de madeira.
Como eram materiais perecíveis, é provável que sua origem seja ainda mais remota. Os historiadores divergem ao determinar sua antiguidade, já que a estampagem em tecido tem relação com a história da moda, enquanto a história da xilogravura ocidental costuma se restringir a impressões sobre papel dentro do circuito artístico e não leva em conta as imagens impressas para outros fins.
Se cruzarmos as diferentes histórias das técnicas de impressão, poderemos considerar que o formato da xilogravura é imprevisível, assim como o gesto e os corpos que atuam nessa linguagem. Uma “xilo” pode ser um simples carimbo, uma técnica que torna possível repetir palavras ou imagens e expandir-se pelo mundo, diluindo inclusive sua autoria.
Sobre os artistas
Fernando Mariano
- O ambiente da favela, os preconceitos que envolvem seus habitantes e a coletividade que emana dessas conexões se manifestam graficamente pelo uso seletivo da cor, que trabalha a arquitetura frágil e apertada da favela, desenhando espaços sombrios e contrastes de luz. Os gestos simples, o convívio, a leveza do brincar e do compartilhar são referências tão importantes no trabalho de Fernando Mariano quanto Jean-Michel Basquiat ou seus amigos do coletivo Xiloceasa.
Igor Romulado
- Com um desenho intuitivo, que parte da memória mais do que da observação direta, Igor Romualdo povoa suas xilogravuras com ambientes naturais, com os quais pode ou não ter tido contato direto. Bichos simpáticos, apesar de sua ferocidade, animais mais ou menos selvagens, peixes, baleias, mansamente posicionados sobre um fundo quase inexistente, nos aproximam de toda uma animália que habita o imaginário fértil do artista.
Jovana Basílio
- Entre a palavra, o desenho e a xilogravura, nasce a “xiloesia”, uma forma criada pela artista para compor a relação entre imagem e palavra. Corpo que Movimenta a Terra inaugura outra fase de sua trajetória, em que ela opta por focar a temática da maternidade como questão central de seu trabalho. Jovana faz uma fusão entre a prática do lambe-lambe e da poesia urbana e a imagem xilográfica, num diálogo que se afasta da relação ilustrativa, fazendo da palavra uma expressão gráfica que, longe das fontes tipográficas padronizadas, usa o espaço da madeira a seu favor, na qual as letras se impõem de forma orgânica.
Lira
- Na série de xilogravuras que Lira apresenta nesta exposição, vemos rostos femininos nos olhando seriamente. Entintados em dourado, parecem pleitear novas condições para habitar a arte, discrepando de uma atitude que apela para a beleza. Com títulos de diferentes continentes, as imagens apresentam mulheres que se distanciam do exótico e se impõem em nosso imaginário a partir de recursos próprios. A cor dourada interfere nessa percepção, confundindo os limites do desenho e sua simbologia. Uma nova relação se apresenta, reivindicam-se a existência e a presença.
Gabriel Balbino
- No recurso da matriz perdida, ferramenta recorrente em sua linha de trabalho, é necessário que o artista utilize a mesma prancha de madeira, que vai escavando a cada série de impressões, até chegar à sobreposição-limite, na qual o que resta é uma matriz que foi perdendo sua matéria-base, impossibilitando novas reimpressões. Balbino vem aprofundando o uso da cor, sobrepondo camadas sucessivas ao papel, transformando sua materialidade leve e sutil em gradações que, ao interferirem umas nas outras, parecem sugerir uma presença quase escultórica.
Luisa Almeida
- Não tem como falar de xilogravura sem falar de corpo, gesto, resistência material e persistência física. A artista leva essa experiência ao extremo: interessada na confecção de imagens de grandes dimensões e com a consciência corporal de uma mulher de 20 e poucos anos, a artista idealiza diversas estratégias, traquitanas e engenhocas para contornar os limites de seu corpo, desde determinar o tamanho das placas à medida que seus braços dão conta de carregar o peso até fabricar um rolo de concreto que possa imprimir a chapa de MDF no chão, evitando, assim, se extenuar. São tecnologias que denunciam o que vemos nas imagens: estratégias para vencer a morte, a fragilidade e o limiar da matéria viva.
Kamila Vasques
- Que estruturas invisíveis sustentam o que está aparente? Kamila Vasques trabalha a partir do imperceptível, nas estruturas que alicerça como condição fundamental para a existência, mas cujo desenho se projeta para, sendo ignorado, determinar. A artista se apropria das mensagens subliminares da arquitetura e da escrita, vãos de escada, guarda-corpos, pilares, portas, esquinas, fontes e tipos de letra, criando ruídos que as obriguem a sair do silêncio. Surgem, assim, as interferências: propostas espaciais que dialogam com a arquitetura, evidenciando os espaços silenciados.
Luisa Almeida
- Não tem como falar de xilogravura sem falar de corpo, gesto, resistência material e persistência física. Luisa Almeida leva essa experiência ao extremo: interessada na confecção de imagens de grandes dimensões e com a consciência corporal de uma mulher de 20 e poucos anos, a artista idealiza diversas estratégias, traquitanas e engenhocas para contornar os limites de seu corpo, desde determinar o tamanho das placas à medida que seus braços dão conta de carregar o peso até fabricar um rolo de concreto que possa imprimir a chapa de MDF no chão, evitando, assim, se extenuar. São tecnologias que denunciam o que vemos nas imagens: estratégias para vencer a morte, a fragilidade e o limiar da matéria viva.
Santídio Pereira
- O entalhe da goiva sobre a madeira se transformou num corte radical da placa de compensado, transformando-a em módulos menores, que configuram a personagem principal da imagem: bromélias. Sem segredos, a flor vê sua escala expandir-se além de sua existência na paisagem. Seu traçado exuberante recebe modulações e recortes inusitados no desenho, e a cor transforma-se e afeta o corpo da planta como uma síntese de si mesma.
Rafael Toledo
- É comum sermos capturados inicialmente por algum aspecto jocoso que envolve a obra de Rafael Toledo, atraídos pelas camadas de cor sobrepostas que criam uma imagem difusa ou pelos materiais inusitados no campo da gravura, em que a dinâmica de exposição parece simular um jogo no qual o visitante precisa adentrar um campo que exige sua participação, ou até um desafio inocente. Ao nos aproximarmos, porém, a jovialidade ingênua se desfaz, deixando transparecer um universo de densidades.
Taís Melo
- Suas xilogravuras abordam o tema da cidade pelo viés de quem precisa habitá-la. Aluga-se Quartos é uma série que retrata lugares ínfimos a preços inalcançáveis para quem vive na periferia. Diferente do olhar turístico, que se encanta com a diversidade cultural do bairro, suas cores, bares e restaurantes, o foco de Taís Melo recai nos pequenos anúncios colados de forma quase aleatória, num misto de quem quer aparecer, mas não querer chamar a atenção. As imagens são apertadas entre si, enfatizando a sensação de confinamento e espaço inóspito.
Agendamento
A unidade também realiza agendamento de grupos de pessoas, para visitas mediadas em que serão abordados desde aspectos técnicos, culturais e sociais da xilogravura. O espaço conta com uma área educativa onde atividades relacionadas aos temas tratados são propostas com o intuito de aprofundar a reflexão sobre o assunto. O agendamento pode ser feito pelo e-mail agendamento.birigui@sescsp.org.br ou pelo telefone (18) 3649-4732.
Programação integrada
A exposição contempla ainda uma programação integrada, com bate-papos, oficinas e conteúdos digitais para diversos. A programação completa pode ser visualizada no Portal Sesc: https://www.sescsp.org.br/projetos/ocupacao-xilografica/
Serviço
Exposição “Ocupação Xilográfica”
De 1 de novembro de 2022 a 29 de janeiro de 2023
Sesb Birigui (Rua Manoel Domingues Ventura, 121, Vl. Xavier)
Terça a sexta-feira, das 13h às 21h
Sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 18h
