Polícia

Esquema para burlar bloqueadores de celular em Valparaíso seria embrião de projeto do PCC para outros presídios

Em 4 casas de apoio para comunicação entre integrantes da facção criminosa a Polícia Civil apreendeu 13 radiotransmissores de frequência e 171 celulares

Lázaro Jr. - Hojemais Araçatuba
21/10/22 às 17h30
O delegado José Abonízio concedeu entrevista coletiva para falar sobre a operação (Foto: Lázaro Jr./Hojemais Araçatuba)

As investigações da Polícia Civil de Araçatuba (SP) que resultaram na operação “Ponto de Apoio”, deflagrada nesta sexta-feira (21), apontam que o esquema usado para burlar os bloqueadores de sinal de celular na penitenciária de Valparaíso seria o embrião de um projeto que o PCC (Primeiro Comando da Capital) pretendia estender em outros presídios do Estado.

Nesta manhã foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça, todos em Valparaíso, onde foram desativadas 4 casas de apoio para comunicação entre integrantes da facção. Também foram apreendidos 13 radiotransmissores de frequência e 171 celulares, dos quais, 153 estavam em um único imóvel.

A ação foi coordenada pela DIG/Deic (Delegacia de Investigações Gerais da Divisão Especializada de Investigações Gerais), sob o comando do delegado coordenador José Abonízio, que concedeu entrevista à imprensa. A ação envolveu 70 policiais civis e foram utilizadas 18 viaturas, resultando em sete pessoas ouvidas, com uma prisão em flagrante por tráfico de drogas, e oito boletim de ocorrência registrados.

Foram apreendidos 13 radiotransmissores de frequência, 11 baterias para esses rádios, 171 celulares, uma balança de precisão, uma porção de maconha, uma munição, vários comprimidos de estimulante sexual e tubos plásticos para fracionar cocaína. 

Fora do ar

Segundo o delegado, a investigação teve início em junho, pela delegacia de Valparaíso, a partir de denúncia de tráfico de drogas em alguns pontos da cidade. Com a identificação dessas casas de apoio a partir da apuração da denúncia, a investigação passou a ser coordenada pela DIG/Deic.

A investigação apontou que após a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) instalar sistema de bloqueadores de sinal de celular no presídio de Valparaíso, os presos foram impedidos de se comunicar com o lado externo, o que eles descrevem como estar “fora do ar” , segundo o delegado.

Segundo a polícia, para manter a comunicação dos membros da facção que estão presos com o meio externo, a organização criminosa passou a utilizar os radiocomunicadores, por meio das bases de apoio que foram desmontadas hoje.

“Essas casas funcionavam como uma extensão do braço da facção. De maneira rotativa os integrantes se revezam na condução de aparelhagem de telefonia, que visava a comunicação dos presos com o exterior, sem necessitar dos celulares”, explicou Abonízio.

Apoio

O delegado explicou que essas casas de apoio funcionavam como uma extensão do braço da facção. Em cada uma delas havia pessoas com HTs, que são os radiotransmissores de frequência, que não tem o sinal bloqueado. De maneira rotativa, os integrantes se revezavam na condução de aparelhagem de telefonia, com a missão de manter a comunicação dos presos com os integrantes que estão em liberdade.

Os imóveis eram alugados por tempo determinado e os operadores recebiam salário, alimentação e “trabalhavam” no sistema de turnos, havendo quem fizesse a rendição para que pudessem descansar. Por serem casas comuns, não levantavam qualquer tipo de suspeita, segundo a polícia.

Ainda de acordo com o que foi informado, alguns dos investigados já eram conhecidos da polícia, mas durante a operação foram identificadas pessoas que não haviam aparecido nas investigações. Não foi informado quantas pessoas integravam o esquema, para não atrapalhar as investigações.

Porém, de acordo com ele, várias pessoas podem ser responsabilizadas no decorrer do inquérito. O crime principal é organização criminosa, mas outros podem ser identificados no decorrer da investigação.

Localização do presídio teria facilitado implantação do sistema

Parte dos celulares apreendidos durante operação deflagrada pela Polícia Civil (Foto: Divulgação)

Durante entrevista coletiva nesta sexta-feira, o delegado da DIG/Deic, José Abonízio, explicou que o fato de a penitenciária de Valparaíso ser próxima da área urbana da cidade facilitou a implantação do sistema para burlar os bloqueadores de sinal de celular, já que os radiocomunicadores utilizados por integrantes da facção criminosa teriam alcance de 6 a 7 quilômetros. 

“Esse esquema de burlar o bloqueador de celular é recente e inclusive pioneiro e a organização criminosa estava tentando difundir isso para outros presídios já com o bloqueio de aparelho de celular”, comentou o delegado. Ele revelou que o Setor de Inteligência da Polícia Civil identificou que nas outras unidades prisionais não foram montadas as bases operacionais como em Valparaíso.

Investigação

De acordo com o delegado, a investigação ainda tenta identificar como os presos tiveram acesso aos radiocomunicadores para manter contato com as bases, já que a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) apreendeu três desses equipamentos durante buscas realizadas dentro do presídio hoje pelo GIR (Grupo de Intervenção Rápida).

A informação apurada até então é de que o sistema de comunicação alcançava um ou dois raios da penitenciária, permitindo as ações da facção criminosa.

De acordo com o delegado, a SAP tem feito esse trabalho de tentar impedir o acesso de radiocomunicadores aos presos, tanto que há duas semanas uma mulher foi detida tentando entrar com um HT durante visita a um dos presos.

Quanto aos celulares e HTs apreendidos nessas bases de apoio, a polícia acredita que eles também teriam como finalidade serem introduzidos nos presídios, principalmente no CPP (Centro de Detenção Provisória), no caso dos celulares, onde aparelhos costumam ser jogados sobre o muro para o interior do presídio.

SAP

A SAP informou ao Hojemais Araçatuba que a operação, incluindo as buscas na penitenciária de Valparaíso, resultaram na apreensão de 176 celulares, 15 rádios HT, 200 comprimidos sem origem, uma porção de maconha, uma munição 9mm e anotações. 

Segundo a secretária, os sentenciados flagrados de posse dos aparelhos apreendidos foram encaminhados ao Pavilhão Disciplinar da unidade para cumprimento de sanção disciplinar.

"A SAP ressalta que a política do Governo de SP é de não tolerar ilícitos nas unidades prisionais. Além da vigilância permanente dos agentes, as unidades prisionais são equipadas com escâner corporal, aparelhos de raio-X e detectores de metais para coibir e reduzir o número de ocorrências" , informa a nota.

Foto: Lázaro Jr./Hojemais Araçatuba
Operação teve a participação de 70 Policiais Civis e foram utilizadas 18 viaturas (Foto: Divulgação)
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