Em dois minutos, um terremoto de 9 graus na escala Richter deixou um rastro de destruição em Fukushima anunciando a iminência de um pesadelo nuclear que abalaria o país comprometendo a economia e a segurança das pessoas em todo o país.
Seis ano se passaram e o “tsunami” de tragédias parece um passado remoto e as previsões mais pessimistas não se confirmaram.
“Assim como fizeram logo após a Segunda Guerra Mundial, os japoneses novamente deram lições que servem não só ao Brasil mas paro o mundo”, afirma o ex-prefeito Jamil Ono que tem uma ligação íntima com Fukushima e uma profunda admiração pelas lições do povo japonês.
Tendo recebido o diploma do Curso de Direito pela USP (Universidade de São Paulo) Jamil teve a experiência de viver e estudar no Japão. Foi em Fukushima, onde o filho de lavradores estudou literatura Japonesa (1988), dedicando-se as obras de Dazai Ossamu, um escritor da região norte do Japão, que descreve em suas obras sobre a fraqueza do homem masculino, em detrimento do feminino.
“As lições de Fukushima vão do caráter humano, a abnegação e a perseverança. A recuperação não só foi rápida como veio com muita força”, explica.
Para Jamil, não faltam exemplos para ilustrar a força desta história de superação. Uma estrada de Tóquio à cidade de Naka foi reaberta em apenas seis dias, prédios inteiros foram reerguidos em tempo recorde. Em seis meses o aeroporto de Sendai, que teve todos os aviões arrastados pelas águas foi totalmente restaurado.
“Toda a recuperação é resultado do envolvimento de cada indivíduo, que não se negou a fazer sacrifícios pelo próximo em benefício a todos. Temos que lembrar que o Japão construiu uma das economias mais sólidas do mundo após a Segunda Guerra Mundial, então nenhuma adversidade parece insuperável”, disse Jamil.
4 lições
Jamil enumera quatro lições, dentre as mais importantes para o mundo após o incidente de Fukushima.
Capacidade de renascer
Meses após as lamentáveis cenas a capacidade de reconstrução e atitude do Japão, apareceu a apenas um dia depois da tragédia de Fukushima. Organização, sincronismo, solidariedade e responsabilidade com a população fizeram o “milagre japonês" e em pouco tempo a região devastadas renasceu das cinzas e algumas cidades estão até mais modernas e bonitas do que antes.
Consciência e responsabilidade social
Mesmo após a grande destruição e incerteza sobre o amanhã, os desabrigados deram a lição da paciência e souberam manter a calma. Não havia uma só imagem de lamentações sobre o que foi perdido; a tristeza do ocorrido bastava. Com dignidade, a população encarava as imensas filas para conseguir roupas, cobertores, água, comida ou remédios. “As filas eram imensas e ninguém furou a fila ou pegou para sí, mais do que era necessário. Tiveram consciência e solidariedade com as carências e necessidades dos outros.”, lembra Jamil.
Altruísmo e desprendimento
Uma das atitudes que mais comoveram o mundo foi a de um grupo de aposentados que trabalharam quando jovens na Usina de Fukushima se apresentando como voluntários para o trabalho de recuperação dentro dos reatores, onde era muito alto o risco de contaminação. “A justificativa para o gesto era de eles já eram velhos e os jovens ainda teriam muito a fazer, inclusive formar famílias e filhos sadios, o que seria um risco com a exposição a radiação”, explica Jamil, fazendo a alusão ao termo Kamikaze, que significa “vento de Deus” ou “vento divino”, na língua portuguesa.
O termo Kamikaze tornou-se conhecido por ser o nome de um tufão que, supostamente, teria salvo o Japão de ser invadido por um exército de conquistadores do Império Mongol. Na Segunda Guerra mundial o termo foi atribuído aos Taiatari Tokubetsu Kogekitai?("Grupo Especial de Ataques por Choque Corporal"), pilotos japoneses que atiravam seus aviões contra as forças inimigas num último gesto de sacrifício pessoal em favor de um bem que consideravam maior.
“No exemplo de Fukushima, o desprendimento e abnegação da vida, é um ato único de amor ao próximo e às futuras gerações”, disse Jamil.
Generosidade e solidariedade
Existiu uma onda se solidariedade que atingiu todo o Japão e também se expandiu para o mundo. Após o tsunami, de imediato, equipamentos públicos foram postos à disposição dos atingidos. E também as casas particulares de cidadãos desconhecidos, que se ofereceram para dar abrigo aos desabrigados. Os donativos que chegaram, primeiro de todas as partes do Japão, foram rapidamente distribuídos por um sistema de logística. E não pararam até que a situação estava estabilizada.
“Aqui no Brasil houve uma campanha para arrecadação de fundos para as vítimas e para a reconstrução de Fukushima. Provavelmente os valores não eram muito diante das necessidades, mas o gesto simbolizou muito”, afirma Jamil.
No período da recuperação, os restaurantes que continuaram funcionando cortaram pela metade seus preços. Caixas eletrônicos foram deixados sem qualquer tipo de vigilância e não houve nenhum saque a lojas. E mais, uma imensa quantidade de valores em dinheiro, em joias, em objetos recuperados dentro de moveis, bolsas e bolsos eram devolvidos pelas pessoas para as autoridades, para que voltassem aos donos ou suas famílias.
“Em meio ao que parecia o fim os fortes cuidaram dos fracos e a recuperação prosperou”, finalizou Jamil.
Nota
Outra diferença importante no caso de Fukushima é a atitude pós tragédia. Desde a primeira medida de reconstrução foram anunciados investimentos em mais pesquisas tecnológicas para diminuir as perdas de vidas em novas catástrofes.