Andradina e o Brasil se despedem hoje de Jorge Nakaguma que faleceu aos 79 anos de idade, vítima de câncer. Durante vários meses Jorge lutou contra a doença, e apesar do tratamento, poucas vezes deixou de ir até sua fazenda em Guaraçaí praticamente todos os dias. Na semana passada liguei para ele. Foi a primeira vez que ele disse para eu não ir visita-lo. Percebi então que era grave. “Toninho, não quero que me veja assim; estou “baleado” meu amigo”, foram suas últimas palavras uma semana atrás. A gente costumava conversar por horas. Eu ia lá para aprender tudo: sobre a pecuária de corte, mas também sobre como viver melhor através da alma.
Jorge me atraía porque era polêmico. Questionava o óbvio e era radical em suas posturas determinadas. Era um ambientalista pecuarista, um capitalista meio comunista, um homem de muita fé, mas avesso à religiões. Suguei muito de sua sabedoria, tomei muitos cafés, comi amoras que colhia no seu quintal e nunca me incomodei com o cigarro que sempre o acompanhou como um elixir para aguçar o pensamento e buscar palavras, no meio da fumaça.
Estou triste pela saudade que já começou a apertar. Quero me solidarizar com a dor da Amelinha e do Júnior. Amo vocês igualmente e estarei sempre à disposição para matar a saudade e tornar sua presença sempre viva entre nós. Gente como o Jorge não morrem nunca.
Vou publicar a seguir, uma reportagem que fiz em 2010, quando Jorge completou 70 anos e reuniu em sua fazenda, amigos e familiares, para comemorar intensamente suas conquistas.
MATÉRIA PUBLICADA EM 2010 POR OCASIÃO DOS 70 ANOS DE DOUTOR JORGE
Artista e pecuarista instala museu na zona rural de Guaraçaí
Ele é formado em odontologia, mas as habilidades manuais ele reservou para detalhar as esculturas em argila que exibe para crítica de amigos de gosto refinado como Adélio Sarro. A sua capacidade de observação e diagnóstico ele canalizou para a seleção de gado nelore, na qual desenvolve um trabalho excepcional de preservação da raça e que se transformou num dos raros plantéis de caracterização original dessa linhagem de zebu.
O gado nelore de Nakaguma não precisa de ração especial para dar lucro. É rústico como na Índia, de onde vieram e são intocáveis e sagrados. Cresce e chega ao ponto de abate comendo capim, vivendo o sofrimento do pasto, com calor de 40 graus e pouca comida durante a seca. “Minha seleção não é para encher os olhos, nem ganhar prêmios em exposição”, diz ele.
Mas na verdade esse tipo de seleção, também chamada de silvo-pastorial, valoriza o meio ambiente e dessa forma tem um lastro com a modernidade. As pastagens de Nakaguma mantém muitas árvores que oferecem sombra, mas também ajudam a manter o capim mais saudável.
Aos 70 anos, comemorados no último domingo, Jorge Nakaguma reuniu os amigos na Fazenda Iracema para um Dia de Campo, onde a primeira finalidade foi “jogar conversa fora”. Não contratou conjunto de som ao vivo para não atrapalhar o contato entre os convidados. Na programação dominical, além de apresentar uma seleção nada convencional para os critérios da ABCZ- Associação Brasileira dos Criadores de Zebu ele abriu ao público um museu com antiguidades regionais de valor inestimável. Entre elas uma cadeira de dentista construída em madeira e que foi utilizada no primeiro consultório instalado no bairro das Alianças, em Mirandópolis.
Câmaras fotográficas? Dezenas delas, pois os japoneses sempre foram muito íntimos dessas máquinas. O museu também possui ferramentas antigas, como serras e serrotes que fizeram parte dos instrumentos de desmatamento, mas que também garantiram a abertura das fazendas e a extração das riquezas, a sobrevivência de nossos pais, a nossa existência.
Fotos incríveis de onças abatidas ou de toras que precisam de vários homens para serem abraçadas. Nakaguma não tem compromisso com militância nenhuma, nem mesmo as de ordem ambiental, mas extrai de cada realidade o diferencial humano e o seu valor naquele contexto histórico.
Jorge Nakaguma é cosmopolita, de mente aberta, pronto para a era de Aquárius pois celebra o mundo conquistado e vive em função daquele que a de vir, acreditando na evolução. Talvez por isso ele admire e esculpi entre suas artes, figuras como do revolucionário bolivariano Che Guevara e o Papa João Paulo Segundo, o precursor de uma corrente conservadora da Igreja Católica. Monges budistas ou pais de santo conseguem ter essências unidas na visão cultural do fazendeiro Jorge Nakaguma.
A platéia não tinha conhecimento que o Laticínio Tânia que existe em Guaraçaí e é famoso no mundo pelos queijos deliciosos que fabrica, na verdade foi fundado pelo pai de Jorge e cuja companheira aos noventa e poucos anos ainda vive saudável, e participou da homenagem ao filho setentão.
Mas histórica mesmo foi a constatação de que a seleção nelore Nelmaster, de Jorge Nakaguma, de fato tem nas veias a bravura original da raça. Uma das vacas deu grande susto nos convidados que assistiam à exposição dos animais no curral. Ela invadiu um dos bezerreiros cheios de gente. O prefeito Jamil Ono, seu assessor Nino e o jornalista que escreve essa matéria ficamos todos agarrados ao teto do curral, como morcegos, esperando que outra atração levasse a vaca a deixar aquele local. Com as cabeças protegidas, deixamos no alvo dos chifres as regiões macias da bunda. Felizmente ninguém sentiu nada além do bafo quente saindo das vendas do animal, num silêncio tétrico rompido pelas gargalhadas de todos, quando a vaca deixou o recinto. Histórias para se contar pela posteridade.
Antônio José do Carmo
Visão- Assessoria de Comunicação