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Cláudio Totó: grandes negócios, muita simplicidade, crítico contumaz e poeta

 A pecuária nacional tem grandes nomes que construíram o maior país produtor de proteína animal no mundo.

TRÊS LAGOAS (MS) - Noroeste Rural
04/07/17 às 15h44
(Noroeste Rural)

 A pecuária nacional tem grandes nomes que construíram o maior país produtor de proteína animal no mundo. Um deles é Cláudio Fernando Garcia de Souza, o popular “Cláudio Totó”, cidadão e morador de Três Lagoas (MS).

 São produtores como ele quem preconizaram a grandeza que o Brasil é hoje no fornecimento de carne para o mercado interno e para o mundo.

 Em 1986 ele ficou famoso, mas foi chamado de louco por promover um dos mais importantes leilões de gado na história da Pecuária Nacional, quando colocou à venda mil vacas Nelore P.O. ( Puro de Origem). Elas foram arrematadas por dezenas de pecuaristas em todo país e ajudaram disseminar a raça, sua marca e ajudando estabelecer o Nelore como a base da pecuária Nacional. “Com o lucro desse leilão comprei 10 mil bezerros”, diz ele.

 Claudio Totó, hoje aos 77 anos, é um dos raros guardiões da raça Nelore no Brasil. Em 2011 ele publicou um livro sobre seus 50 anos de trabalho na seleção. O prefácio desse livro com 420 páginas, foi escrito por seu compadre e também pecuarista treslagoense Orestinho Prata Tibery, que faleceu anos depois num acidente aéreo.

 Orestinho escreveu assim se referindo a Totó “Fala de política internacional, da Constituição Brasileira, de saúde, educação, segurança, o não aproveitamento do nosso potencial agrícola, sempre lamentando que, se tudo isso fosse tratado com seriedade seríamos o melhor país do mundo”.

 Mas no livro e na vida, Cláudio Totó mostra sua vertente literária e autodidata, pois passou pouco tempo na escola. Concluiu apenas o segundo grau no Rio de Janeiro, para onde ia a maioria dos filhos de pecuaristas bem sucedidos no Mato Grosso do Sul. Quem está longe na vida no campo, provavelmente não vai entender boa parte do vocabulário que Totó faz uso em seu texto. As narrativas são intensamente ricas em registro da natureza do cerrado mato-grossense e na cultura do caboclo dessa região. A tal ponto que algumas citações tornam incompreensíveis sem a tradução de alguém que entenda do assunto.

 O livro tem ainda uma homenagem ao pecuarista, dentista e poeta andradinense Jorge Nakaguma, que na mesma linha de profundidade cultural rural, escreve em “Terra da Esperança”, uma sequência incrível que “fotografa” a natureza dizendo: “Terra fresca de embauva, a banada dos macacos/ Tem barriguda, a paineira nativa/ Tem jaracatiá, o mamão da floresta/Terra de Ipê roxo para as tábuas do curral”.

 A ENTREVISTA:“A GENTE VENDIA VACA, ELES LAVAVAM DINHEIRO”

 No último dia 8 de junho, Cláudio Souza nos recebeu em seu escritório. Fica no centro da cidade de Três Lagoas, perto da lagoa maior. É uma casinha antiga, construída em madeira e preservada em suas características de casa de fazenda.

 Ele estava muito bem humorado como sempre e num requintado gesto de anfitrião educado, disse que não precisaríamos ter pressa, pois ele não tinha limite de tempo para nos responder às perguntas. Para um jornalista, curioso como eu, isso é o céu...]

 FRASES E CONCEITOS

 PECUÁRIA NACIONAL – “A nossa pecuária nacional, que não é só o gado, é responsável por 28% do Produto Interno Bruto do Brasil e se não fosse ela o PIB estaria liquidado”.

 INCENTIVOS

 Na parte de carnes o governo financiou os grandes frigoríficos, diga-se de passagem o JBS através da Caixa Econômica, BNDES e Fundo de Pensões. Isso fez o BNDES se tor o maior produtor de carne vermelha e de frango do mundo, entretanto pra isso acontecer ele pisou nos produtores tanto de frango, porco e gado. E só não conseguiu pisar, por enquanto, no pessoal que produz cana, soja e milho por que estes estão nas mãos de grandes empresários que tem forças suficientes pra abater essa vontade voluptuosa do JBS.

 MELHORES TEMPOS 

 Os produtores rurais só tiveram ajuda durante o período em que existia o FUNDO DO CENTRO OESTE. Os recursos nessa época eram oferecidos a juros que tínhamos condições de pagar.O governo anunciou recentemente Plano da Agropecuária e os juros estão mais altos que os 5,0% anunciados pelo Banco Central. Isso desestimula, não incentiva.

 TEIMOSIA DO PRODUTOR

 Mas assim nós vamos tocando porque o produtor rural não sabe fazer outra atividade. Ele é da terra, é ligado à terra, e vai sempre viver da terra. Então é preciso que ele tenha uma forma de se fixar cada vez mais na terra. Ao contrário do que está acontecendo atualmente em que eles são enxotados das terras, obrigando que vendam para grandes reflorestadoras, ou mesmo arrendem para o plantio de eucalipto e produção de celulose.

 É A RECESSÃO E NÃO A EXPORTAÇÃO QUE FAZ CAIR O PREÇO DO BOI

 A recessão é fundamental nesse baixo consumo, porque o preço da carne no varejo tem baixado sistematicamente. O preço da arroba do boi está mais barato que há seis anos. Uma inflação por mais mentirosa que seja, estaria em torno de 8 a 10 por cento ao ano. Então estamos vendendo mais barato que há seis anos.

 O consumo de carne dos brasileiros representa 90% da produção nacional e por isso quando ele cai, também cai o preço da arroba.

  BOLSA FAMÍLIA

 Nos moldes que o Bolsa Família foi criado ele serviu apenas para ser esmola às pessoas que deles se utilizam. Além disso, muita gente que não precisa recebe. Em Três Lagoas a gente vê pessoas de posses recebendo mais de uma cesta básica e levando em seus automóveis.

 E AS VACAS VENDIDAS POR MILHÕES DE REAIS?

 O produtor estava vendendo. Quem estava comprando estava esquentando dinheiro. A verdade é essa. Para comprar uma fêmea de 2 milhões, não há milagre que faça ela ser paga. Mas é preciso esquentar o dinheiro, mostrar poder, e a vaidade é muito grande. Os produtores tradicionais se afastaram desses leilões porque não tinham como concorrer com esses profissionais liberais que investiam fortunas num animal.

 EVOLUÇÃO DA RAÇA

 Em 50 anos o nelore ganhou de 50 a 60% de evolução da precocidade do ganho de peso. A Embrapa de corte foi importante nessa conquista. Os técnicos vão até as fazendas e mostram o caminho. A Embrapa não sofreu intervenção de políticos e dos governos. Ela não obedece a interesses políticos escusos, por isso merece nosso respeito.

 FIM DAS MOSTRAS DE ANIMAIS

 Os produtores deixaram de expor seus animais em várias feiras. O motivo é o custo elevado para transportar e manter o gado em exposição. Além disso a Diferença Esperada de Progenesi- DEP é uma técnica que vem dano certo. Existe uma média de ganho de peso e fertilidade e os animais que não atingem os melhores índices são descartados. E os melhores se conhece lendo a planilha.

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(Noroeste Rural)
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