Sem poder atender ao público no estado São Paulo, restaurantes se adaptaram e, alguns até se reinventaram para manter a clientela durante a quarentena obrigatória. A medida, válida em todo o estado de São Paulo, busca conter a propagação do coronavírus.
Apesar dos restaurantes terem permissão para continuarem funcionando nesse período de isolamento social, muitos já estão sentindo os impactos da crise provocada pelo coronavírus. Como forma de se adaptar a este momento de distanciamento social, os restaurantes da região que ainda não eram adeptos do modelo de entrega à domicílio tiveram que repensar seu trabalho.
O Restaurante do Lió, no distrito de Amamdaba em Mirandópolis/SP é um dos novatos no meio da entrega a domicílio. O restaurante é um daqueles que se procura quando se quer escutar uma boa história.
Lió, o nome de batismo é Leopoldo José Santana, nasceu em Itabuna, na Bahia, no dia 21/04/1934 e a idade não lhe impediu de se adaptar a nova realidade. É ele mesmo, armado de sua máscara e álcool quem explica as normas da entrega de marmitas no seu restaurante. Antes disso era costume encontrar o restaurante lotados de pessoas que comiam em seu interior ou em mesas debaixo das frondosas árvores ao lado do restaurante.
História
Em uma família com 22 irmãos, fugiu de casa aos 13 anos depois do falecimento do seu pai. Veio de trem para o interior de São Paulo sem conhecer ninguém ou onde ficar. Dormiu em um pau oco do lado da estação e depois rodou o Brasil trabalhando – chegou a ajudar na construção da Ponte Rio-Niterói.
Voltou pra Mirandópolis onde teve cinco filhos, 12 netos e oito bisnetos. O Restaurante do Lió começou com um armazém, o almoço surgiu por acaso e deu certo, hoje é passagem obrigatória de muitos viajantes e moradores. Confira abaixo um bate papo com o Lió, uma figura simples, mas de um coração enorme.
“E vou viver pra contar a história de como venci o corona”, diz ele.
Confira a entrevista de Lió ao jornalista Eduardo Mustafa, de “Agora na Região”.
Onde o senhor nasceu?
Eu nasci em Itabuna, na Bahia, mas logo aos 13 anos acabei fugindo de casa depois que meu pai faleceu. Não tinha idade para viajar, mas combinei com uns pernambucanos que me autorizaram vir com eles. Me trouxeram e o cara falou que iria me levar até Araçatuba, mas como o balanço do trem era gostoso, eu não quis descer. Daí continuei a viagem e vim acabar descendo só aqui no Amandaba.
Ficou aonde daí?
Lembro que cheguei 10 horas da noite e o cara do trem me jogou porque ficou bravo porque não tinha descido em Araçatuba. Fiquei na estação, na verdade dormi muito tempo em um pau oco que tinha aqui perto (apontando pro lado). A minha sorte que a mulher do chefe da estação tinha dó e sempre que ele saia me dava café e almoço.
Como era as coisas por aqui naquele tempo?
Na verdade, tinha só a estação e lembro que também já tinha essa casa que estou hoje, mas era de um fazendeiro bem rico. O problema é que tinha uns caras que queriam judiar de mim. Eles queriam me matar, viviam atirando e tacando pau, por isso que o cara da estação acabou me tirando da rua e falou pra varrer a estação que em troca me dava comida. Fui ficando até que comecei a trabalhar depois em uma sacaria e fui crescendo fazendo outros trabalhos.
Trabalhou aonde mais?
Quando fiz 18 anos me alistei no exército. Cheguei até ir pra Corumbá, mas depois fui dispensado. Acabei voltando e arranjei um emprego com o pessoal da Força e Luz. Com isso fui pro Rio de Janeiro, ajudei a fazer a ponte Rio Niterói. Depois não deu mais certo e acabei voltando pra Mirandópolis para trabalhar como ajudante de pedreiro.
Chegou a estudar?
Nunca fui para a escola, não tenho orgulho de falar isso, mas não tinha jeito. Ou eu trabalhava ou estudava, para não morrer de fome decidi trabalhar.
Quais as recordações de Mirandópolis?
Ajudei a colocar o telhado e o relógio da igreja, lembro muito bem dessa época. Também recordo do tempo que fui trabalhar na Fazenda Peres, pois ajudei a abrir o Córrego do Macaco e a Água Amarela. Ali tinha um baile de sábado que todo final de semana morria um, era complicado. Eu enfrentava tudo, não tinha preguiça.
Você fala que jogou futebol, isso é mais uma das suas histórias?
Claro que é verdade, cheguei a jogar pela Ponte Preta. É que em uma das minhas andanças fui morar em Campinas. O problema é que teve um jogo contra um time do Mato Grosso e os caras queriam que eu entregasse a partida, pois era goleiro. Mas eu não iria tomar um gol por conta que eles queriam, com isso acabei sendo dispensado.
E o Restaurante do Lió, como foi que surgiu?
Aqui começamos nos anos 80 com uma pequena venda. Na verdade, tinha de tudo, vendíamos cachaça, calçados, roupas, arroz, feijão e um monte de outra coisa. Lembro que nessa época, depois de alguns anos, um cara montou um armazém aqui bem próximo, daí eu quebrei. O fiado ninguém pagava e daí fui cortar cana, enfrentei isso ainda na vida. Só que nesse meio tempo começou a chegar uns caras que estavam de passagem e queriam almoçar. Acabavam vindo aqui me perguntar se fazia almoço. No começo eu falava que não tinha mesa, mas eles insistiam pra fazer, daí começou com um, depois foi falando para outros e a coisa foi crescendo.
Qual seu sentimento por Amandaba?
Aqui foi onde comecei a minha vida. Será aqui que vou terminar. O povo fala Amandaba, mas aqui é Machado de Melo. Não é porque um prefeito mudou o nome é que preciso mudar também. Adoro conversar com pessoas, de contar história e dar conselho. Principalmente para os mais jovens, sempre digo para trabalhar e não ficar com droga e bebida.