Quem passa pela Avenida Guanabara nota, ao chegar ao cruzamento com a Avenida Bandeirante, um prédio bastante imponente.
Trata-se do Colégio J.B.C., ou João Brembatti Calvoso.
Estive rebuscando os recônditos da cachola e eis que me veio à baila as lembranças da época em que estudei no J.B.C., pelos idos de 1991 a 1993.
Como era de origem humilde, ia a pé. Alguns poucos felizardos iam de carro ou de moto. Nosso uniforme do 3º ano tinha o desenho de um trem e a frase: “Expresso Detona”.
Admito que por muitos anos esta classe foi lembrada por todos os funcionários daquela maravilhosa escola como uma turma que tinha alegria de viver, mas não abdicava dos estudos. Confesso meio encabulado que nossa turma era “danada”.
A bagunça e a alegria eram nossas companheiras inseparáveis, apesar da diretora ser muito brava.
Grandes amizades nasceram nesta época, além de alguns casamentos cujos namoros se iniciaram dentro daqueles muros. Algumas vezes nos permitíamos matar aula, digo, sair mais cedo, para fazer aquele pit stop nas lanchonetes Sem Limites da Paes Leme, do proprietário Júlio, Ponto X ao lado do Fórum ou na Lanchonete do Léo na Avenida Guanabara.
O time de Vôlei da escola desta época sagrou-se campeão paulista dos jogos estaduais disputados em Guaratinguetá.
Como era bom viver com preocupações tão pequenas. Nossos maiores problemas se resumiam a tirar boas notas, torcer para os pais de alguém viajar no fim de semana e liberar a casa para aquela festinha que não tinha a conotação que tem hoje; convencer mamãe e papai a comprar aquele tênis legal ou aquela camisa da moda já que esse tal de celular ainda não existia.
A maior ostentação daquela época era usar o famoso Nike Air Max ou o New Balance e calça da Zoomp ou Fórum.
Nosso grupo “Expresso Detona” era tão unido que quando chegou o mês de dezembro, em que praticamente já não havia mais aulas, ainda assim íamos todos para a escola e ficávamos sentados nos bancos de cimento perto da cantina batendo papo.
Tínhamos a exata noção de que aquele período mágico estava acabando para sempre. Queríamos aproveitar cada segundo. Todos ali sabiam que a fase inocente da vida ficaria ali, naquelas cadeiras de madeira das salas de aula, naquele pátio com árvores enormes, naquela quadra. Todos sabiam que dali pra frente era pra valer. Não haveria mais broncas da inspetora de alunos ou das professoras cobrando empenho e silêncio na sala de aula.
Chegava o momento dos meninos virarem homens. Arranjar emprego, prestar concurso, tirar CNH, sair de casa, morar fora, casar, pagar as próprias contas...
Lembro-me bem que drogas não existiam ali, ou se existiam ficavam muito bem disfarçadas, pois não víamos nada ostensivo. Não havia brigas, não havia gangues, nem tiros, nem tráfico. Todos trabalhavam de dia e estudavam a noite. Ninguém era rico e todo mundo era feliz.
O sistema funcionava. Os professores tinham condições mínimas para ensinar e os alunos tinham interesse em aprender, pois sabiam que o conhecimento seria seu único passaporte para um mundo melhor, de maiores oportunidades.
Hoje, decorridos vinte e poucos anos, passo pelas ruas e vejo minha turma de escola e constato que todos estão bem. Os meninos viraram homens na exata concepção da palavra: Comerciantes, funcionários públicos, empresários, dentistas entre outras tantas dignas profissões. Nenhum virou bandido. Nenhum está preso.
As meninas se tornaram profissionais das mais diversas áreas, casaram e tiveram filhos. Tudo como tem que ser dentro do que se espera em uma sociedade formada por pessoas diferentes entre si, mas com objetivos em comum.
Posso estar redondamente enganado, mas sinto que a juventude de hoje menospreza a importância do ensino em suas vidas. Vivem neste mundo “a passeio”. Adolescentes terminando o ensino médio sem saber a capital do estado de São Paulo ou o nome do continente em que habitam. A mídia induzindo ao consumo de músicas e produtos que enterram valores que foram tão duramente cultuados por nossos antepassados.
Quero acreditar que estejamos tão baixo, tão no fundo do poço, que nossa população em breve vai se dar conta da gravidade da situação e cobrar de nossos governantes soluções urgentes para o caos que está instalado. Dar valor aos professores e educadores de modo geral. Transformar novamente as escolas em lugares sagrados e respeitados. Construir mais faculdades e menos presídios.
Eu tenho fé. Eu acredito no futuro deste país. (Por André Davi Martins é Sargento da Polícia Militar, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc).