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Tamiko Inoue, uma vida de desafios e vitórias

'Voltei a trabalhar carequinha. A sensação  da perca do cabelo é  meio estranha. Você vai tomar banho, lava a cabeça, mexe no cabelo  e vê as mechas saindo.  Aí eu raspei a cabeça.  Mas  eu nunca me s

Revista Fala! - Andradina
25/07/16 às 13h39

Apenas dois secretários do governo Jamil Ono permaneceram na mesma pasta desde o primeiro dia do primeiro mandato, uma delas é Tamiko Inoue, frente à Educação, de longe a secretaria que mais se desenvolveu nos últimos sete anos e meio.

Quando convidada pelo prefeito eleito, em 2008, Jamil Ono, Tamiko viu surgir uma oportunidade de voltar a Andradina e caminhar junto com uma proposta de mudança, estando à frente da gestão da educação municipal. O tamanho do desafio? Sair da gestão de apenas uma unidade escolar, destinada ao ensino profissionalizante e de adultos, para ser a responsável por uma rede de ensino que envolve alunos que são desde bebês de três meses a três anos nos Centros de Educação Infantil (Creches), das Pré-escolas na educação infantil (de 4 a 5 anos) e o ensino fundamental (6 a 10-11 anos) e ainda os maiores de 15 anos da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

“Foi um desafio muito grande por que a minha experiência nunca foi de educação infantil, lidar com creche. Eu fui professora do primário, fui alfabetizadora, ai eu encontrei apoio nas funcionárias de carreira, depois conseguimos montar a nossa equipe, com coordenadores e tive muita ajuda da Sandra Regina Pereira”, afirma.

Para se ter uma noção, sua função deixaria de ser pedagógica e ainda teria que gerenciar uma frota específica de ônibus que percorre milhares de quilômetros semanalmente para levar e trazer alunos de todas as comunidades, desde as rurais até bairros mais afastados, isto também significa gerenciar insumos e um almoxarifado específico. Com mais de 5 mil alunos, apenas a Cozinha Piloto serve refeições capazes de alimentar a população e algumas cidades da região duas vezes por dia. Mas, esses números não eram o maior desafio. Toda a rede estava sucateada em infraestrutura e também na parte pedagógica.

“Abracei a causa de corpo e alma, procurando dedicar-me para fazer a transformação e melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem em Andradina. Sabia que não seria fácil, mas também não temi o que viria pela frente.  Fui bem acolhida e recebida pela rede e estudei para aprender e acompanhar tudo que tinha que ser feito, todos os projetos por que ai começamos a visitar as escolas e as situações que nós encontramos, principalmente nas creches era deprimente. Havia problema de umidade, por isso no começo priorizamos a reforma das creches. Faltavam mobiliários, tínhamos 5 creches e 7 educadoras. Ai fomos chamando e hoje contamos com 90 educadoras”, lembra.

Se a Educação é uma das áreas mais elogiadas do Governo de Andradina, com investimentos de quase 30% do orçamento atual, Tamiko é responsável por 30% do sucesso e aprovação da administração Jamil Ono. Com humildade, a professora acredita que, da realidade encontrada, até a educação que se tem hoje, os fatores decisivos para o sucesso foram, em primeiro o apoio do Prefeito Jamil, o trabalho em conjunto entre as outras Secretarias Municipais, além da competência das equipes técnicas e pedagógicas, a dedicação dos professores e funcionários das 32 unidades da rede municipal de ensino.

Os investimentos foram globais, passando por reformas em infraestrutura das escolas, toca de material didático e de todo material como mobiliário, adoção de tecnologia de ponta como as lousas digitais, construção de sete quadras poliesportivas cobertas, construção de mais cinco creches aumentando o número para 10 e o contrato assinado para a décima primeira, investimentos nos laboratórios de informática, Salas de Leitura, melhoria do transporte dos alunos, melhoria na merenda servida, que é uma das melhores do Estado e com grande parte dos produtos frescos comprados da agricultura familiar e também um grande investimento na remuneração e capacitação dos professores e equipe de docência. A cidade agora tem duas escolas em período integral e esse número chegará a três.

Todo esse investimento provocou uma melhoria significativa nos índices da educação auferidas refletidos nas avaliações como a Prova Brasil (IDEB), do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP) e a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA).

CURA

Em meio a todos esses desafios e transformações, Tamiko enfrentou uma grande provação, a luta com um câncer nos ovários e intestino, manifestado no início de seu trabalho na educação. “Até a descoberta foi um milagre de Deus, por que eu não tinha sintoma nenhum. Quando percebi alguma coisa diferente e fiz um exame já era grande, estava com 17cm por 19cm por 12cm. Eu fiquei assustada por que ia ao médico todos os anos. Fiz outro exame e depois foi confirmado que era um tumor mas não sabia se era maligno ou benigno e fui encaminhada um centro especializado pois teria que ser operada”, conta.

A professora passou por uma cirurgia grande em 2009 no Hospital A.C. Camargo em São Paulo, e depois foi submetida a quimioterapia durante seis meses. Foi difícil o tratamento. Sentia muitas dores, tinha muita náusea e ficou bem mais magra. Depois sacudiu a poeira e voltou ao trabalho.

“Não tive medo em nenhum momento. Acho que Deus prepara a gente. Aproveitei todo esse tempo para ler os livros da Seicho No Ie que é uma filosofia muito positiva e aquilo me deu muita força. Não fiquei apavorada em momento nenhum, encarei com muita naturalidade. Voltei a trabalhar carequinha. A sensação da perca do cabelo é meio estranha. Você vai tomar banho, lava a cabeça, mexe no cabelo e vê as mechas saindo. Ai eu raspei a cabeça. Mas eu nunca me senti doente”.

A ORIGEM

Nascida em uma comunidade rural em Birigui (SP), ela chegou em Andradina ainda criança para se instalar no bairro de Planalto, em 1950. Filha do imigrante japonês Shinji Inoue e Tikae Inoue, nissei de 89 anos, ela é a mais velha de seis irmãos, três homens e três mulheres.

Na propriedade da família Inoue, a vida na lavoura era dividida por aproximadamente 30 pessoas, entre avós paternos, pais e tios e tias ainda solteiros. A família buscava escrever o seu futuro e apostava no trabalho conjunto no plantio de culturas como o arroz, algodão, milho, amendoim, feijão e administravam uma pequena empresa de beneficiamento e polimento de arroz com produção de farelo para ração animal. Os negócios em família iam bem e na década de 60 passaram para o ramo de avicultura (aves de postura) e chegaram a produzir 100 mil ovos por dia.

“O trabalho era todo familiar. Conforme os tios iam casando a família aumentava e acabava todo mundo morando no mesmo local. Todos contribuíam com suas habilidades, dos mais velhos até as crianças. Tudo era dedicado ao sucesso na produção e a manutenção da grande família que tinham espaços de convivência comuns e até um grande refeitório onde servíamos a todos que estavam no trabalho, da família até os poucos empregados. Fui criada para servir a família e ter habilidades domésticas e para meu pai isto só estaria perfeito, mas eu queria estudar”, lembra Tamiko.

A educação em sua vida 

Junto com os outros 16 filhos da grande família Inoue, ela estudou em escola pública, seja em planalto, Murutinga do Sul, Pereira Barreto ou Andradina. O início foi muito difícil pois tinha que praticar o português na escola, pois no seio da família todos usavam a língua japonesa. Determinada, Tamiko já entrou no primeiro ano sabendo ler e escrever. Ela tinha objetivos desde cedo e eles passavam pela Educação. Teve até que se mudar para casa de tios em Pereira Barreto para iniciar o ginásio, até que a pavimentação da rodovia Marechal Rondon permitisse que houvesse rotas diárias para Andradina, distante apenas oito quilômetros de distância. “Tínhamos dentro de nós, todos os sonhos do mundo e por isso nos empenhávamos nos estudos e no trabalho na tentativa de reunir e melhorar as condições materiais e tudo o mais que fosse necessário para a realização dos nossos sonhos. Cada qual foi fazendo suas escolhas profissionais e à medida das exigências de formação, principalmente os “meninos” foram saindo para estudar na capital São Paulo, visto que Andradina à época não apresentava quase nenhuma opção de cursos superiores”, disse.

Tamiko optou por permanecer na cidade que a acolheu e pela qual nutria um grande amor. Ficar em Andradina também foi um sacrifício pessoal para dar oportunidade a irmãos e outros membros da família de estudarem fora. “Algumas pessoas da família acreditavam que mulher não precisava estudar muito. Chegar a oitava série do Fundamental era uma grande conquista. Assim fiquei fora da escola por dois anos”, disse.

No período fora da escola, Tamiko trabalhou duro, aprendeu corte e costura e ainda dirigia uma Perua Rural Willys que mais tarde utilizou para retomar os estudos enfrentando a estrada de terra entre Planalto e Andradina para frequentar a escola no período noturno.

Assim ela seguiu estudando, queria ser professora e concluiu o curso de Licenciatura em Letras pelas Faculdades Integradas Rui Barbosa. Seu pai faleceu meses antes da formatura. A vida mudava e Tamiko seguiu seus planos, mesmo que com mais obrigações.

Ela começou a dar aulas em 1970, em Planalto depois passou em Concurso Público para a Escola Estadual “Antonieta Bim Storti de Murutinga do Sul”. Ela já havia passado em dois Concursos da Secretaria Estadual de Educação para Diretor de Escola, mas não se motivava a deixar as salas de aula. Queria o contato com os alunos, o que lhe dava alegria ao ensinar. Ela foi novamente aprovada em 1989, mais um concurso para diretora e acabou aceitando a direção da Escola Estadual “Sara Beatriz de Freitas”, na Terceira Aliança, em Mirandópolis.

“Os pais ajudavam muito no bom andamento da escola. Tínhamos só uma funcionária na escola. Ela era merendeira, era faxineira e tinha uma moça que trabalhava na secretaria na parte acadêmica. A falta de pessoal era suprida pelos pais que iam ajudar lá. Os pais capinavam o quintal, faziam limpeza nas calhas, no quintal, podavam as árvores, jogavam herbicida, tinha muita participação. Muito diferente das experiências que eu já tinha vivido em outras escolas”, lembra.

ESCOLA AGRÍCOLA

Um ano depois, em 1991, Tamiko atendeu a um convite da professora Áurea Calestini Rodrigues Martinho, na época Dirigente de Ensino de Andradina para implantar uma Escola Técnica Agrícola, que era ligada a DEET-Divisão das Escolas Técnicas Estaduais da Secretaria Estadual de Educação, o que hoje evoluiu para a ETEC Sebastiana Augusta de Moraes, vinculada ao Centro Paula Souza.

“Estávamos criando uma escola a partir do nada. Não tínhamos prédio e nem se quer uma área para construir a estrutura para iniciar o curso técnico em Agropecuária. Eu vinha do campo e sabia a importância desse aprendizado para outras pessoas que não tiveram a mesma experiência que tive no meio familiar. Era aceitar o desafio ou Andradina perderia a escola”, explica Tamiko.

As primeira aulas foram dadas na Escola Estadual João Carreira, localizada na Fazenda Primavera, onde já havia alguns projetos desenvolvidos pelo professor Arnaldo Hideo Kotaki com apoio dos técnicos Jairo Queiroz dos Santos e Jamir Queiroz dos Santos.

A primeira turma de 40 alunos aproveitou as aulas de horticultura, avicultura de corte e cunicultura e sistema de irrigação que atendiam ao currículo para o primeiro ano. “A diretora da escola, Célia Helena Esteves, nos recebeu solidária. Eu tive uma empatia muito grande com esses primeiros alunos, que vinham de vários estados e a maioria dormia na sala de aula construída para abrigar o curso. Era imenso o sacrifício deles para adquirir conhecimento e não podíamos decepcionar”, lembra.

O curso tinha que continuar e cresceria com a chegada de uma segunda turma. Não havia mais salas de aula na João Carreira e o curso foi transferido para EMEF Romeu Martins em Planalto. O problema estava resolvido por mais um ano. Tamiko não parava de pensar sobre o futuro daqueles estudantes e foi tranquilizada depois que o ex-Prefeito e agropecuarista Orensy Rodrigues da Silva, doou 37ha de terras para a construção da sonhada “casa própria” para a escola Agrícola. “Íamos até aquela área várias vezes, eu e os alunos, olhávamos aquele campo vazio, e sabíamos que iriamos ter uma escola naquele local. Trabalhamos duro, tivemos dificuldades e fomos ajudados muitas vezes para termos a escola de hoje, e tenho uma imensa gratidão de ter feito parte desta história com tanta gente que dividia o mesmo sonho”, disse.

Tamiko lembra da participação de várias pessoas neste processo, como os ex-prefeitos Mauro Brito, João Carreira e Orensy, do Professor Rubens Romariz, da Delegada de Ensino Professora Áurea Calestini, além de vereadores. Das primeiras salas construídas em 1992, até a grande estrutura existente hoje, Tamiko permaneceu ativa frente a escola até julho de 2004. Foram 14 anos na direção e ela, devido a uma mudança na legislação teve que deixar a escola que viu brotar nas mãos.

“A escola tinha que se relacionar com a comunidade até por que a gente não tinha estrutura nenhuma. Quando entramos lá na fazenda só tinha pasto e colonião, não tinha um trator, ferramenta era só enxada, machado, enxadão. Os primeiros alunos foram os desbravadores. Trabalhavam a parte do trabalho braçal mesmo, estudavam a parte teórica mas a prática eles tinham que preparar o espaço, Dr Orensy emprestava maquinário da fazenda dele”, narra.

Seu novo desafio foi o de coordenar cursos profissionalizantes na Penitenciária de Tupi Paulista, para 600 jovens entre 18 e 21 anos da extinta FEBEM. “A maioria era transferido das Unidades da região do Tatuapé em São Paulo, que foram marcadas por rebeliões. A unidade funcionou até 2006, conheci outras realidades e pudemos participar de verdadeiras transformações de vidas. Foi enriquecedor”, disse.

Ela voltou ao Centro Paula Souza como diretora da ETEC de Birigui, sua cidade natal, de onde só saiu para assumir a Secretaria Municipal de Educação a convite do Prefeito eleito, Dr. Jamil Akio Ono. Os grandes desafios só estavam começando.

SERVIR

Tamiko dedica sua vida a servir o próximo e é membro ativa e praticante de grupos que buscam essa filosofia, como o Rotary. Para ela, realizar trabalhos voluntários alimenta energias interiores, melhora a autoestima e o equilíbrio emocional diante das dificuldades. “Alegria e a gratidão das pessoas atraem energias que nos fortalecem e curam”, diz.

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