Thiago Joanini, 34 anos, secretário de Obras da Prefeitura de Nova Independência, e o assessor e mestre de obras Edcarlos de Salis [Nequinha], 50, foram presos em flagrante pela Polícia de Brasilândia/MS por peculato/desvio, na tarde deste sábado 29, quando usavam um trator da prefeitura no preparo de terras da fazenda da família Joanini.
Os dois estão presos na carceragem da delegacia, junto com os demais detentos, isso porque a outra cela existente no prédio está interditada. Uma audiência de custódia estaria agendada ainda para esse domingo, ou amanhã, mas o crime é inafiançável na esfera policial.
A ação conduzida pelo delegado Thiago José Passos da Silva, com autorização da Justiça, ocorreu após 16h, a partir de denúncias do ex-fiscal geral do Município, Fernando de Macchi Santana e dos vereadores Denise Coimbra e Osvaldo Rubiácea.
Eles apuraram que o trator Massey Ferguson do “Programa Brasil para Todos”, obtido na gestão da ex-prefeita Neusa Joanini em 2014, era usado na propriedade em nome da família [secretários Thiago, Thais e o avô deles, segundo informações obtidas pela reportagem].
FLAGRA
Os policiais chegaram à fazenda, depararam com o trator gradeando a terra e o primeiro a ser enquadrado foi Thiago. Segundo o delegado, o secretário indagou sobre a necessidade da averiguação e alegou que o trator seria de uma empresa que presta serviços para o pai dele, o ex-prefeito Valdemir Joanini.
Na insistência do delegado, Thiago admitiu que “seria prejudicado” e por fim admitiu a posse do trator pelo Município e que a namorada [ou companheira] a prefeita Thauane Pereira Duarte estava ciente da situação. O secretário confirmou ainda que o tratorista Nequinha era assessor, quando este negou ao ser indagado pelo delegado.
Os diálogos a ação policial foram testemunhados por Fernandinho do interior da viatura e relatados em detalhes ao Impacto Online. Após autuar os dois o delegado e a equipe ajudaram descarregar madeira na carroçaria da caminhonete de Thiago, antes de levá-los para a delegacia, onde passaram a noite com outros 11 presos.
“Temos que coibir esse tipo de conduta. Os políticos devem entender que o patrimônio público não se confunde com o patrimônio particular. O dinheiro que é desviado com esse tipo de ação falta para saúde, educação, moradia, etc...”, declarou o delegado Thiago Passos, que vai apurar todas as circunstâncias no inquérito, inclusive a forma que eles atravessaram a fronteira entre SP e MS.
A ex-prefeita Neusa acompanhou o caso, haja vista ter chegado a Brasilândia por volta de 14h, escoltando o caminhão prancha da família com outro acessório que seria usado pelo trator na fazenda distante cerca de 18k do centro urbano.
EM DEFESA DO POVO COM RESPALDO DA POLÍCIA
Na sexta-feira 28, após registrar em fotos e vídeo o equipamento trabalhando na fazenda, o trio recebeu respaldo da Polícia Civil e da Justiça de MS para constatar o crime de peculato, que é inafiançável.
Segundo Fernandinho e os vereadores, o trator foi transportado para Brasilândia num caminhão prancha da família Joanini na última terça-feira e a princípio estaria sendo levado para revisão. Todavia, o fato de o mesmo ter sido abastecido no Posto Trevo levantou suspeita e a partir daí o trio iniciou diligências particulares para desvendar o mistério.
“O delito foi cometido exclusivamente contra a administração pública e por servidores públicos (ou pessoas em cargos administrativos, de confiança, ou terceirizados que tenham responsabilidade sobre informações ou bens públicos). Estes trabalhadores se apropriam indevidamente de um bem financeiro, ou não (equipamentos, máquinas, veículos) ou contribuem para que o desvio seja efetuado por outrem”, apontou o delegado Passos.
Além do caso comum do crime – quando um servidor desvia ou se apropria de algo público (peculato-apropriação, peculato-desvio) – há outras formas do crime previstas no Código Penal: A pena para esses crimes varia de acordo com o caso, podendo chegar a 12 anos no peculato doloso.
DESABAFO DE VEREADORES
“Recebemos a denúncia do trator sendo usado em MS e constatamos o absurdo, porque o trator foi adquirido para atender pessoas carentes e pequenos produtores e de assentamentos do Município. Não para servir à família Joanini. Por isso não poupamos esforços para desempenhar nosso papel de fiscalizar e esclarecer os fatos, Agora é com a Justiça”, disse o vereador Osvaldo Rubiácea.
Segundo acrescentou, a família tem outros tratores locados para a Usina Ipê, detêm várias propriedades rurais e não deveria usar um bem público como uso pessoal. Isso é gravíssimo e discordo totalmente. Agora espero que os demais vereadores tomem a posição correta para defender os interesses do povo, especialmente os mais humildes.
“Há dois dias travamos uma luta acirrada para investigar e denunciar o crime ao delegado, que felizmente nos deu respaldo. Em nenhum momento pensamos em desistir, por causa da burocraria que envolve um caso desses, mas fomos eleitos para defender os interesses da comunidade”, avalia a vereadora Denise Coimbra.
“Me entristece ver um ex-político e uma família com o nome estampado em atos de corrupção privar os pequenos produtores da assistência de um trator para usar em uma de suas propriedades. Isso é inaceitável, uma afronta às leis e à Justiça, por isso estamos firmes nesse propósito de defender o que é direito”, disse.
“Levar um trator para outro estado e para fins pessoais é inadmissível, mas dessa família se pode esperar tudo. Os bens são do povo, que paga impostos com dificuldades e não dos barões, por isso encarei esse desafio de passar 24, praticamente sem dormir e sem banho, visando esclarecer esse abuso com garra e determinação. Fomos eleitos para isso”, acrescentou.
E arrematou: “Não á fácil brigar com esses mandatários que se acham donos da verdade e de tudo que é do povo, mas estou no caminho certo. Seria mais fácil sentar na cadeira da Câmara, receber meu salário e ficar de boca fechada, mas não sou corrupta e mau caráter e dessa forma vou continuar pautando meu trabalho com honestidade”. Por ela fim agradeceu o pai, ex-fiscais Fernandinho e José Miguel [seu pai], Parentinho e Nenão que participaram das diligências.
EM TEMPO
Segundo as últimas informações, o secretário e o assessor foram liberados durante audiência de custódia realizada ao fim deste domingo para responder processos em liberdade, após pagamento de R$ 13 mil de fiança.