Um sistema que imita a natureza: solo coberto pela vegetação que cai naturalmente das árvores, muitos tipos de plantas juntas, sem pragas ou doenças, dispensando o uso de agrotóxicos, e até criação de animais. Esse é um pequeno resumo do que é uma agrofloresta ou SAF (Sistema Agroflorestal), um conjunto de técnicas que reúne agricultura e preservação ou recomposição ecológica.
O modelo chegou à região de Araçatuba há pouco tempo, por meio da RAE (Rede de Agricultura Agroecológica), um grupo ligado à agroecologia, com pesquisadores, estudantes, técnicos, que tem o propósito de estreitar a relação entre o campo e as cidades. Essa rede foi montada em 2014 com a proposta de falar de agroecologia dentro da Bacia Hidrográfica do Baixo Tietê, que abrange 42 municípios.
Gradativamente a ideia foi sendo disseminada. Atualmente, pelo menos seis propriedades rurais na região (três em Araçatuba, uma em Barbosa, uma em Coroados e uma em Penápolis) têm o sistema implantado, fora as iniciativas em acampamentos e assentamentos, nas cidades de Promissão, Castilho, Andradina e Brejo Alegre.
Coroados
O sítio Naturaleza da família Rabal, sob o comando do publicitário e ambientalista Jefferson Rabal, é um dos modelos pioneiros de agrofloresta na região.
A área, que tem seis hectares no total, foi adquirida por Jefferson em 2001. Até então, no local só havia pastagens. Hoje, há espaço para pastagem sustentável, APP (Área de Preservação Permanente) às margens do ribeirão Baguaçu, um dos principais afluentes do rio Tietê e que abastece parte de Araçatuba, horticultura, apicultura e a agrofloresta - com árvores nativas, frutíferas, Panc’s (Plantas alimentícias não-convencionais) e hortaliças, que ocupam apenas 0,5 ha da propriedade, aproximadamente meio campo de futebol.
“Meu pai sempre teve canteiro, ou no fundo de casa ou em hortas comunitárias, que em Birigui são fortes. Eu já tinha comprado o sítio e meu pai ainda mantinha os canteiros dentro da cidade. Até que um dia um vizinho jogou veneno nas hortaliças dele e ele nunca usou agrotóxicos nos alimentos que produzia. Foi minha mãe que o convenceu a fazer uma horta no sítio”, conta Jefferson, sobre o início.
Com ajuda do pai, Jesus Rabal Chambo, e da mãe Joana Alves dos Santos Rabal, Jefferson começou a aplicar na prática aquilo que acreditava como ambientalista. O canteiro de hortícolas foi o primeiro a ser feito. Depois, a família foi estabelecendo o pomar - o sítio adquirido tinha um único pé de manga de pequeno porte, um pé de jaboticaba e um pequeno bambuzal.
O SAF começou a ser implantado depois de 2008, quando Jefferson fez um curso sobre agrofloresta e passou a se dedicar ao tema, até que conseguiu a montagem da RAE, ganhando apoio de outros pequenos produtores.
Atualmente, são mais de 150 espécies de árvores no local, fora as plantas “incontáveis”, segundo Jefferson.
Segundo Jefferson Rabal, poda serve de adubo para o solo; nesse sistema, não há perdas, tudo é reaproveitado (Foto: Aline Galcino)
Sistema
As agroflorestas, segundo Jefferson, são, como o próprio nome diz, florestas que produzem alimentos. Para se constituir uma, é preciso observar dois princípios. O primeiro, o estrato (a altura) que a planta ocupa, considerando principalmente a necessidade de luz solar para a espécie, e o ciclo de produção, ou seja, quanto tempo ela ficará em determinado local.
O segundo passo é o plantio em abundância, porque se um inseto comer essa planta, não fará falta porque haverá outras culturas para se alimentar.
“Agora mesmo tivemos um período seco e os cachos de banana não ficaram bonitos, mas temos outras frutas, como a acerola, graviola, abacate, que produziram bem. As mangas, na próxima colheita, vão estar mais saborosas porque quando o clima está seco elas ficam mais doces. Então, a banana não fez falta”, explica.
O sistema também utiliza conceitos de permacultura, ou seja, planejamento e execução de ocupações sustentáveis que une práticas ancestrais aos modernos conhecimentos da área; e de agricultura sintrópica, onde o principal propósito é o cultivo de alimentos sem utilizar de nada além do que o meio ambiente pode oferecer. Nesse sistema, as podas funcionam como matéria para a formação de adubo orgânico e húmus.
O plantio sintrópico é a base do sítio Panorama, em Penápolis, conduzido pelos irmãos Mariana Bachiega e João Covolan Bachiega. Os dois estão transformando uma pequena parte do sítio do avô deles, que sempre se dedicou à pecuária, em agrofloresta.
O projeto começou há cinco anos. Formado em biologia, João decidiu retornar à cidade natal para colocar em prática aquilo que acreditava e teve o apoio da irmã Mariana, que é arquiteta e também não estava satisfeita com as decisões e caminhos escolhidos.
João fez um curso de agrofloresta e depois, os dois fizeram cursos de permacultura e foram adquirindo cada vez mais conhecimento nessa área. “O módulo é pequeno, tem 0,7 hectare. Mas a ideia é mostrar que uma família consegue se sustentar, produzir seu próprio alimento de forma consciente, gerar renda e se manter no campo”, explica Mariana. Eles também abrem a propriedade para ajudar outros produtores que têm interesse em aprender o sistema.
A área de 0,7 ha ainda não está 100% ocupada. O avanço tem sido gradativo, por meio de um consórcio de espécies arbóreas de diferentes portes e horticultura.
A renda vem da horta - verduras, legumes, raízes e as Panc’s (plantas alimentícias não-convencionais) - pois as frutíferas ainda não estão em plena produção, com exceção das que possuem ciclo curto, como banana, mamão e maracujá. Tudo é colhido em seu tempo, com produção o ano inteiro. “No inverno, as couves, brócolis e repolhos vão muito bem”, cita como exemplo.
A lista de itens é grande e tudo é plantado em abundância. “Não temos um canteiro só de alface. No mesmo canteiro temos alface, rúcula, brócolis, berinjela e cebola, por exemplo, e cada um ocupa um espaço relativamente pequeno para se desenvolver sem concorrência, um ajudando o outro. A colheita é em tempos diferentes, porque cada planta tem um ciclo. Então eu sempre tenho diversidade grande para oferecer para os meus clientes”, explica.
Produtores se unem para conseguir certificação
Apesar do manejo sustentável e o conceito, as agroflorestas da região ainda não possuem o selo de produtor orgânico, concedido pelo Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), mas pelo menos duas – Naturaleza e Panorama – já estão na fase final desse processo.
O selo de produtor orgânico pode ser obtido de três formas: a certificação por auditoria, pelo sistema participativo de garantia e pelo controle social na venda direta.
Na primeira opção, o produtor contrata uma empresa certificadora e segue as recomendações para se obter o selo de que aquele produto é livre de agrotóxicos.
Participativo
Na segunda, opção escolhida pelas agroflorestas da região, são reunidos produtores e pessoas interessadas que se ajudam e realizam vistorias nas propriedades participantes. “Os produtores trocam informações entre si e eles mesmos fazem as auditorias, diferente de quando se contrata uma empresa de auditoria que só vem à propriedade e olha o que você está fazendo e atesta”, explica Mariana Bachiega.
O processo de certificação por garantia de participação teve início há cerca de dois anos e reúne produtores da região de Araçatuba e São José do Rio Preto.
Venda é direta ao cliente com entrega em domicílio