As cartas encontradas na oficina da concessionária Hyundai Caoa de Araçatuba (SP), incendiada na madrugada de 13 de julho, ajudaram a polícia a identificar o autor do crime.
O supervisor da oficina, que tem 32 anos, foi preso preventivamente no início da tarde de quinta-feira (2). Se condenado, ele pode pegar até 8 anos de prisão por ter colocado fogo na empresa.
Entretanto, ele também responde por posse ilegal de munição e por furto, já que foram encontradas peças de veículos da concessionária da casa dele, avaliadas em R$ 1,5 mil.
Durante a perícia no prédio naquela manhã, foram encontradas várias cópias de cartas que teriam sido escritas por um suposto cliente insatisfeito com o atendimento recebido na empresa.
Na ocasião, a imprensa local chegou a divulgar que o crime poderia ter sido cometido por um cliente, mas o Hojemais Araçatuba apurou na ocasião com a polícia que essas cartas deveriam ser uma forma de desviar o foco sobre a autoria do crime.
Óbvio
Em entrevista coletiva concedida à imprensa, o delegado Paulo Natal, que chefiou a investigação pela DIG (Delegacia de Investigações Gerais), afirmou que desde que a polícia tomou conhecimento das cartas, pelo teor, já identificou que não teriam sido escritas por um cliente enfurecido.
“Desde o início a gente achou que isso era muito óbvio, que não era esse o motivo do crime, porque na carta ficou evidenciado o caráter pessoal”, explicou.
Ele contou que naquela mesma manhã ouviu um dos gerentes citados na carta, o qual negou qualquer problema com clientes. O outro gerente foi ouvido apenas na segunda-feira (15), quando retornou de viagem, e também negou ter se desentendido com algum cliente.
Mequetrefe
Ao verificar o e-mail corporativo utilizado pelo acusado na empresa e as publicações feitas por ele nas redes sociais, a polícia constatou que ele tinha o hábito de usar palavras incomuns, que havia nas cartas, como mequetrefe e vide, o que é mais um indício de que elas teriam sido escritas por ele.
A investigação concluiu ainda que o supervisor de mecânico escreveu a carta em uma lan house de Birigui, onde esteve por três vezes. Duas dessas visitas foram registradas pelo GPS do acusado.
Ele teria feito duas impressões e tirado cópias, já que foram encontradas oito cartas na oficina da concessionária.
Por fim, outro fato que leva a polícia a concluir que o acusado foi o autor das cartas é que segundo uma testemunha, ao ver uma delas no chão, naquela manhã, ele a pegou com a parte escrita para baixo e rapidamente, sem ler, a entregou a um colega de trabalho, dando a entender que já sabia o teor dela.
“Como pode uma carta que leva dois minutos para entender o teor dela, ele pegar do chão, só passar o olho e entregar para o funcionário e falar olha isso?”, questionou o delegado.
Cartão
Outro fato que possibilitou à polícia concluir que o mecânico foi o autor do crime foi o cartão de crédito dele.
Durante buscas realizadas na casa onde mora, no bairro Nova Iorque, que resultou na prisão em flagrante na segunda-feira após o incêndio, os policiais fotografaram o cartão de crédito dele.
A partir daí, conseguiram confirmar que ele comprou cinco litros de combustível e um isqueiro em um posto de combustíveis na avenida Brasília. Testemunhas confirmaram que ele esteve no estabelecimento naquela noite, a pé, com um galão.
Na mesma noite, ele havia abastecido a caminhonete dele em outro posto de combustíveis na mesma avenida. “Se ele havia abastecido a caminhonete não precisava comprar o galão de combustível”, argumentou.
Conhecimento
Para a polícia, também ficou claro que o autor do incêndio não seria um cliente porque não houve arrombamento no prédio.
Para ter acesso à oficina, o criminoso retirou uma trava de alumínio da porta. Isso, segundo o delegado, só poderia ter sido feito por um funcionário ou por um ex-funcionário.
Além disso, as câmeras mostram o incendiário abrindo o capô de alguns carros com agilidade, o que levou a concluir que ele tinha conhecimento de mecânica. Ele despeja combustível no motor, onde há concentração de óleo.
Mentiu
Além de ter negado em depoimento ter sido o autor do incêndio, o mecânico alegou que esteve em uma festa, chegou em casa por volta de 1h e só saiu pela manhã, ao saber do incêndio.
A polícia confirmou que ele esteve nessa festa, entretanto, imagens mostram uma pessoa saindo da casa dele vestida de mendigo, às 4h10, sentido à concessionária.
Segundo Natal, a luz da área dessa residência foi apagada 20 minutos antes, apesar de o próprio acusado determinar aos demais moradores que ela teria que ficar acesa a noite toda, por medida de segurança.
Câmeras instaladas próximas à concessionária gravaram uma pessoa vestida de mendigo e com um cobertor chegando ao prédio e a mesma pessoa que saiu da casa dele retornou às 5h31.
Segundo Natal, no caminho de casa, um ônibus passa por essa pessoa, que se esconde, o que comprova que ela não queria ser vista.
Confissão
Apesar de ter negado o crime à polícia, o mecânico confessou a um colega ter sido o autor do incêndio. Ele disse ainda que havia tentado atear fogo no prédio outras duas vezes, mas entendeu que aquele dia seria a data ideal, sem explicar o motivo.
O acusado também revelou ao colega de trabalho que escreveu as cartas encontradas na empresa e que após o crime, queimou as roupas que usava naquela madrugada. “Ele é uma pessoa fria, inteligente e meticulosa”, classificou o delegado.
Ao chegar para o trabalho, no dia do incêndio, o mecânico comentou com um colega que nem mesmo a pessoa que colocou fogo no prédio tinha noção que o incêndio teria tais proporções, declaração que só poderia ter sido feita pelo autor, segundo a polícia.
A pena para o crime de incêndio varia de 3 a 6 anos de prisão, mas por ter uma oficina no imóvel, ela pode ser aumentada, chegando a até 8 anos. Ele também responderá por ter ameaçado dois colegas de trabalho.