Rodrigo Mendonça: a luta de um médico contra as sequelas da covid-19

Cinco meses após contrair covid-19, neurocirurgião que mora em Araçatuba (SP) ainda trata uma fibrose pulmonar causada pela doença 

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
17/01/21 às 11h00

De médico a paciente. O neurologista e neurocirurgião, Rodrigo Mendonça, 44 anos, de Araçatuba (SP), está entre os profissionais da saúde que contraiu covid-19. Em agosto do ano passado, precisou ser internado no hospital da Unimed por conta da doença, onde permaneceu por 15 dias.

Mesmo não precisando ser transferido para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva), a infecção pelo coronavírus trouxe agravantes, como uma polineuropatia aguda, e outras sequelas que ele trata até hoje, cinco meses depois de ter contraído covid-19. 

“Tenho falta de ar todos os dias. Não consigo mais subir um lance de escada dentro do hospital sem ter falta de ar”, diz Mendonça. Acompanhe a seguir o depoimento do médico, que integra a série de reportagens com moradores da região que lutaram, ou ainda lutam, contra as consequências desse vírus. (No final do texto, confira também o relato da jornalista Corina Batajelo). 

Cirurgia e início de tudo

“No dia 13 de agosto do ano passado, durante cirurgia no hospital da Unimed de Araçatuba, comecei a me sentir mal. Tive tosse, sudorese, fraqueza, tontura, coisas que não costumo ter. A equipe que estava comigo notou que eu estava pálido e não estava legal. Mesmo assim, terminei a cirurgia e no final, me dirigi ao pronto-socorro da Unimed. 

Relatei o que estava sentindo ao médico e ele solicitou uma tomografia de tórax. Estava tudo normal. O teste rápido deu negativo. Porém, a gente sabe que nos primeiros dias dos sintomas, o teste dá negativo mesmo. Foi coletado material usando o swab (PCR) e fui pra casa como caso suspeito. 

No outro dia, não trabalhei. O médico tinha me passado medicação - azitromicina, vitamina e repouso. No sábado, eu já estava sentindo um pouco de falta de ar. O resultado do PCR deu positivo para covid-19. Comuniquei o médico e ele sugeriu o tratamento em casa. 

Acredito que contraí a covid da minha namorada, porque ela é enfermeira da UTI de covid da Santa Casa. Ela tem contato com pacientes com a doença todos os dias. Mesmo tendo todos os cuidados, usando os equipamentos de proteção individual, ela já estava há dois dias antes de mim com um pouco de tosse e fraqueza. O teste dela também veio positivo.

No domingo, já comecei a ter muita falta de ar e febre. Nesse momento, eu fui pro hospital e fui internado devido à falta de ar. 

Internações

No hospital, foi realizada uma tomografia de novo e apontou comprometimento de 25% do pulmão. Com intervalo de três dias, a doença evoluiu rápido. Na internação, precisei usar muito oxigênio; fiz fisioterapia, que foi fundamental na evolução do meu tratamento. Nos três primeiros dias, fiquei estável e recebi alta para tentar continuar o tratamento em casa, mas não teve jeito. Fiquei uma noite em casa e no outro dia acordei com mais falta de ar, mais fraqueza e precisei voltar ao hospital, onde fui internado novamente. 

Rodrigo Mendonça tem 44 anos e é neurologista em Araçatuba (Foto: Arquivo pessoal)

A tomografia já apontou 50% de acometimento do pulmão e algumas complicações, como pneumonia associada e derrame pleural (acúmulo de líquido no pulmão). Realmente, comecei a ficar preocupado, porque a doença estava complicando. Meu médico me visitava todos os dias e ele via que eu não estava evoluindo muito bem nesses primeiros dias. 

Então, entrou com altas doses de corticoide e anticoagulante, que a gente faz o clexane, aquela injeção aplicada no abdômen para evitar as complicações trombóticas da covid. Fiquei a um ponto de ir para a UTI. Um dia, durante a visita, o médico me falou que se eu não melhorasse até o outro dia de manhã, porque o meu pulmão estava muito carregado e eu estava muito ofegante, teria que me levar para a UTI. Foi o momento que tive mais medo da doença. 

Mesmo sendo médico, a gente fica com aquele pavor de ser sedado, intubado, de perder a consciência e o controle de tudo o que vai acontecer com você. Temia muito pela minha família. Foi o momento que fiquei extremamente preocupado, mas eu acho que com as orações de todas as pessoas e as minhas, comecei a melhorar. A parte pulmonar foi melhorando e eu não precisei ir para a UTI. 

Completei 12 dias internado e fui para casa de novo para tratamento domiciliar. Novamente, passei uma noite em casa e no dia seguinte, quando fui me levantar, senti que as minhas pernas não estavam mexendo normalmente e veio uma dor muito intensa nelas. 

Sequelas

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Como sou neurologista e neurocirurgião, pensei logo numa complicação neurológica, numa polineuropatia aguda. Pedi ajuda para um vizinho, para me colocar dentro do carro, porque não tinha força nas pernas. Voltei para o hospital da Unimed. Fizeram coleta de líquor da coluna e ressonância da coluna toda, onde ficou diagnosticado uma polineuropatia aguda pela covid-19, uma complicação neurológica que temos observado em alguns pacientes com a doença. Precisei ficar mais cinco dias hospitalizado, recebendo altas doses de medicação na veia. 

Mais uma vez, o empenho da equipe médica e da fisioterapia foi fundamental para a minha recuperação, porque eu consegui recuperar 100% da força das minhas pernas. Mas notei que a minha memória, raciocínio e concentração ficaram bem comprometidos pela covid-19. 

Quando recebi alta pela terceira vez, estava com a memória bem atordoada, dificuldade de concentração. Tinha dificuldade para me lembrar de nome de medicamentos, de algumas doenças, tratamentos. Por isso, fiquei afastado do trabalho por 30 dias. Felizmente, isso melhorou muito hoje e a memória voltou ao normal, mas fiquei com sequela no pulmão, que a gente chama de fibrose pulmonar. 

No final de novembro, comecei a ter falta de ar e dor para respirar. Foi realizada uma tomografia que mostrou que eu estava com pneumonia e fibrose pulmonar. Tive de ser hospitalizado de novo. Foram mais cinco dias de internação devido à sequela. 

Sigo em tratamento, fazendo fisioterapia, tomando medicamentos. Tenho falta de ar todos os dias. Não consigo mais subir um lance de escada dentro do hospital sem ter falta de ar. 

Mudança

Eu me coloquei realmente do lado do paciente e tenho certeza que isso mudou a minha vida de alguma forma. Eu acho que a gente tem que redobrar os cuidados, mantendo o distanciamento social até que a pandemia esteja controlada. 

Comecei a enxergar diferente a questão de eu trabalhar demais, de ver pouco minha família por conta disso. Vi que a qualquer momento poderia não ter resistido ou ter ficado com uma sequela muito pior do que a que estou hoje.

Vacina

A vacina é fundamental. Há anos as vacinas são utilizadas para salvar vidas e prevenir doenças. Acho que houve essa politização da vacina, essa queda de braço entre o governo federal e o governo de São Paulo, que está sendo extremamente prejudicial para toda população. Tem gente que nem sabe o porquê, mas já diz que não vai tomar a vacina por conta da briga política.

 O que tenho a dizer é que a vacina tem que ser administrada para todos, sim. A gente tem um teste do Instituto Butantan, que em 100% dos pacientes vacinados, as formas moderadas e graves foram evitadas. Não tem justificativa para não tomar a vacina. Precisamos ser imunizados para retomar nossa vida normal, sem essa loucura que está sendo a pandemia. 

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