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Jail, uma mulher chamada Brasil

Uma vida dedicada à música, a fé e as obras sociais. Esse é o retrato fiel de Jail Brasil da Silva

Andradina - Andradina
03/07/16 às 15h34
(Cleber Carvalho)

Jail Brasil da Silva (87), filha de Jaime Brasil e Aurelina dos Santos Brasil, nasceu em 12 de outubro de 1928, na cidade do Recôncavo Baiano, Santo Antônio de Jesus (BA). Antes da adolescência, mudou-se com a família para Salvador e assumia o papel de educar e cuidar de seus irmãos, pois ela era a mais velha. Se tornou o arrimo da família aos 14 anos, com a morte da mãe e por anos se viu entregue a missão de cuidar de uma família com nove irmãos do primeiro casamento do pai. Com o falecimento de Aurelina, Jaime teve o segundo casamento, e teve mais sete filhos, que ganharam atenção de Jail como uma segunda mãe, sempre presente e a quem sempre renderam gratidão.

Ela era muito ligada ao artesanato, cozinha, fazia roupas para os irmãos e sempre tentando encaminhar todos para o estudo. Ela tinha uma inclinação muito forte em seu coração por ser missionária, uma certeza que carregou desde criança. Paixão igual nutria pelo estudo da música. Mesmo com a vida difícil, em Salvador, ela fez até a oitava série e o curso de piano, um instrumento que a encantava.

Tinha um grande estreitamento com a Igreja Batista de Itapagipe (Salvador) e quando já tinha encaminhado os irmãos optou por se dedicar a vocação através do serviço missionário no interior da Bahia, onde permaneceu por vários anos.

Sobre essa época, ser missionaria na década de 50, ela fala com muita alegria, muita emoção. Nas lembranças vivas, recorda de ter viajado, bem jovenzinha, dentro do vapor no rio São Francisco para atingir aquela região de Montes Claros até a cidade de Corinto. Certa noite o comandante do navio convidou ela para jantar, por ela ser jovem. Era um privilégio naquela época ser convidado a jantar com o comandante.  Lembra também das adversidades das estradas, sem veículos, levando a palavra de Deus pela Bahia e Minas Gerais, vivendo experiências que a amadureceram.

Na época havia revistas da Igreja Metodista e em uma delas, no tempo sem internet e redes sociais, havia uma página destinada a aproximar pessoas que tinham o mesmo ideal. Foi quando ela colocou o nome dela na revista: “Professora de piano e gostaria de conhecer pessoas. Iniciante no ministério”. Ela teve resposta de vários, incluindo do futuro esposo, o pastor metodista Sebastião Antero da Silva. Ela veio da Bahia para São Paulo para conhecê-lo. Ele era missionário em Campos do Jordão e o amor fez a união.

O casal passou a morar na cidade de Campestre, sul de Minas Gerais, em meados de 1956, devido a nomeação de Sebastião para uma igreja local, onde permaneceu até junho de 1961, para se mudar para Andradina, juntamente com os três filhos: João e Carlos Wesley Antero, os mais velhos e depois veio Ricardo Josafá Antero da Silva. O nome Wesley foi homenagem aos fundadores da Igreja Metodista da Inglaterra, John Wesley e Charles Wesley, que inclusive homenageou o casal.

A vida em Andradina

Logo que se mudou para Andradina, passou a lecionar música em sua residência, sendo que em poucos anos essa atividade se transformou no Conservatório Musical Maria Ferreira, que funciona até hoje, com a denominação de Centro de Ensino Artístico de Andradina, atualmente dirigido por seu filho João Wesley Antero da Silva e a esposa Márcia.

Paralela a atividade artística cultural, sempre desenvolveu ações de filantropia, inicialmente com seu marido Sebastião em que fundaram juntamente com alguns cidadãos andradinenses, a Assistência Metodista Andradinense, mantenedora da Creche XI de Julho, existente até hoje. Uma curiosidade sobre a AMA. A primeira reunião aconteceu na casa de Jail com a presença de Antônio de Moura Andrade e do filho Antoninho Moura Andrade. Eles eram grandes benfeitores da cidade e se encantaram com a possibilidade de criar uma instituição para ajudar as pessoas que vinham de todas as partes para trabalhar no ciclo energético, pois naquela época a cidade sofria o impacto da construção da usina de Jupiá, em 1958. Em parte o nome AMA homenageia esses benfeitores (Antônio de Moura Andrade). Muitas das pessoas atendidas pela AMA, com qualificação profissional, se deram bem na vida.

A instituição reduziu suas atividades ao longo dos anos, por mudanças na legislações e por questões políticas, que tornavam as despesas maiores que a receita. Mesmo assim ainda atende 95 famílias que recebem alimentação. Infelizmente o parque, a creche e os programas profissionalizantes foram findados.

No ano de 1999, também com vários cidadãos de Andradina, fundou a Casa de Apoio ao Morador de Rua de Andradina (CAMOR), onde abriga moradores de rua e migrantes, dando-lhes apoio material e espiritual, com o objetivo de resgatar essa população ao convívio familiar social. Em todo esse tempo, sempre dedicou-se à poesia e crônicas, relatando nada mais que sua experiência de viver, quiçá para transformar as desventuras em vida plena e abundante.

Cenário Musical

O Centro de Ensino Artístico de Andradina foi fundamental para o desenvolvimento artístico regional. Tudo começou em 1962, com as aulas que Dona Jail dava em casa com um piano comprado com as “irmãs” do Colégio Stela Maris. Tinha alunos de manhãzinha até às 10 da noite. Sebastião tinha uma visão mais empreendedora e decidiu formar as pessoas oficialmente. Foi um longo caminho junto ao Governo Estado e na época havia um Serviço de Fiscalização Artística que vinha fazer exames, provas aplicadas por maestros. A qualidade de ensino sempre foi a marca do Centro e o conhecimento dos professores eram postos a prova, entre elas Elvira Neyde Gava e a Brígida Placco que está na atividade até hoje.

“O negócio aqui era de tremer mesmo. Os alunos estavam sempre sendo testados e respondiam à altura e com talento. Mesmo que vivamos outros tempos temos a preocupação de manter a qualidade do que foi construído por nossa mãe”, disse João Wesley.

Naquele tempo, com a aquisição de mais instrumentos as atividades foram ampliadas para seis cidades da região, onde sucursais do Centro eram instaladas e havia grande trânsito de profissionais contratados de outros centros musicais.

“Minha mãe visitava as cidades e levava um violão, um piano, ou o que fosse preciso. A missão era ensinar. Os centros estavam em Três lagoas, Pereira Barreto, Valparaíso, Mirandópolis, Tupi Paulista e Castilho. Assim as pessoas não tinham que viajar pra cá para aprender. Foi uma explosão musical”, lembra Carlos Wesley.

A média de alunos era de 250 a 300 durante o ano. Em 62 anos de existência imaginem quantas já passaram por ali.

Em Andradina, a escola começou na rua Bandeirantes, em frente a praça do JBC. No local também era desenvolvido curso de ballet, que renderam apresentações memoráveis no Cine Santo Antônio. Depois a escola adquiriu um novo prédio na rua Acácio e Silva que foi adaptado com salas com acústica, cabines para piano. Buscando uma estrutura melhor, eles adquiriam o prédio do antigo Fórum de Andradina, na esquina das ruas Acácio e Silva e Santa Terezinha que funciona até hoje e é a maior referência do ensino de música na região.

O Centro de Ensino Artístico de Andradina possui hoje curso de música clássica, popular, contrabaixo, violão, canto, regência, harmonia, curso avançado MPB e até mesmo Jazz, com o professor André Ricardo. Os cursos tem caráter técnico oficializado pelo Governo. Joãozinho, filho de João Wesley, conseguiu um mestrado na Alemanha com o diploma do Centro de Ensino Artístico de Andradina. “Ele precisou de apenas um semestre e quase faz o mestrado direto. A qualidade que teve como base fez surgir nele a vontade de seguir estudos de música erudita e hoje faz carreira internacional na Áustria”, contou João Wesley.

Atualmente, o CEAA propicia os cursos de Musicalização Infantil, Piano (erudito e popular), Violão, Guitarra, Bateria, Contra-baixo, Violino, MPB/Jazz, Técnico em Instrumento Musicas com habilitação em Piano, Canto e Teclado. Os professores do Centro são: João Wesley Antero da Silva (Piano, Piano Clássico e Popular, Canto, Teclado), Marcia Sueli Lopes da Silva (Musicalização Infantil, Piano, Piano Clássico, Teclado), Brígida Beatris Barsanti Placco (Musicalização Infantil, Piano, Piano Clássico), Alana Lopes Brasil da Silva (Piano, Musicalização Infantil, Violão, Guitarra, Bateria, Contra-baixo, Teclado), André Ricardo Lopes (Curso avançado em MPB/Jazz), Tiago Alessandro Domingos do Nascimento (Violão, Guitarra, Bateria, Contra-baixo), Ricardo Brasil Mariano Antero (Violão, Guitarra, Bateria, Contra-baixo) e Lucas Mello (Violino).

Sob o lema, ‘A Execução Musical não é somente Tradição, É Nossa Vocação’; o Centro continua sendo a maior referência musical da região. Venha fazer gratuitamente uma aula experimental. Mais informações pelo telefone (18) 3722-2259.

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(Cleber Carvalho)
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