Geral

Particularidades dos Cuidados Paliativos em Idosos

 Doença e morte são condições próprias dos seres humanos em qualquer idade.

REVISTA FALA! - Drª Liara Marin Surpilli
05/09/17 às 14h23
(Cleber Carvalho)

 Doença e morte são condições próprias dos seres humanos em qualquer idade. Entretanto, existem evidências de que o envelhecimento celular humano torna o organismo mais suscetível a doenças. Nessas condições, o rebaixamento da viabilidade orgânica eleva o grau de vulnerabilidade do indivíduo. Um dos objetivos mais nobres da intervenção de um profissional que lida com o envelhecimento é cuidar da pessoa idosa e protegê-la.

 São consideradas idosas, no Brasil, pessoas com 60 anos e mais. A diversidade do processo saúde-doença é notória. Como comparar um indivíduo independente de 80 anos que se exercita regularmente e mantém uma vida social ativa com outro da mesma idade, acamado e dependente para a higiene pessoal? Têm a mesma idade, porém há uma diferença marcante entre eles no prognóstico e na qualidade de vida.

 Idosos apresentam maior prevalência de doenças crônico-degenerativas para as quais não existe tratamento curativo e que podem prolongar-se por tempo indeterminado, como nas situações de câncer, demência, doença renal crônica, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, fragilidade e outras. Todas são indicações de uma abordagem paliativa.

 Cuidados Paliativos e Geriatria mantêm entre si uma evidente aproximação conceitual. A Geriatria, por excelência, aceita de uma forma mais natural a finitude do ser humano a partir da observação direta do paciente em seu processo de envelhecimento. O declínio funcional, a fragilidade e a falência orgânica decorrem de intenso e irreversível catabolismo característico da fase avançada das doenças crônico-degenerativas comuns em idosos e constituem indicações manifestas e elegíveis de Cuidados ao Fim da Vida.

 Tanto a abordagem geriátrica quanto a paliativa enfocam o cuidado na pessoa e não na doença, reconhecendo a inserção da família nesse processo. Centram-se no conhecimento da biografia e no respeito à autonomia da pessoa. O paciente geriátrico deve receber um acompanhamento processual desde o momento em que sua independência está preservada, seguindo-se durante as situações de dependência e vulnerabilidade, expandindo-se até a sua morte.

 O propósito da Geriatria coincide com aquele dos Cuidados Paliativos: maximizar a capacidade da pessoa, visando acima de tudo alívio e conforto.

 Em ambas as disciplinas, é fundamental a integração de profissionais de múltiplas competências técnicas, numa conjugação de saberes e ações que caracteriza a interdisciplinaridade, pautada em competência profissional, sensibilidade, humildade, disponibilidade interna, bom humor e capacidade de comunicação.

 A população idosa é um grupo altamente heterogêneo, razão pela qual é difícil definir protocolos de conduta. Um tema atual são as demências, cuja prevalência deve aumentar nas próximas décadas, graças ao crescimento proporcional da população idosa no planeta.

 Assim, as demências representam uma preocupação crescente não apenas na área da Saúde e são alvo de intervenções na Geriatria e nos Cuidados Paliativos que;

-Reconhecem que o objetivo do cuidado é a pessoa e não a doença

-Promovem a autonomia

-Intervêm desde a independência até a total dependência

-Buscam otimizar a capacidade funcional com ênfase no conforto

-Exigem abordagem multi-interdisciplinar

-Identificam e valorizam a heterogeneidade das pessoas

-Lidam com as comorbidades como situações próprias do fim da vida

-Aceitam a finitude do ser humano

 Apesar de a maioria dos óbitos acontecerem em idosos, há poucos esforços para atender às suas necessidades ao final da vida.

 São necessidades complexas, relacionadas a múltiplas doenças que ocorrem simultaneamente e que causam dependência. No último ano de vida, podem surgir sintomas como dor, incontinência, confusão mental e insônia.

 Além disso, em função da recente transição demográfica, o número de pessoas muito idosas vem crescendo, gerando uma demanda de intervenções paliativas para essa população vulnerável que os sistemas de saúde ainda não parecem preparados para atender.

 Uma pessoa com diagnóstico de demência pode viver por décadas e é mandatório que uma abordagem paliativa esteja inserida em seu cuidado desde o momento do diagnóstico. O cenário precisa mudar com urgência.

 Cuidados Paliativos não são um complemento do tratamento da pessoa idosa; são um fundamento da sua assistência.

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