Nas novelas, as disputas de herança parecem chiques, com advogados de terno discutindo em escritórios luxuosos. Na vida real, a história é muito mais dolorosa.
O que se vê nos tribunais são famílias se destruindo por causa de picuinhas antigas, disputas por um jogo de jantar ou discussões intermináveis sobre quem ficou com o carro velho. Mas a situação mais triste e comum é aquela que todo mundo conhece: o filho que passou anos sem dar um telefonema para os pais, que sumiu na hora de levar ao médico ou de trocar as fraldas, mas é o primeiro a aparecer com a pastinha de documentos na mão assim que o caixão desce ao túmulo, exigindo cada centavo da sua parte.
Essa conta não fecha, e o motivo está profundamente ligado ao comportamento e à mente humana. No fundo, o dinheiro da herança costuma ser visto como um substituto do amor e da atenção.
Aquele filho que abandonou os pais na velhice, muitas vezes, carrega uma culpa imensa ou uma mágoa oculta da infância.
Quando ele briga na Justiça por cada pedaço de terra ou imóvel, ele não quer apenas o valor financeiro; ele está tentando arrancar à força o reconhecimento que sente que não teve em vida. As pirraças e os insultos entre irmãos nas audiências são apenas o disfarce de feridas emocionais antigas que nunca cicatrizaram.
Só que a Justiça não é terapeuta. Enquanto os herdeiros usam o processo para lavar a roupa suja e punir uns aos outros, a ciência dos números cobra o seu preço, e ele é altíssimo.
Um processo de inventário brigado na Justiça é uma máquina de moer dinheiro. Enquanto os irmãos discutem quem cuidou mais ou quem foi o culpado, as custas do processo sobem, os impostos acumulam juros e os bens ficam travados.
Casas fecham e mofam, fazendas perdem a produção por falta de dono e empresas familiares perdem clientes e quebram. No final dessa guerra de egos, o patrimônio que os pais levaram uma vida inteira de suor para construir some no ralo dos gastos jurídicos.
Para resolver esse nó cego, o Direito precisa ir muito além de citar artigos de leis frias. É preciso uma atuação estratégica que combine inteligência e rigor técnico. Resolver o problema exige a frieza de analisar os dados e os números e, ao mesmo tempo, a sensibilidade humana para decifrar a mentalidade e o jogo emocional que os herdeiros estão jogando. Muitas vezes, mostrar o tamanho do prejuízo financeiro desenhado em um papel é o único balde de água fria capaz de fazer um herdeiro mimado ou magoado cair na real e aceitar um acordo.
A grande lição que fica é que herança boa é aquela que se organiza em vida.
Deixar tudo para a Justiça resolver depois que os pais partem é dar munição para as birras familiares destruírem o caixa e o futuro dos filhos. Planejar a sucessão com antecedência, compreendendo as reações humanas e usando as ferramentas certas do Direito, é a única forma de blindar os bens, proteger o dinheiro e garantir que a história de uma família termine com respeito, e não em uma mesa de tribunal cheia de mágoas e bolsos vazios.
“ O homem esquece mais rápido a morte do pai do que a perda do patrimônio” ( Niccolo di Bernardo dei Machiavelli, conhecido como Maquiavel, foi um filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento. * 3 de maio de 1469. + 21 de junho de 1527).
