Eventos recentes, como o encerramento abrupto de operações e demissões em massa em grandes players de delivery e tecnologia — a exemplo dos cortes severos na Keeta Brasil —, deixam uma lição clara: volume de investimento não é garantia de viabilidade.
Para o investidor e o operador de franquias, o cenário mudou. Não basta mais olhar para o brilho da marca; é preciso auditar as entranhas da operação.
1. A Armadilha do Crescimento a Qualquer Custo
O caso Keeta é um sintoma de uma febre que atinge o setor: a priorização da escala sobre a eficiência. Quando 200 funcionários são desligados em um movimento de retração súbita, o impacto não é apenas humano, mas sistêmico. No franchising, essa instabilidade desce pela pirâmide, atingindo o franqueado na ponta, que muitas vezes apostou o capital de uma vida em um modelo que se provou volátil.
2. Transparência: O Fim da "Cof de Prateleira"
A transparência não é mais uma cortesia, é uma questão de sobrevivência jurídica. Condutas que omitem a real saúde financeira da franqueadora ou que mascaram riscos operacionais ferem o pilar da Lei 13.966/19. O mercado exige agora uma Circular de Oferta de Franquia (COF) que seja um raio-X, e não uma peça de marketing.
O impacto da negligência é alto: a quebra de confiança gera um efeito dominó que destrói o valor da marca e judicializa a rede.
3. Governança e Compliance: O Novo Filtro
Empresas que operam no "fio da navalha" sem processos de compliance estruturados são bombas-relógio. O ambiente de negócios atual não tolera mais o amadorismo disfarçado de agilidade. A governança precisa ser rigorosa: da seleção do franqueado à gestão da cadeia de suprimentos. Se a franqueadora não sustenta seus próprios processos internos, ela dificilmente sustentará o sucesso de seus parceiros.
4. Vigilância é a Nova Regra do Jogo
Este não é um momento para passividade. O objetivo deste alerta é fomentar a análise criteriosa. O mercado precisa de agentes que questionem, que busquem auditorias independentes e que não se deixem seduzir por promessas de retorno rápido sem fundamentação logística e financeira.
Conclusão: A Solidez como Diferencial Competitivo
A integridade do franchising brasileiro — um dos setores mais resilientes da nossa economia — depende da nossa capacidade de separar o ruído do resultado. A prevenção, por meio de orientação jurídica especializada e revisão constante de processos, é o único antídoto contra crises de reputação e prejuízos operacionais.
No franchising, o lucro é consequência da estrutura. Sem estrutura, o que resta é apenas o risco.
