Opinião

A Arquitetura do Vazio: Entre Muros de Concreto e a Ilusão do Ter

Vivemos tempos de uma desconexão profunda com o sagrado que habita o cotidiano.

Advogado, bacharel em ciências e pós-graduando em psicanálise - por Ednilton Farias Meira
16/06/26 às 07h18

Vivemos tempos de uma desconexão profunda com o sagrado que habita o cotidiano. Aceleramos nossos passos ignorando que a vida, em sua essência, é puro fluxo e impermanência. Nas redes sociais, onde buscamos validar nossa existência por meio de algoritmos, transformamos o afeto em moeda de troca: o "curtir" tornou-se o substituto medíocre da compaixão. Esquecemos que o outro é um espelho de nós mesmos; ao nos distanciarmos, perdemos a chance de reconhecer a nossa própria humanidade. É o Maya**  do Vedanta* em pleno funcionamento: o véu da ilusão que nos faz acreditar que a felicidade reside nas aparências, enquanto a verdadeira vida, aquela que pulsa e respira, nos escapa pelas mãos enquanto buscamos o que é efêmero - aquilo que dura pouco e logo se transforma em cinzas.

Essa mesma lógica de ilusão molda nossas moradias. As varandas, que outrora serviam de ponte entre o privado e o público, desapareceram, dando lugar a muros cada vez mais altos. Perdemos o hábito de receber, de olhar pela janela, de contemplar o céu, as estrelas ou a ciclicidade da Lua. Enclausuramo-nos em fortalezas de concreto para esconder o que acontece em nossos interiores, alimentando a mentira de que, isolados, estamos protegidos do sofrimento.

E o que ocorre atrás desses muros? A tragédia silenciosa da comparação. Olhamos para fora e desejamos o que a publicidade nos vende, acreditando piamente que o consumo preencherá nossos abismos. É uma armadilha cruel: quanto mais acumulamos, mais vazio se torna o peito. Crianças crescem ouvindo o eco de gritos e a aspereza de conflitos que, durante parte do dia, são transferidos como um "fardo" para as escolas, como se o educar fosse uma função terceirizável, e não o encontro de almas. Todos fingem estar bem. Varremos nossas angústias para baixo do tapete, num exercício exaustivo de manutenção de aparências que nos consome a energia vital.

O resultado é a explosão da medicalização. Estamos tentando silenciar a alma com fármacos que, em sua essência, atacam apenas o efeito — a insônia, a agitação, o desânimo — mas nunca tocam a causa. Não estamos doentes de química; estamos doentes de uma falta de sentido que tentamos suprir com mercadorias. Esquecemos que a alma não se medica; ela se escuta.

Como advogado que observa diariamente os escombros desses lares e como alguém que mergulha agora nos mistérios da psicanálise, afirmo: a solução não está em uma pílula, mas na coragem de romper o véu do Maya** . Cito este conceito para explicar aquilo que todos sentimos, mas pouco nomeamos: a ilusão de que o que brilha lá fora — o consumo, a aparência, o ter — é o que nos preenche. Romper esse véu é parar de se enganar, aceitar que nada é permanente e, finalmente, derrubar os muros internos para vivermos o que realmente tem valor.

Curar a alma exige sair do esconderijo das ilusões. A vida acontece na intersecção com o outro, na escuta real, no olhar que não busca aplausos, mas que busca — genuinamente — compreender que o que realmente importa não tem preço, não se compra e, acima de tudo, não precisa de filtros para ser belo.


(*)Vedanta: Uma das mais profundas tradições filosóficas da Índia, que se dedica à investigação da natureza da consciência e à busca pela verdade última, transcendendo as aparências.


(**)Maya: Conceito central do Vedanta, frequentemente descrito como o "véu da ilusão". Não significa que o mundo seja irreal, mas que nossa percepção dele é distorcida; é o mecanismo que nos faz acreditar que a felicidade e a identidade estão na matéria e no efêmero, ocultando a unidade essencial que conecta todos os seres.

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