Opinião

Armadilhas no asfalto: a sanha arrecadatória das autoridades de trânsito transformou as rodovias paulistas em um campo minado contra o cidadão

O motorista paulista vive sob sobressalto, vigiando o painel mais do que a própria estrada, acuado por um aparato fiscalizatório que transformou o direito de ir e vir em uma atividade de alto risco financeiro.

H+Andradina - Por Ednilton Farias Meira -Advogado e Bacharel em Ciências 
29/07/26 às 16h07
Ilustrativa web

Dirigir pelas rodovias e vias urbanas do estado de São Paulo tem se convertido em uma verdadeira via-crúcis.

Sob o falso pretexto de garantir a segurança viária, as autoridades de trânsito paulistas vêm implantando uma engenharia de tráfego caótica, marcada por oscilações inexplicáveis de velocidade e por um apetite fiscal insaciável que parece enxergar no motorista não um cidadão, mas uma mera fonte de recursos para engordar cofres públicos.

O que se testemunha diariamente é um cenário alarmante: trechos que exigem vigilância exaustiva e que transformam o ato de conduzir um veículo em um exercício de estresse psicológico e expropriação financeira.

Transições bruscas e o perigo real de colisões. Um dos maiores absurdos dessa gestão de trânsito reside nas transições abruptas de velocidade. Não é raro o condutor deparar-se com quedas repentinas e drásticas nos limites máximos permitidos — como passagens intempestivas de 90 km/h para 60 km/h, ou reduções drásticas próximas a acessos, viadutos e saídas de pistas expressas.

Essas variações curtas de espaço simplesmente não oferecem tempo hábil ou sinalização antecipada adequada para uma desaceleração segura. O resultado inevitável é o pânico coletivo: tomado pelo medo de ser multado por placas muitas vezes ocultas por vegetação ou mal posicionadas, o motorista freia bruscamente bem em cima do radar. Essa dinâmica perigosa multiplica exponencialmente o risco de colisões traseiras e engarrafamentos repentinos, escancarando a hipocrisia de um sistema que pune em nome da segurança, mas provoca acidentes por falhas de projeto.

A falsa segurança e a consolidação da "indústria da multa". Oficialmente, o discurso oficial tenta legitimar tais armadilhas com estatísticas de sinistralidade e conflitos entre veículos e pedestres. Contudo, a realidade prática grita o oposto. Quando o projeto viário pune a inconstância em vez de promover uma circulação harmônica, fica evidente que o foco migrou da educação para a arrecadação.

O motorista paulista vive sob sobressalto, vigiando o painel mais do que a própria estrada, acuado por um aparato fiscalizatório que transformou o direito de ir e vir em uma atividade de alto risco financeiro.

A vigilância total. O avanço implacável da velocidade média. Para coroar esse cenário distópico ( opressão extrema, controle totalitário e sofrimento), a introdução gradual de tecnologias de fiscalização por velocidade média (ou ponto a ponto) adiciona uma camada inédita de complexidade e invasão. Utilizando câmeras com reconhecimento óptico de caracteres e inteligência artificial, esses sistemas monitoram o tempo exato de percurso entre um pórtico e outro.

Ednilton Farias Meira - Advogado e Bacharel em Ciências

Embora o argumento técnico tente mascarar a medida como o fim do comportamento de "acelera e freia", a sua aplicação em cenários de limites absurdamente inconstantes gera um impacto severo. O condutor deixa de ser vigiado apenas em pontos isolados e passa a suportar uma vigilância contínua e implacável. É a tecnologia a serviço de uma punição milimétrica, onde qualquer micro-oscilação na dinâmica da via pode resultar em uma autuação injusta.

Basta de abusos contra quem produz e transita. O cidadão paulista não tolera mais ser tratado como refém de uma engenharia de trânsito punitivista e arrecadatória. As autoridades precisam revisar urgentemente essa política de limites erráticos, garantir sinalização ostensiva e transparente, e abandonar a sanha fiscal que penaliza quem move a economia do estado.

Em sua célebre obra O Estado (1848), o filósofo e economista francês Frédéric Bastiat (1801–1850), sintetizou com clareza lapidar a tendência do poder público de expandir suas amarras e exaurir os recursos dos cidadãos sob falsos pretextos de proteção e bem comum:

"O Estado é a grande ficção através da qual todos se esforçam para viver à custa de todos os outros."

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