Opinião

FAROL | Prometer é fácil. Entregar é outra história

Existe uma diferença enorme entre anunciar uma obra, posar para uma foto, divulgar um projeto e, finalmente, entregar aquilo que foi prometido à população.

Flávia Avelar e Marcos Aurélio
08/09/26 às 12h27
Obra do Mercadão Municipal fará dois anos e sem previsão de inauguração

E talvez seja justamente essa diferença que Andradina precise começar a discutir com mais seriedade.

Há pouco mais de um ano, em junho de 2025, a Prefeitura anunciou com destaque a conquista de 260 moradias populares para Andradina: 60 casas pela CDHU e 200 apartamentos pelo Minha Casa Minha Vida, estes últimos apresentados como uma modalidade inédita no município. A notícia foi tratada como uma grande conquista da administração e como uma esperança concreta para centenas de famílias.

Passado mais de um ano, porém, a população ainda espera.

Em fevereiro deste ano, diante de questionamentos, a própria Prefeitura informou que os contratos dos empreendimentos estavam assinados e que as obras começariam em breve. As inscrições, segundo o município, seriam abertas assim que as obras começassem. 

Enquanto isso, cidades da nossa região avançam. Em agosto, a CDHU realizou sorteios públicos de 38 casas em Bilac e 185 em Guararapes, totalizando 223 moradias, com investimento estadual de R$ 47,4 milhões.

E Andradina?

Continua esperando pelas 60 casas anunciadas.

É claro que uma obra habitacional envolve etapas, licitações, projetos, contratos e recursos. Ninguém está dizendo que basta anunciar hoje para entregar amanhã. Mas também é legítimo perguntar: qual é o cronograma? Quando começam as obras? Quando serão abertas as inscrições? Quando as famílias poderão, de fato, disputar uma casa?

Porque, para quem não tem moradia, “em breve” não é uma data. É apenas mais uma espera.

E essa sensação de que Andradina vive entre anúncios e entregas incompletas não se limita à habitação.

O Masterplan apresentado pela administração municipal vendeu uma ideia de transformação urbana. A Paes Leme Mall Street seria um dos símbolos dessa nova Andradina. O projeto original previa uma transformação muito mais ampla da tradicional rua comercial, mas a primeira etapa executada ficou restrita a duas quadras. A própria Prefeitura, na época do anúncio, falava em uma sequência de etapas para avançar pelo corredor comercial.

O Mercadão Municipal é outro exemplo. Em outubro de 2024, a Prefeitura anunciou que a obra, orçada em mais de R$ 4 milhões, deveria ficar pronta no primeiro semestre de 2025.

O primeiro semestre de 2025 passou.

Depois veio o segundo.

Estamos em setembro de 2026.

E a pergunta continua sendo a mesma: quando o Mercadão será efetivamente entregue à população?

Horto continua fechado

No Horto Municipal, a história também merece um capítulo à parte.

Em 2022, foram anunciadas obras de mais de R$ 260 mil para implantação da base da Polícia Ambiental e, posteriormente, o projeto de revitalização do espaço ganhou novos investimentos. Em 2025, a Prefeitura anunciou cerca de R$ 2 milhões para a revitalização, incluindo iluminação, pistas ecológicas, playgrounds, recuperação das áreas internas e outras estruturas. A promessa era devolver aquele espaço à população. 

Mas o que o cidadão vê hoje?

Um espaço que continua sem cumprir o papel público anunciado.

E aqui está talvez o ponto mais incômodo do FAROL: não basta gastar. É preciso entregar resultado.

A própria Prefeitura anunciou, em 2021, uma ciclofaixa na Avenida Guanabara com investimento de R$ 555 mil, como parte de um projeto maior de mobilidade urbana. 

A ciclofaixa foi feita. E depois deixou de existir.

E fica a pergunta que ninguém parece querer fazer em voz alta: quanto custa para o poder público fazer, desfazer e refazer?

É dinheiro público. Não é dinheiro de prefeito, secretário, vereador ou partido.

É dinheiro do cidadão.

Também entram nessa conta as mudanças nos semáforos, recapeamentos e tantas outras intervenções que precisam ser avaliadas não apenas pela fotografia da inauguração, mas pelo custo-benefício e pela durabilidade daquilo que foi entregue.

A Prefeitura, inclusive, recentemente apresentou sua versão sobre os gastos com semáforos e afirmou que o valor total das compras foi de aproximadamente R$ 834 mil, e não R$ 2 milhões, como havia sido divulgado por críticos da administração.

Ou seja: quando existe dúvida sobre dinheiro público, que se abra a caixa-preta. Que se mostrem contratos, empenhos, medições, cronogramas e resultados.

É disso que se trata uma cidade administrada com transparência.

O FAROL não é contra obra.

Não é contra projeto.

Não é contra anúncio.

É contra a transformação da política pública em catálogo de promessas.

Porque fotografia em congresso não constrói casa.

Placa de obra não entrega Mercadão.

Projeto em 3D não revitaliza Horto.

E anúncio não transforma uma cidade.

O que transforma é obra concluída, serviço funcionando e benefício chegando à ponta.

Andradina não precisa de mais promessas bonitas. Precisa começar a cobrar prazos, metas e entregas.

E talvez seja hora de perguntar, para cada grande anúncio feito pela atual administração:

Quando começa?

Quanto custa?

Qual o prazo?

E, principalmente...

Quando a população poderá usar?

Porque prometer ilumina o palanque.

Entregar é que acende o FAROL.

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