Opinião

A ilusão da segurança de papel: Por que a palavra ainda é o nosso maior contrato?

É por isso que resgatar o valor da palavra não é um mero idealismo, mais uma urgência de sobrevivência civilizatória.

Andradina SP  - Por Ednilton Farias Meira - Advogado e Bacharel em Ciências 
21/07/26 às 18h24
Ilustrativa web
Ednilton Farias Meira - Advogado e Bacharel em Ciências

Sim, admito: à primeira vista, defender a força de um "aperto de mão" ou de uma palavra empenhada no mundo atual parece uma inocência quase ingênua. No tribunal, nas grandes negociações empresariais e na fria engrenagem dos negócios, o romantismo não ganha causa.

O que decide litígios é a cláusula minuciosa, o carimbo em cartório e o papel timbrado. No mundo real, a desconfiança é o padrão de segurança.

Mas vale a pena ir a fundo nessa reflexão. O que acontece quando decidimos que ninguém mais merece crédito sem cem páginas de garantias? O resultado está aí: construímos uma sociedade sufocada por uma burocracia defensiva, onde gastamos mais tempo nos protegendo dos outros do que construindo algo de real valor. O excesso de leis e contratos não elimina o risco; ele apenas institucionaliza a nossa desconfiança mútua.

Quem transita diariamente pelos conflitos humanos percebe uma verdade incômoda: nenhum código civil do mundo tem o poder de salvar uma relação que faliu em sua base moral. As leis tentam tapar os buracos deixados pela falta de caráter, mas falham. Quando transferimos toda a nossa responsabilidade ética para a letra fria do contrato, a própria justiça se mecaniza. O papel substitui a honra, e a convivência vira um jogo de xadrez onde cada um tenta prever o bote do parceiro.

É por isso que resgatar o valor da palavra não é um mero idealismo, mas uma urgência de sobrevivência civilizatória. Uma comunidade onde a palavra de um homem ou de uma mulher ainda tem peso é infinitamente mais barata, mais rápida e mais feliz do que uma sociedade de tribunais lotados. A promessa é o que nos diferencia dos bichos; é a ferramenta que nos permite projetar o futuro com segurança.

Evidentemente, o realismo nos cerca de todos os lados, exigindo cautela. No entanto, como bem ponderou Hannah Arendt, "a promessa é o que nos permite criar ilhas de certeza e segurança no oceano da imprevisibilidade humana". Precisamos do horizonte do ideal para não nos afogarmos no pântano do cinismo diário. Afinal, por mais que o papel proteja o negócio, é a coragem de honrar o que se diz que sustenta a dignidade de uma vida em sociedade.

(*) Hannah Arendt foi uma filósofa política alemã, notabilizou-se por refletir, entre outros temas, sobre a banalidade do mal. * 14/10/1906. + 04/12/1975.

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