Bastam alguns segundos, um vídeo editado ou um comentário fora de contexto para que o "Tribunal do Cancelamento" entre em sessão. Nas redes sociais, qualquer um vira juiz, e a sentença — que é a destruição da reputação de alguém — é executada em minutos.
Mas o que esse fenômeno esconde? Como advogado, olho para isso com profunda preocupação. Afinal, a civilização levou séculos para construir o devido processo legal, garantindo que todo homem tenha direito à defesa e ao contraditório antes de ser condenado. O linchamento virtual ignora tudo isso. Ele troca a balança da justiça pela pressa do algoritmo.
Por outro lado, ao cruzar o Direito com a análise do comportamento humano, percebemos que o cancelamento diz muito mais sobre quem aponta o dedo do que sobre quem é apontado. No fundo da nossa mente, jogamos no outro as frustrações que não aguentamos carregar em nós mesmos. Ao eleger um "vilão da semana" na internet, o sujeito alivia sua própria culpa e experimenta uma falsa sensação de superioridade moral. É o ego tentando se salvar através do linchamento alheio.
