Opinião

O tribunal do clique: quando a internet tenta substituir a justiça e adoece a mente

Vivemos tempos estranhos. Se no passado a justiça era assunto exclusivo dos palácios repletos de formalidades, hoje ela parece ter migrado para a tela de um celular.

Por Ednilton Farias Meira, advogado, bacharel em ciências e pós-graduando em psicanálise
08/06/26 às 07h29

Bastam alguns segundos, um vídeo editado ou um comentário fora de contexto para que o "Tribunal do Cancelamento" entre em sessão. Nas redes sociais, qualquer um vira juiz, e a sentença — que é a destruição da reputação de alguém — é executada em minutos.

 Mas o que esse fenômeno esconde? Como advogado, olho para isso com profunda preocupação. Afinal, a civilização levou séculos para construir o devido processo legal, garantindo que todo homem tenha direito à defesa e ao contraditório antes de ser condenado. O linchamento virtual ignora tudo isso. Ele troca a balança da justiça pela pressa do algoritmo.

Por outro lado, ao cruzar o Direito com a análise do comportamento humano, percebemos que o cancelamento diz muito mais sobre quem aponta o dedo do que sobre quem é apontado. No fundo da nossa mente, jogamos no outro as frustrações que não aguentamos carregar em nós mesmos. Ao eleger um "vilão da semana" na internet, o sujeito alivia sua própria culpa e experimenta uma falsa sensação de superioridade moral. É o ego tentando se salvar através do linchamento alheio.

Essa dinâmica gera o que os pensadores modernos chamam de esgotamento da alteridade — a nossa incapacidade crônica de aceitar e conviver com o erro e a diferença do próximo. O educador e cronista  Rubem Alves*  resumiu essa nossa urgência em julgar sem antes tentar compreender:  “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado um curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir” . Na internet, todos gritam suas sentenças, mas ninguém para para escutar as razões do outro.

Em cidades e comunidades onde as relações são próximas e a convivência é diária, o impacto desse comportamento é ainda mais devastador. O boato digital destrói famílias, comércios e, acima de tudo, a saúde emocional de quem é alvo da manada.

A verdadeira justiça não rima com pressa e muito menos com espetáculo. Enquanto o tribunal da internet busca o aplauso imediato e o sacrifício público, o Direito real exige reflexão, paciência e análise de provas.

Precisamos, urgentemente, desligar o modo de julgamento automático e resgatar a capacidade de olhar para dentro antes de digitar. Afinal, a internet pode até dar a ilusão de que somos deuses com o poder de condenar, mas a história e a nossa própria natureza mostram que, no fundo, somos apenas juízes imperfeitos implorando por absolvição.


* Rubem Alves foi um psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro. (*15/09/1933 +19/07/2014)

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Andradina SP
Franqueado:
FLAVIA REGINA DE AVELAR GOMES 25180990858
14.225.543/0001-11
Editor responsável:
Flavia Gomes Mtb 8.016/MG
Email: ointeriorfala@gmail.com
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.