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Ademar Gomes, o andradinense que conquistou São Paulo

O engraxate andradinense que conquistou São Paulo.

Revista FALA! 100 - Hugo Leonardo
16/03/20 às 19h31
Revista FALA! 100 - Cleber Carvalho

 A reportagem sobre o andradinense Ademar Gomes, que deixou a tranquilidade da cidade natal no inicio dos anos 60 para vencer na maior capital da América Latina, foram uma das épicas contadas nas páginas da Revista Fala!. Ademar posou na icônica Avenida Paulista com uma caixa de engraxate, a maneira que ganhou a vida nas ruas de Andradina na infância e abriu seu coração para a reportagem sobre o amor inesquecível que nutre por Andradina.

O advogado recebeu a equipe de reportagem da Revista Fala! em seu escritório na Avenida Brasil, perto do parque Ibirapuera. O prédio se destaca no cenário luxuoso da via. Tem colunas gregas e bananeiras lançando cachos em sua entrada. A recepção em nada lembra um escritório de advocacia. Há vida e arte em todos os cantos. chama a atenção um cheiro de boa comida no ar.

Ela vem do refeitório do escritório, que chega a servir 70 refeições diariamente e onde, comumente Ademar almoça ao lado de seus colaboradores e clientes. Se algum cliente chega perto da hora do almoço logo é convidado a se servir, uma acolhida sincera, típica do interior de São Paulo, e mais um toque pessoal do andradinense que por décadas reuniu os amigos que fez em uma festa de confraternização para falar das memórias e festejar a vida.

Entre as pessoas que o cercam no dia há uma imensa familiaridade ao se referirem ao Dr Ademar. Há sempre um tom paterno. A encantadora Olema de Fátima Gomes, também advogada, é a companheira perfeita e também abriu a intimidade do lar para essa entrevista. Eles são casados há mais de 50 anos e da união vieram três meninas Sandra Regina Gomes, Simone Gomes e Luciana Gomes.

O HOMEM E A FAMA

Um longo caminho divide a história do menino andradinense pobre, caboclo e caipira, como gosta de dizer, ao advogado de sucesso e dos casos polêmicos como o de Francisco de Assis Pereira, o “ Maníaco do Parque”, do ciclista David dos Santos de Sousa, que perdeu o braço direito ao ser atropelado na Avenida Paulista, de Eloá Cristina, morta pelo namorado em 2008. O escritório “Ademar Gomes Advogados Associados” foi estabelecido em 1974 em São Paulo, e em todo esse tempo ele garante que nunca esteve atrás de casos midiáticos, mas eles “correram” para ele.

Mesmo que os casos criminais sejam os seus prediletos, segundo entrevista ao Grupo Folha, “empresas dizem pagar altos valores pela consultoria do escritório, que também atua em áreas como trabalhistas e de fusões”.

Seu escritório hoje tem 13 mil causas ativas sendo que mil são gratuitas, de gente que o procura sem ter como pagar ou comprometera economia familiar para contratar seus serviços. Além disso, 100% dos rendimentos do escritório vão para caridade. Com atuação em mais de 30 mil casos, Ademar Gomes diz ter aprendido que quanto mais faz pelas pessoas, mais casos aparecem a sua porta.

Ele já perdeu a conta de quantos cursos de direito já pagou a pessoas que encontrou ao acaso da vida. Atualmente ele custeia cerca de 14 mensalidades de faculdade, a grande maioria em direito e apenas uma de medicina, para um caso que o comoveu.

MEMÓRIAS

Aos cinco anos, morador do bairro Pereira Jordão, ele percorria os pastos nos arredores da cidade a procura de ossos bovinos que vendia por quilo por alguns trocados. Também vivia no matadouro municipal onde podia eventualmente ajudar os funcionários na limpeza ou qualquer outro serviço que era pago com vísceras de gado, que levava para casa. “Era uma das bases alimentares da família e até hoje cultivo o gosto por uma boa buchada”, lembra.

O pai era barbeiro, estabelecido na Avenida Barão do Rio Branco, próximo à estação ferroviária. Na caixa de engraxate, ele se garantia de segunda a segunda. Ele “vivia na rua” na luta pelo dinheiro parco antes que tivesse a oportunidade de mudar a sua história, com amor vindo de todos os cantos, conforme narrado em sua carta para o amigo Constante Piatto, que veremos a seguir.

“O que passei não desejo que nenhuma criança passe. Cheguei a não acreditar que um Deus existia, mas descobri que, primeiro ele me mostrou o ‘mundo cão’ para depois me abençoar com uma vida maravilhosa e o poder de ajudar outras pessoas. Hoje digo que Deus existe e ele me ama”, cita.

Sair de Andradina não representava o fim das dificuldades. Ele era contínuo em uma agencia bancaria e foi transferido para São Paulo quando tinha 17 anos, mas o emprego não deu certo. Ele morava na região conhecida como “Cachoeirinha”, extremamente pobre e distante de tudo, o que obrigava o casal a longas caminhadas.

“Um dia minha filha mais velha estava doente e fui pedir um emprego a um vizinho que era padeiro. Ele me adiantou o do remédio e me indicou a um amigo que me levou para trabalhar nas docas de Santos como apontador. Era um emprego noturno que pagava no final do expediente, assim ninguém em casa passou fome por seis meses”, lembra.

Formado em contabilidade, foi trabalhar em uma empresa que tinha filial em São Bernardo para onde foi transferido. Na mesma época passou no vestibular para o curso de Direito na Universidade Católica.

“Era tudo caro e difícil. Consegui frequentar por seis meses e tive que trancar”, lembra.

Passar em uma faculdade neste período era um ato heroico. Em São Paulo o curso existia apenas na Makenzie, PUC, e na São Francisco. Quando haviam vestibulares, chegavam a ter 10 mil candidatos disputando 100 vagas. Mais tarde ele conseguiu passar no curso em Bragança Paulista, que teve condições de frequentar por ter conseguido uma bolsa. Para estudar, todos os dias fazia um trajeto de centenas de km entre a casa e a faculdade.

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