De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), dez milhões de brasileiros possuem algum grau de deficiência auditiva e encontram dificuldades para se comunicar com os ouvintes e falantes da língua portuguesa.
Nesse contexto, a Libras (Língua Brasileira de Sinais) permanece quase que restrita à comunidade surda, que corresponde a 5% da população brasileira.
“Eu cresci vendo meus amigos surdos enfrentarem dificuldades grandes em situações cotidianas simplesmente porque não conseguiam se comunicar”, conta o professor e intérprete de Libras, Manolo Torres, de Botucatu (SP), que junto com o bilaquense Márcio Ballera, formam a startup DuoLibras.
O projeto teve início há dois anos, em Curitiba (PR), e ganhou repercussão nacional agora, com a participação de Manolo e Márcio na 5ª temporada do reality show Shark Tank Brasil, exibido pelo Sony Channel e disponibilizado no canal do programa no Youtube desde a última segunda-feira (21). Inclusive, é o primeiro episódio da história do reality com a tradução para Libras.
Para quem não conhece, o reality show coloca empreendedores e suas ideias de negócio frente a frente com grandes empresários e investidores, que avaliam e selecionam propostas com maior potencial.
Segundo Márcio, A startup teve uma ótima aceitação e conquistou quatro dos cinco investidores presentes no episódio. “Desde o início a gente sabia que o propósito maior da participação do programa seria essa conexão com grandes players do mercado para impulsionar a inclusão das pessoas surdas e estamos muito satisfeitos em saber que eles compraram essa ideia”, comenta Márcio.
Episódio com a participação de Márcio (camiseta preta) e Manolo já está disponível no Youtube (Foto: Sony Channel/Divulgação)
Mentoria
“Shark Tank Brasil é o maior programa de empreendedorismo do mundo. Tem em vários países. O objetivo é apresentar a ideia de negócio para que aqueles cinco ‘sharkes’, empresários, possam comprar ideia, agregando de alguma forma. A nossa proposta para eles foi diferente”, explica Márcio.
O empreendedor de Bilac explica que pela primeira vez, o Shark Tank Brasil recebeu uma oferta comercial que não envolvia recursos financeiros, mas sim mentoria. Em troca, os “tubarões” teriam 2% da empresa.
João Appolinário, Camila Farani, Carol Paiffer e José Carlos Semenzato ingressaram na causa e propuseram 10% de participação cada. Já Caito Maia afirmou ter interesse em se envolver como cliente, comprando o curso para qualificar seus colaboradores na língua de sinais.
(Confira o vídeo no final do texto)
Diferencial
Desde 2018, o curso DuoLibras atua na
plataforma digital
com a proposta de disseminar o ensino da Língua Brasileira de Sinais e reduzir a exclusão social da população surda. O curso é 100% on-line e, mesmo sendo pago, também oferece alguns conteúdos gratuitos e abertos ao público.
A dinâmica do curso é um diferencial, explica Márcio. A plataforma funciona como um seriado, com personagens que exercem função pedagógica e são interpretados por Manolo, que é ator e foi quem desenvolveu a metodologia. No total, são 120 episódios em vídeos que apresentam situações reais do dia a dia. O curso completo tem a duração de seis meses.
Inclusão
“O objetivo principal é promover a inclusão social do surdo por meio da comunicação. O surdo vive em comunidade isolada, porque não se comunica em português e quem fala em português, não se comunica com eles. Por isso que se fala comunidade surda. Nosso objetivo é isso, promover, ensinar a língua de sinais aos ouvintes para que eles conversem com os surdos afim de criar essa inclusão”, diz Márcio.
Em dois anos de atividades, 2.400 pessoas já fizeram o curso on-line, mas a meta dos empreendedores é construir uma rede de 100 mil alunos fluentes que saibam se comunicar em Libras. Para isso, Márcio comenta que a ideia é que a startup consiga licenciar os produtos para redes, criar a primeira franquia com foco em ensino de Libras e outros produtos ligados a esse universo.
Trajetória
Márcio se formou em comunicação social com ênfase em publicidade e propaganda. Na época, morava em Bilac e estudava em Araçatuba. Ele conta que iniciou sua experiência no empreendedorismo desde cedo. Na adolescência, fazia artes gráficas usando o computador pessoal e atendia o comércio local. Aos 15 anos, começou a desenvolver sites e aos 19 anos, montou seu primeiro CNPJ, que era o jornal O Comunicativo, que existe até hoje.
Depois de uma temporada no exterior, Mário retornou ao Brasil e iniciou um trabalho com escolas de cursos profissionalizantes de informática. Ficou 14 anos nesse ramo educacional, montando escolas e passando por cinco cidades.
Márcio se mudou para Curitiba em 2018, após conhecer sua esposa, e criou a startup junto com Manolo.