Cotidiano

Fechada e sem a presença de fiéis, capela mais antiga de Araçatuba completa 105 anos

Pela primeira vez, Capela Santo Onofre não recebe a tradicional missa que celebra o seu aniversário nesta sexta-feira (12)

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
12/06/20 às 16h15
Capela, que recentemente recebeu pintura nova, é patrimônio tombado do município (Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)

Todas as manhãs, a comerciante Mafalda Emília Canin Rei, de 78 anos, tem um ritual sagrado. Antes de abrir seu bazar, ela, acompanhada de seu sobrinho, vai até a Capela Santo Onofre, em Araçatuba (SP), colocar flores no altar e rezar para a divindade e outros santos.

De acordo com Mafalda, sua devoção pelo santo Onofre começou há 40 anos, quando precisou passar por uma cirurgia na perna e, por conta de uma infecção, ficou entre a vida e a morte. “Na época, uma senhora bateu nas minhas costas e disse: 'Se apega com ele. Todo mundo fala que o santo é de bebida, mas ele é de ferida'”, lembra.

Desde então, além de levar flores ao santo, Mafalda também cuida da capela, localizada na avenida Mário Covas. Além da parte administrativa, ela zela pelo jardim e preserva os objetos guardados no templo.

Nesta sexta-feira (12), a Capela Santo Onofre completa 105 anos, mas devido à pandemia, a tradicional missa que celebra a data foi adiada pela primeira vez. É durante essa celebração que também são arrecadados recursos para a manutenção da capela.

Outra mudança de rotina foi a interrupção das atividades do grupo de senhoras que reza o terço na capela uma vez por semana, destaca a senhora.

Altar da capela, com a presença de outras divindades (Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)

Patrimônio

Santo Onofre é uma divindade conhecida na Igreja Católica e patrono da fortuna. É também lembrado como o santo que intercede pela cura do alcoolismo e foi o primeiro padroeiro de Araçatuba.

No entanto, por conta da fama que ganhou como “santo dos alcóolatras”, ele deixou de ser o patrono oficial e foi substituído por Nossa Senhora Aparecida.

A capela, que é pertencente à paróquia Santuário São João Batista e São Judas Tadeu, também tem seu peso histórico, pois é reconhecida como a mais antiga da cidade, segundo a diretora de patrimônio histórico e cultural de Araçatuba, Iria Anhê.

A edificação ainda é o primeiro patrimônio histórico tombado no município, por meio de lei municipal de 1997.


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Antigamente, capela estava localizada numa praça (Foto: Reprodução/Facebook)

Por conta da sua relevância histórica, a capela já foi alvo de pesquisa acadêmica entre os anos 2017 e 2018, assinada pela advogada e historiadora Carolina Cerqueira Cruz, de Araçatuba.

O trabalho de monografia “Capela Santo Onofre em Araçatuba: Patrimônio Histórico e um Direito Fundamental Esquecido” chegou a ser apresentado no III Congresso Internacional de Direitos Humanos de Coimbra, em Portugal.

Largo

Orientada pela professora universitária, historiadora e doutora em ciências políticas Ângela Liberati, Carolina teve acesso a processos relacionados à capela e descobriu que houve uma ação de usucapião ajuizada em 1982, na 1ª Vara Cível da Comarca de Araçatuba. O feito autoriza a ocupação de particulares no Largo Santo Onofre, um tipo de praça que abrigava a capela na época e que hoje está ocupada por terceiros.

A historiadora e advogada também explica que teve acesso a outras ações de usucapião, com datas anteriores ao tombamento, e que a Prefeitura já entrou com ação de desapropriação, em 1996.

A reportagem questionou o Executivo sobre a conclusão do processo, mas por conta do setor jurídico não estar funcionando, ainda não houve respostas.

Para Ângela, que tem um vasto material sobre a capela, a preservação do espaço público é de fundamental importância na construção da cidadania e o ideal seria recompor a área que abrangia o templo.  

“O direito à memória, ao patrimônio, é um direito fundamental de terceira geração. Equivale ao direito ao trabalho, ambientalismo... Quando você lida com direito fundamental não pode priorizar um ou outro”, diz Ângela.

Linha do tempo

A Capela Santo Onofre desperta curiosidades daqueles que nunca tiveram a oportunidade de entrar e conhecer seu interior ( Confira o vídeo no final da reportagem ). O espaço é pequeno e está preservado, com pintura nova e mobília em bom estado. Em uma das paredes, quadros contam a história do local por meio de textos e fotos

Parte interna da capela ajuda a contar a história do templo mais antigo do município (Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)

Entre as informações que estão disponíveis ao público, há uma linha do tempo com fatos marcantes.

Segundo o texto, em 1914 foi construída a primeira capela em homenagem ao santo. Era de tábua e foi inaugurada em 25 de março do ano seguinte. Nesse mesmo ano, a capela foi destruída por um incêndio, mas o casal João e Sebastiana conseguiu autorização para reconstruir o templo em sua propriedade.

Em 1921, ela foi novamente mudada de local devido à continuidade dos trilhos da estrada de ferro. Foi um período de auge, que não durou muito. Segundo o que é informando no quadro, com o loteamento da propriedade da família Coelho, a capela ficou escondida e quem passava pela rua Tibiriçá, não a via.

Sua restauração foi em 1991, depois de muitos anos de esquecimento. Com a avenida (Mário Covas) recém-inaugurada, o santuário passou a ser acessado por apenas essa via. Não havia água e nem energia elétrica, sendo o terreno restrito a poucos metros quadros, diferentemente do passado, tempo em que a capela estava construída em um largo.


Missas e celebrações seguem suspensas na Diocese de Araçatuba

A Capela Santo Onofre não é a única a ter as atividades religiosas interrompidas. A Diocese de Araçatuba segue o decreto episcopal de 19 de março, que determinou que as missas e demais celebrações fossem suspensas ou fechadas ao público para seguir os protocolos das autoridades civis e sanitárias contra a covid-19.

Datas solenes, como a Sexta-Feira da Paixão, Páscoa, Pentecostes e mais recentemente Corpus Christi, tiverem participação popular suspensa.

Porém, a maioria das 33 paróquias das 19 cidades da Diocese de Araçatuba está transmitindo suas celebrações e orações pelas redes sociais e plataformas digitais.

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