Cotidiano

Municípios realizam ações para valorizar a vida e combater o suicídio

Segundo a OMS, nove em cada dez casos poderiam ser prevenidos, daí a importância de se falar sobre o tema

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
07/09/19 às 10h00
A cor amarela foi escolhida para o tema porque é a cor da vida, da luz, do sol (Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)

Por dia, 32 brasileiros cometem suicídio, segundo dados do CVV (Centro de Valorização da Vida). Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) apontam uma morte a cada 40 segundos no mundo. Aproximadamente 1 milhão de pessoas se matam a cada ano, sendo essa a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos de idade.

Sabe-se que os números são muito maiores, pois a subnotificação é reconhecida. Além disso, os especialistas estimam que o total de tentativas supere o de suicídios em pelo menos dez vezes. 

A esperança é o fato de que, segundo a própria OMS, nove em cada dez casos poderiam ser prevenidos. E a primeira medida a ser tomada é a educação.

“É preciso perder o medo de se falar sobre o assunto. O caminho é quebrar tabus e compartilhar informações. Esclarecer, conscientizar, estimular o diálogo e abrir espaço para campanhas contribuem para tirar o assunto da invisibilidade e, assim, mudar essa realidade”, afirma o CVV.

Para isso, foi criada em 2015, a campanha Setembro Amarelo, um mês dedicado ao combate e prevenção ao suicídio, que tem adesão de municípios da região.

Araçatuba

Em Araçatuba, a situação das notificações não é diferente do cenário nacional e mundial: mulheres tentam mais contra a vida, mas homens morrem mais por suicídio. A faixa etária mais atingida é jovem, de 15 a 29 anos.

Por isso, as ações do Setembro Amarelo ocorrem desde 2017, com intenção de chamar atenção para o tema.

Neste ano, os quatro serviços especializados em saúde mental do município - Ceaps (Centro Especializado em Atenção Psicossocial), Caps 3 (Centro de Atenção Psicossocial), Caps AD (Álcool e Drogas), Caps i (Infantil) - se uniram para uma programação conjunta, que teve início na segunda-feira (2), com abertura oficial na Câmara dos Vereadores.

Também foram convidados coordenadores de cursos de psicologia e os Nasfs (Núcleos de Apoio à Saúde da Família), que realizam apoio matricial da atenção básica, para a construção de ações. Estão programadas oficinas terapêuticas, palestras, rodas de conversa, caminhada, curso de enfermagem, karaokê, gincana, distribuição de abraços, entre outras atividades.

“O mês é o momento para expandir o assunto e levar a discussão para toda a sociedade, mas toda a rede de saúde do município se articula diariamente e durante o ano todo para cuidar das pessoas que têm este tipo de pensamento”, explica o psicólogo e coordenador do Ceaps de Araçatuba, Matheus Martins Garcia.

Região

Em Guararapes, não há uma agenda específica. No entanto, neste sábado (7 de setembro), durante desfile cívico na praça Nossa Senhora da Conceição, o Caps irá expor trabalhos manuais produzidos pelos pacientes e realizar a entrega de panfletos da campanha Setembro Amarelo.

Em Birigui, com apoio de parceiros e voluntários, a Secretaria Municipal de Saúde irá promover o Dia D – Valorização da Vida. A ação será no dia 21 de setembro (sábado), das 9h às 14h, na praça Dr. Gama. O evento será aberto ao público de todas as idades. 

Em Penápolis, várias ações vão alertar para a prevenção ao suicídio. O CVV realizará nas escolas rodas de conversa com professores e gestores escolares durante as ATPC’s (aulas de trabalho pedagógico coletivo). 

Em parceria com o Rotaract XV de Março, a equipe de colaboradores do CVV também participará de uma atividade de prevenção no próximo sábado (14), às 9h, no pátio do Santuário São Francisco de Assis. Neste dia haverá distribuição de panfletos, fixação de cartazes nos estabelecimentos comerciais, distribuição de lacinhos amarelos aos pedestres e orientação.

A entidade ainda realizará uma palestra para alunos da Faculdade de Medicina da Funepe (Fundação Educacional de Penápolis) no dia 19, às 19h, no NAC (Núcleo Acadêmico Cultural), antigo Teatro Lúmine.

O Caps 2 e o Caps ad do Consórcio Intermunicipal de Saúde também promoverão nos dias 11, 12 e 13 várias rodas de conversa, no auditório do Céu das Artes. Nesses dias, as atividades serão direcionadas aos profissionais que atuam na atenção básica da rede de saúde.

Roda de conversa

Já no dia 20, às 8h, no Céu das Artes, acontecerá uma roda de conversa direcionada às famílias atendidas pelo Cras (Centro de Referência da Assistência Social) da Vila Planalto. Ainda no dia 20, no mesmo local, das 13h às 17h, serão envolvidos na discussão do tema os adolescentes que participam de projetos das unidades de Cras, Creas (Centro de Referência Especializada da Assistência Social) e SOS (Serviço de Obras Sociais).

A direção da Macro de Saúde IV organizou para a próxima sexta-feira (13), uma palestra sobre o tema suicídio aberta a usuários e funcionários. A ação ocorrerá no próprio saguão, das 13h às 14h.

E no dia 20, às 19h30, a Secretaria Municipal de Educação, em parceria com a produtora Under Filmes Independentes, exibirá o curta-metragem “Beira Infarto”, que aborda os danos do preconceito social à vida das pessoas sofrem em silêncio. Entrada gratuita. Após a exibição, haverá um debate com a participação de psicólogos do Geas (Grupo de Estudos e Amparo ao Sofrimento), membros do CVV e Naviplis (Núcleo de Apoio à Vida de Penápolis).

Reconhecer os sinais de alerta é um importante passo

"O suicídio é um ato de comunicação. Quem se mata, na realidade tenta se livrar da dor, do sofrimento, que de tão imenso, parece insuportável" (CVV)

É fato que o suicídio é um fenômeno complexo, de múltiplas determinações, mas saber reconhecer os sinais de alerta pode ser o primeiro e mais importante passo.

Os primeiros sinais de pessoas com ideações de morte, segundo o psicólogo clínico Júlio César Santos Ribeiro, de Penápolis, são de ordem comportamental, afetiva ou cognitiva.

Isolamento, mudanças marcantes de hábitos, perda de interesse por atividades de que gostava, descuido com aparência, piora do desempenho na escola ou no trabalho, alterações no sono e no apetite, frases como “preferia estar morto” ou “quero desaparecer” podem indicar necessidade de ajuda.

“É como uma febre. Você detecta que a pessoa está com febre e já investiga se há alguma doença por trás”, comparou. A febre, no caso, seria o comportamento. “Uma criança que sempre gostou de brincar com os coleguinhas num parquinho ou na rua, que no final de semana não via a hora de ir para a casa da avó, começa a se recusar a fazer tais atividades, por exemplo”, cita.

Mudanças de humor, como irritabilidade, falta de interação com a família e amigos e isolamento, ou mudanças cognitivas, na maneira de pensar, também são alguns indícios.

“São detalhes que podem passar despercebidos, mas que acabam formando um quebra-cabeça quando juntamos as peças”, afirma o psicólogo.

As crianças, segundo Ribeiro, tendem a ficar mais reclusas porque não sabem o que está acontecendo com ela. Já os adolescentes sentem vergonha e acabam se fechando; enquanto os adultos têm maior consciência e na maioria das vezes sabem que precisam procurar ajuda.

Inverso

Há ainda pessoas que apresentam a lógica inversa e, “do nada”, ficam mais amorosos, saem mais, gastam tudo o que tem, como se fosse uma despedida.

“Esse tipo de comportamento mostra alguém que já está se desfazendo da própria vivência”. A pessoa pensa numa data para o suicídio e nos dias que a antecedem busca aproveitar a vida e faz tudo o que sempre teve vontade.

“E pode ser que nenhum desses comportamentos sejam indícios de suicidas, podem ser apenas mudança de vida. Por isso é importante ter o apoio de profissional”, destacou Ribeiro.

Social

Ribeiro afirma ainda que o suicídio é um problema social, pois ninguém escolhe viver no sofrimento, na angústia, simplesmente porque quer viver da pior forma possível. “Fatores externos contribuem para tal. Esses fatores precisam ser entendidos, analisados e, na medida do possível, modificados para que o sujeito em sofrimento consiga ter um deslumbre e perspectiva de um futuro melhor.”

Para psicólogo, suicídio é um problema social, pois ninguém escolhe viver no sofrimento (Foto: Pixabay/Divulgação)

Municípios oferecem atendimento psicossocial

O suicídio ocorre em uma combinação de fatores interconectados e complexos (individuais, ambientais, biológicos, psicológicos, sociais, culturais, históricos, políticos e espirituais) e o suicida não necessariamente terá diagnóstico de algum transtorno mental, segundo psicólogo e coordenador do Ceaps de Araçatuba, Matheus Martins Garcia.

“Nem toda pessoa com transtorno mental pensa no suicídio e nem toda pessoa que pensa em suicídio sofre com algum transtorno mental. Mas de qualquer forma há sofrimento psíquico, então estamos lá para cuidar dessas pessoas”, afirma o psicólogo.

De acordo com o coordenador do Ceaps de Araçatuba, nos serviços de referência para prevenção (Ceaps, Caps 3, Caps ad, Caps i) há equipes multiprofissionais que saberão lidar com essa pessoa em sofrimento, seja com atendimentos médicos ou grupos terapêuticos e demais atendimentos.

No entanto, Garcia ressalta que todos os pontos de saúde são formas de se chegar até quem precisa de ajuda. “O maior braço da saúde está na atenção básica, que visita as pessoas de casa em casa, e a demanda pode ser levantada nestas visitas”, diz.

A pessoa que precisa de ajuda também pode ir direto ao serviço especializado por indicação de um conhecido, por livre espontânea vontade ou após passagem pelo pronto-socorro municipal.

CVV

Outro ponto importante é o canal do CVV , que pode ser acionado gratuitamente por meio do 188. Em caso de tentativa de suicídio, o pedido de ajuda deve ser feito ao Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), pelo número 192.

Serviços em Araçatuba

Caps 3 - rua 1º de Maio, 607 - Vila Estádio (Atendimento 24 horas)

Caps AD – rua Bastos Cordeiro, 1.051 – bairro Santana (Atendimento das 7h às 17h30)

Caps i - rua Sílvio Russo, 263 – bairro Água Branca (Atendimento das 7h às 18h)

Ceaps – rua Dona Ida, 1.636 – bairro Aviação (Atendimento das 7h às 18h)

Serviço em Guararapes

Caps - avenida Tiradentes, 238 – Jardim Industrial (Atendimento de segunda a sexta, das 7h às 17h)

Em um ano, grupo faz mais de 120 acolhimentos

Palestras em escolas e capacitação de profissionais da saúde estão na linha de trabalho do grupo (Foto: Geas/Divulgação)

Criado em 27 de agosto de 2018, o Geas (Grupo de Estudos e Amparo ao Sofrimento), de Penápolis, realizou em um ano entre 120 e 130 acolhimentos, por meio de atendimento clínico individualizado.

O grupo é formado atualmente por nove psicólogos (no início eram quatro) que se reúnem para trocar experiências, estudar a temática, o comportamento suicida e ao mesmo tempo, propor ações interventivas, do acolhimento ao direcionamento a instituições de saúde pública, como o Caps (Centro de Atenção Psicossocial) e a saúde mental.

O psicólogo clínico Júlio César Santos Ribeiro, um dos idealizadores do grupo, explica que a iniciativa surgiu de uma necessidade. Na época da criação do Geas, Penápolis, que tem população estimada de 63 mil habitantes, registrou 13 casos de suicídio, bem acima da média nacional de seis casos para cada grupo de 100 mil habitantes.

No município, a maior dificuldade é o atendimento de crianças e adolescentes, pois não há o Caps i no município. Por isso, esse público é o principal foco do grupo.

Outra linha de trabalho é a prevenção, com palestras em escolas e capacitação de profissionais da saúde, como enfermeiros e agentes comunitários, para que eles saibam como conduzir a situação quando se depararem com uma ação suicida, por exemplo.

Mais informações pela página do grupo no Facebook .

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