Uma das mais reiteradas perguntas do momento, ou seja, “tem repetida? ” apresenta algo de filosoficamente perturbador e ao mesmo tempo profundamente belo, na recorrente cena banal de pessoas reunidas em torno do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2026. Em tempos de mensagens instantâneas, áudios acelerados em “2x”, reações automatizadas e presenças fantasmagóricas mediadas por telas, sempre elas, a singela consulta sobre os cromos repetidos reaparece como uma espécie de rito antropológico tardio de um – necessário - chamado para que corpos se reencontrem no mesmo espaço, onde outrora pulsavam os encontros humanos.
O mundo digital produziu uma estranha contradição civilizatória. Nunca estivemos tão “conectados”, e talvez nunca tenhamos estado tão distantes. As mensagens atravessam continentes em segundos, mas os corpos permanecem isolados em apartamentos silenciosos, em ônibus preenchidos por rostos inclinados sobre celulares, em mesas de jantar onde ninguém se olha, dentre outras situações sociais. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve essa condição como a sociedade do cansaço, já que o mundo contemporâneo, em excesso de comunicação, destrói precisamente aquilo que torna o encontro humano verdadeiro, ou seja, a alteridade, o silêncio e a eferverscência do contato real. Trocar figurinhas, curiosamente, reinstala esse fenômeno, pois não se troca apenas papel colorido, mas presenças. Igualmente, trocam-se olhares rápidos, pequenos constrangimentos, gargalhadas involuntárias, comentários sobre jogadores, flertes, memórias de Copas passadas. Na era das indefectíveis e onipresentes mensagens, o álbum torna-se pretexto para uma contingência quase revolucionária no século XXI: estar junto sem produtividade, sem algoritmo, sem performance digital cuidadosamente editada, como se a vida fosse o mundo das fadas.
Talvez Maurice Merleau-Ponty (1908-1963), filósofo francês, concebesse nessa ode temporária da troca de figurinhas uma reabilitação do corpo como condição fundamental da experiência humana. Segundo o pensador, não somos consciências abstratas navegando no vazio, mas corpos lançados ao mundo. O toque, a presença física, o gesto e o olhar constituem a própria tessitura da existência. Uma conversa presencial carrega densidades impossíveis de serem traduzidas em emojis e outros produtos da mundinho tecnológico. O corpo fala antes da linguagem verbal, posto que o encontro presencial possui uma fenomenologia afetiva, ímpar e irreproduzível.
O encontro provocado pelas figurinhas é inútil no melhor sentido da palavra. Não serve diretamente ao lucro individual, à produtividade ou à lógica do desempenho. Há também algo profundamente infantil e, portanto, legitimamente humano, nesse ritual. A peça colecionável repetida, que economicamente “não vale nada”, adquire valor social porque permite a troca. O excesso desse elemento torna-se possibilidade de vínculo. A repetição cria comunidade. Isso é extraordinário numa época marcada pela lógica neoliberal da individualização extrema. Ao mesmo tempo, existe certa melancolia inevitável. O próprio usuário do álbum sabe que aquilo acabará em poucos meses. A Copa terminará e, assim, os grupos improvisados desaparecerão. As bancas deixarão de vender envelopes. As pessoas voltarão aos seus silêncios digitais habituais e, por conseguinte, o encontro será dissolvido novamente na velocidade das infinitas notificações diárias. Esse caráter efêmero da troca do que sobra e do que falta possivelmente torne tudo ainda mais significativo.
Nessa seara, Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo, filósofo, professor universitário e teórico social polonês, aponta como a modernidade líquida dificilmente de sustenta vínculos duradouros. Relações tornam-se temporárias, descartáveis, leves demais para criar raízes e intersubjetividades. A troca de figurinhas parece assumir conscientemente essa fragilidade: ninguém acredita que ela reconstruirá permanentemente a vida comunitária. No entanto, ainda que temporariamente, as figurinhas da Copa instauram uma pedagogia espontânea da convivência. Crianças aprendem negociação; adultos redescobrem a conversa casual; desconhecidos tornam-se parceiros momentâneos numa microeconomia afetiva dos momentos nos quais há troca de turnos enunciativos, tais como “tenho essa”, “mas falta aquela”, “você tem essa?”, “ qual falta para você completar ”?. Há ali uma ética subterrânea da reciprocidade de que um precisa do outro e, por conseguinte, da alteridade constitutiva.
Triste é pensar que precisamos de um megaevento global, hipermercantilizado e patrocinado por corporações bilionárias para que as pessoas se lembrem de sair de casa e conversar presencialmente. O capitalismo que ajudou a produzir o isolamento vende também, temporariamente, a sensação de comunidade. O álbum torna-se simultaneamente produto de mercado e dispositivo involuntário de reconstrução do laço social. Essa circunstância importa muito porque o mundo digital criou uma civilização paradoxalmente farta de comunicação e faminta de presença. Importa porque os corpos continuam necessitando uns dos outros. Importa porque nenhum aplicativo consegue substituir completamente o acontecimento imprevisível do encontro humano.
As figurinhas repetidas talvez sejam, no fundo, uma metáfora involuntária da própria condição humana contemporânea. Todos carregamos excessos, vazios, repetições, faltas e sobras. E seguimos procurando, mesmo que por meio digitais, alguém com quem possamos trocar aquilo que nos sobra pelo que nos falta. Às vezes, sobra-nos carinho, ternura, ideias, desejos e abraços. Mas faltam as vivências intercorpóreas para entregarmos esse ativo tipicamente humano, no que diz respeito aos afetos compartilhados e à coexistência relacional. Ainda que, infelizmente, durem apenas alguns meses, as trocas das figurinhas repetidas podem ser uma ode passageira àquilo que as telas e os algoritmos ainda não conseguem substituir: os (nostálgicos) encontros humanos.
