Opinião

Em busca do tempo perdido

"A felicidade — ou aquilo que se julga ser felicidade — não estava propriamente nos lugares, mas no instante vivido"

Reinaldo Chelli
11/05/26 às 16h23

Há uma frase frequentemente atribuída a Rubem Alves — embora sua autoria exata seja incerta e talvez remeta a um antigo provérbio francês — segundo a qual não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz. A ideia parece melancólica, talvez até exagerada, mas em poucas obras literárias se pode ver seu desenvolvimento com tanta profundidade quanto no primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido , de Marcel Proust.

Ao revisitar, sobretudo pela memória, os lugares, pessoas e sensações de sua infância e juventude, o narrador percebe que nada permaneceu intacto. As pessoas mudaram, envelheceram ou morreram; outras surgiram; os costumes desapareceram ou se transformaram; a atmosfera já não tem o antigo encanto. A constatação mais dolorosa é a de que quem regressa também já não é o mesmo.

A felicidade — ou aquilo que se julga ser felicidade — não estava propriamente nos lugares, mas no instante vivido. Dependia de uma combinação irrepetível entre idade, desejos, ilusões, pessoas e circunstâncias. Quando o tempo passa, desmonta silenciosamente essa construção. Restam apenas fragmentos preservados pela memória: um perfume, uma luz, uma música, uma rua, uma tarde.

O erro de quem regressa talvez seja imaginar que o passado continua guardado no espaço físico, à espera da volta. Não continua. O tempo leva tudo consigo — os outros, os cenários, os afetos e até a forma de sentir. Por isso tantos reencontros decepcionam: o viajante tenta recuperar não apenas lugares, acontecimentos e pessoas, mas também uma versão antiga de si mesmo que deixou de existir.

Proust também mostra que o passado não desaparece inteiramente. Ele permanece adormecido, escondido em sensações e lembranças involuntárias que, às vezes, ressurgem inesperadamente. A memória não restitui a vida perdida, mas salva pequenas relíquias emocionais dela. E é justamente a arte que permite ao escritor transformar esses vestígios em experiência viva outra vez.

Talvez seja exatamente esse o sentido mais profundo da frase atribuída — provavelmente de forma equivocada — a Rubem Alves: não se evita voltar apenas porque o lugar, as pessoas e, principalmente, quem retorna mudaram, mas porque aquela felicidade pertence a um tempo que já não existe e ao qual ninguém retorna.

Quem quiser se aventurar pela obra de Proust deve saber que a jornada é longa, mas prazerosa. Em Busca do Tempo Perdido possui sete volumes que somam cerca de quatro mil páginas. A leitura é lenta e exige determinação, atenção e tempo. A recompensa, entretanto, vem da extraordinária beleza do texto e das imagens que o narrador consegue recriar pela memória.

A extensão da obra, a nosso ver, torna recomendável que se desenvolva a leitura paralelamente a outros livros do gosto do leitor, embora não sejam poucos os que defendem justamente o contrário. Por fim, vale dizer que, embora seja uma narrativa de peso — até literalmente falando —, o tempo que vier a ser dedicado a ela certamente não será perdido.

Foto: Divulgação

Reinaldo Aparecido Chelli

Servidor público aposentado

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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