Opinião

“Preciso mesmo postar esta mensagem (no grupo)?”

Nossas mensagens são de fato necessárias ou trata-se de meros luxos subjetivos que sobrecarregam o outro, já imerso em um fluxo informacional exaustivo, particularmente nos famigerados e infinitos grupos corporativos?

Francisco Estefogo
27/04/26 às 18h00

A vida em sociedade sempre implicou algum tipo de renúncia. Em O mal-estar na civilização , Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, argumenta que a convivência humana exige a contenção de impulsos imediatos em favor de vínculos mais duradouros, profundos e estáveis. Segundo o pensador austríaco, a civilização se estrutura quando o sujeito aprende a adiar a satisfação imediata de seus – efêmeros -  desejos, ao internalizar limites que permitem a vida coletiva ética e, por que não dizer, em tempos de hiperconexão ininterrupta, elegante. Esse paradigma, embora formulado no início do século XX, destaca-se na atualidade conectada 24h diante do imperativo contemporâneo da exposição exagerada e descontrolada, permanente nas redes sociais e nos inexoráveis aplicativos de comunicação. Se antes a renúncia dizia respeito principalmente às pulsões agressivas ou libidinais, hoje ela também se manifesta na necessidade de não transformar toda experiência em conteúdo, nem todo pensamento em postagem, a qualquer dia da semana e/ou a qualquer hora do dia, particularmente, nos onipresentes grupos, visto que nem sempre as nossas mensagens estão no âmbito do coletivo.

A cultura digital parece instaurar uma lógica oposta àquela descrita por Freud, ou seja, a valorização da satisfação instantânea, da visibilidade contínua e necessária, bem como da circulação incessante de mensagens. Publicar, comentar, reagir, encaminhar. Tudo se converte em gesto quase automático, muitas vezes, desprovido de reflexão sobre sua real necessidade ou pertinência. Surgem, então, questões éticas e epistemológicas: é necessário mesmo postar tudo? A comunicação continuada contribui para a construção de vínculos ou produz apenas uma ilusão de proximidade? Nossas mensagens são de fato necessárias ou trata-se de meros luxos subjetivos que sobrecarregam o outro, já imerso em um fluxo informacional exaustivo, particularmente nos famigerados e infinitos grupos corporativos? Food for thought ...

Nesse terreno, Byung-Chul Han, filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim, ao analisar a sociedade do cansaço e a cultura da transparência, observa que o excesso de positividade comunicativa pode resultar paradoxalmente em isolamento. A obrigação implícita de compartilhar – e responder - continuamente experiências pessoais transforma a comunicação em performance perene. Nessa dinâmica do overposting , o sujeito age conforme disposições internalizadas e, com frequência, meramente protocolares que, na contemporaneidade, orientam práticas de autopromoção, projeção e participação constante nos espaços digitais. Esse fenômeno hodierno, com efeitos, no mínimo, deletérios, está relacionado ao que Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo francês,  denomina habitus . Ou seja, um modo de ser, aprendido socialmente, incorporado sem perceber e  sem reflexão, que cegamente orienta nossas escolhas no dia a dia. Nesse esteio, as redes sociais e os aplicativos de comunicação configuram o que o pensador intitula campos. Refere-se, nos dias de hoje, às dimensões estruturadas por regras próprias de reconhecimento, prestígio e legitimidade simbólica, nos quais os sujeitos competem por atenção e validação. Nesse contexto, a exposição midiática torna-se uma forma de capital social, outro conceito de Bourdieu, entendido, hoje em dia, como o conjunto de recursos derivados das redes de relações que podem gerar reconhecimento, influência e pertencimento. O sujeito, assim, passa a ser empreendedor de si mesmo, administrando estrategicamente sua presença comunicativa para acumular esse capital. Entretanto, a considerar que o princípio racional do campo digital tende a privilegiar a quantidade de interações em detrimento da densidade afetiva e da qualidade do diálogo, a multiplicação de postagens, nem sempre decorrentes de vínculos mais profundos, ocasiona, frequentemente, pura intensificação da superficialidade relacional, ou, às vezes, do intuito promocional.

Nessa seara, as atividades da vida real, isto é, conversas presenciais, práticas artísticas, experiências coletivas, momentos de contemplação, ou uma singela ligação, dentre tantas outras, assumem papel fundamental na formação do pensamento crítico e dos vínculos afetivos. A perspectiva crítica exige tempo de elaboração, silêncio reflexivo e abertura à alteridade. No avesso, a postagem imediata e deliberada pode reduzir a complexidade da experiência a uma formulação rápida, usualmente, orientada pela expectativa e imediatismo do reconhecimento social. O critério deixa de ser a pertinência e se resume em repercussão. Nesse sentido, questionamentos simples podem ser recursos para ponderações éticas, especialmente, no que se refere às indefectíveis mensagens em grupos. Perguntas tais como: esta mensagem contribui para o diálogo coletivo ou somente para o âmbito individual? O destinatário realmente precisa desta informação neste momento (da semana, do dia)?

Essas indagações remetem novamente a Freud no tocante à maturidade subjetiva que envolve o adiamento da satisfação imediata em nome de vínculos mais duradouros. Renunciar à postagem instantânea pode significar preservar a qualidade da comunicação e respeitar o tempo do outro, já submerso em incontáveis mensagens, memes, emojis , figurinhas, assim como os cansativos e longos áudios. Na verdade, diz respeito a reconhecer que a linguagem possui dimensões estético-afetivas, como evidenciam vieses  linguístico-filosóficos que articulam emoção, cognição e interação social. Dito de outra forma, para além de comunicar, a linguagem constrói realidades e relações.

Assim, resistir ao imperativo de postar tudo não significa, certamente, rejeitar a tecnologia, mas humanizar, ponderar e equilibrar o seu uso. Os recursos tecnológicos modernos conectam pessoas, facilitam o nosso modus operandi e amplia conhecimentos. Indubitavelmente, a comunicação digital pode ser espaço de diálogo crítico e epistêmico, desde que orientada por critérios éticos, reflexivos e ponderados. Em vez de transformar toda experiência em postagem, sinal de total descontrole, talvez seja necessário recuperar o valor da presença, da escuta e do silêncio. Dessa forma, a renúncia freudiana, reinterpretada no âmbito digital em voga, deixa de ser vil repressão e se torna condição de possibilidade para conexões mais significativas. Não postar tudo pode ser um gesto de cuidado. Não comentar imediatamente qualquer mensagem pode ser um ato de respeito. Não responder a cada estímulo pode ser uma forma de preservar a atenção e a qualidade das relações.

Em um mundo saturado de mensagens, sem qualquer delimitação temporal ou espacial, a criticidade talvez comece com pontos de reflexão simples, mas profundamente éticos – e elegantes: nossa palavra, aqui e agora, é necessária? Fará diferença? Ou trata-se de um reles capricho para cumprir formalidades e ser notado? A considerar essa sistematicidade do exagero da comunicação, frente as reflexões aqui construídas, vale repensar se as nossas mensagens poderiam ceder espaços para algo cada vez mais raro: o tempo de pensar, de sentir e de estar verdadeiramente com o outro, além, claro, de não importunar as inúmeras pessoas dos profusos grupos que, em diversas ocasiões, não são os destinatários das nossas notificações de foro íntimo.

Francisco Estefogo é professor da Universidade de Taubaté (UNITAU) e membro titular da Academia Taubateana de Letras (ATL)

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
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