Opinião

Ser humano na caverna

"Tenho casos de conflito em escola que dá livro, mas meu objetivo aqui é mostrar que a juventude sempre dá trabalho"

Hélio Consolaro*
09/07/26 às 13h34
Foto: Divulgação

A professora Michele Ramos, da EMEFI Prof.ª Ildete Mendonça Barbosa, em São José dos Campos-SP, afirmou, em entrevista ao programa Alô Você Vale, da afiliada TH+ SBT, na quarta-feira (1º/7/2026), que não pretende voltar à sala de aula por enquanto, após três alunos colocarem pedaços de vidro em sua garrafa de água. (INFORMAÇÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL)

A ingestão ou presença de vidro moído no estômago é uma emergência médica grave. Fragmentos cortantes podem causar cortes, inflamações e perfurações no esôfago, estômago e intestinos. Complicações como hemorragias ou peritonite exigem atendimento hospitalar imediato.

MEU MAGISTÉRIO 

Com 40 anos de magistério no fundamental 2 e ensino médio, tenho algo a dizer sobre o assunto: violência na escola. Até dei meu rosto para aluno bater, mas ele baixou a mão. Diretor queria chamar pais, suspendê-lo das aulas, eu o removi de tais intenções: eu fui brusco com ele, ficou nervoso. 

Voltei para Araçatuba em 1977, como professor efetivo. Naquela época não tinha promoção automática, havia disparidade de idade com a série. Cada cavalão na quinta-série. Logo que cheguei, numa sala, apoiado em chiclete, enfiaram alfinete com a ponta para cima na cadeira em que eu ia me sentar. Queriam furar meu bumbum. Vi a tempo.

Também no período noturno, numa sétima série, apostei com a classe que o Palmeiras ia ganhar da AEA num jogo em São Paulo, caso acontecesse ao contrário, eu ia entrar à sala caminhando de joelho na próxima aula. E a desgraça aconteceu, cumpri a promessa sob os apupos dos alunos.  

Uma gangue do bairro São José entrou na escola, eu estava de aula vaga. Os delinquentes bateram em servente e bedel. Saí no pau com eles. Chamaram a polícia para denunciar que eu havia batido em menores. Os soldados fizeram a ocorrência dizendo que eles bateram nos funcionários e ignoraram a denúncia deles. Agradeço a polícia até hoje.   

Tenho casos de conflito em escola que dá livro, mas meu objetivo aqui é mostrar que a juventude sempre dá trabalho. 

Naquela época não havia redes sociais, o jornalismo tinha a prática do balcão, os fatos sociais e a violência ficavam entre paredes.  

SÓCRATES

O filósofo reclama bem antes de Cristo da juventude:

“Os jovens de hoje adoram o luxo. Têm maus modos, desprezo pela autoridade. Não têm respeito pelos mais velhos e passam o tempo a falar em vez de trabalhar. Contradizem os pais, tiranizam os seus mestres e cruzam as pernas.”

A tecnologia evoluiu, mas o ser humano continua aquele da caverna, com todos os sentimentos inalterados. Somos os mesmos. Antigamente não era melhor, era diferente. 

Foto: Divulgação

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis e Itaperuna.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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