Opinião

A psicologia por trás do ciúme

"O problema não é senti-lo, mas a forma como lidamos com ele"

Jean Oliveira
09/07/26 às 07h54

Quem nunca sentiu um incômodo ao ver uma mensagem no celular do parceiro, estranhou uma demora na resposta ou imaginou situações que talvez nem existissem? O ciúme faz parte da experiência humana. O problema não é senti-lo, mas a forma como lidamos com ele.

O psicanalista Sigmund Freud propôs que existem diferentes formas de ciúme. A primeira é o chamado ciúme normal. Ele aparece quando percebemos uma ameaça, real ou imaginada, a um relacionamento importante. É desagradável, mas faz parte dos vínculos afetivos e nos lembra do valor que damos à pessoa amada.

Ciúme delirante

A situação muda quando a desconfiança passa a nascer mais da própria mente do que da realidade. Freud chamou esse fenômeno de ciúme projetivo. Nesse caso, medos, inseguranças ou desejos inconscientes são atribuídos ao parceiro. A pessoa passa a enxergar sinais de traição onde muitas vezes eles não existem.

Há ainda o ciúme delirante, mais grave, em que a certeza da infidelidade permanece mesmo diante de provas em contrário. Aqui, já não se trata apenas de uma emoção intensa, mas de um sofrimento psíquico que merece atenção clínica.

O interessante é que o ciúme raramente nasce apenas da relação atual. Muitas vezes, suas raízes estão em experiências antigas de abandono, rejeição ou instabilidade afetiva. As primeiras relações da infância ajudam a construir a maneira como aprendemos a confiar nas pessoas. Quem cresceu sem segurança emocional pode entrar na vida adulta esperando perder quem ama e, por isso, tenta controlar tudo ao redor.

É por isso que vigiar o celular, exigir senhas, fiscalizar horários ou cobrar demonstrações constantes de fidelidade dificilmente resolve o problema. Essas atitudes podem até aliviar a ansiedade por alguns minutos, mas não eliminam a verdadeira origem da angústia.

Necessidade de controlar

A diferença entre um ciúme saudável e um destrutivo não está na intensidade do sentimento, mas no comportamento que ele produz. Sentir medo de perder alguém é humano. Transformar esse medo em vigilância permanente desgasta a relação e alimenta um ciclo de desconfiança.

Talvez a pergunta mais importante não seja se o parceiro oferece motivos para o ciúme, mas de onde vem essa necessidade de controlar. Em muitos casos, compreender a própria história é muito mais eficaz do que vigiar a vida do outro. O ciúme deixa de ser apenas um conflito do casal e passa a ser uma oportunidade de conhecer melhor a si mesmo.

Foto: Divulgação

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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