Meu nome é Antonio, sou o terceiro filho de cinco, de uma família de agricultores oriundos da Paraíba (por parte de meu pai) e do Ceará (por parte de mãe). Severinos, como tanto outros, das muitas peregrinações que fizemos, nos fixamos, principalmente, no estado de São Paulo, capital e interior.
Analfabetos ou semiletrados, na maioria, encaramos o que pudemos encarar para sobreviver e atuar condignamente na sociedade como faxineiros, empregadas domésticas, babás, pedreiros, marceneiros, balconistas, serventes de pedreiro, cortadores de cana, catadores de algodão, tomate, quiabo, feijão..., cumprindo a maldição divina, quando determinou: “Você terá que trabalhar duramente a vida inteira a fim de que a terra produza alimento suficiente para você” (Gênesis 3.17b). E assim o é até hoje.
Passamos, eu e minha família, por muitas precariedades (alimentar, de vestuário, de moradia, de ensino, de cultura etc.) ao longo de grande parte de nossas vidas, nas periferias das cidades por onde residimos. Lembro-me, certa vez, com 8 ou 9 anos de idade, em Taboão da Serra, SP, presenciar uma troca de tiros, altas horas da noite, quando voltávamos de uma celebração de fim de ano, sem saber muito bem o que aquilo significava, dando conta do perigo apenas pelos gritos de minha mãe, insistindo que meu pai abrisse logo o portão de casa para que entrássemos em segurança.
Já morando em Araçatuba, incontáveis foram as vezes que enfrentamos a escuridão e o alagamento em dias de chuva por alguns quilômetros, no final da Rua Santo André, a fim de debruçar a cabeça sobre um travesseiro do casebre construído pelos meus pais, a partir de lote doado e de materiais de construção, em sua maior parte, tirados de um lixão perto de casa. Nesta mesma rua fui roubado, onde, depois de ficar sob a mira de um revólver, levaram minha moto recém comprada, ainda com prestações a pagar.
As roupas, doadas por parentes ou patroas de minha mãe, eram vestidas por “aproximação de tamanho”, nunca por numeração apropriadas. Nas raras vezes em que eram comprados tecidos para minha mãe costurar peças novas, eram feitas em “tamanho maior” a fim de durarem mais tempo.
Nesse cenário quase dantesco descrito antes, algo, para mim, sempre foi uma janela pra respirar: a escola. Era nesse ambiente, ainda que com precariedades também, que eu me sentia mais livre para sonhar, imaginar um futuro diferente daquele que eu e outras tantas famílias vivíamos e estávamos fadados a continuar vivendo. Nessa “tábua de salvação” eu me agarrei firme e, a partir dela, projetei os meus dias.
Muitas vezes apenas com um caderno, lápis e borracha ganhados na escola, começa o ano letivo, dedicando-me ao máximo que podia. Prestava atenção em tudo que os professores e professoras diziam, mas também questionava quando não entendia algum tema; buscava outro caminho para aquilo que parecia um beco sem saída. Nunca fiquei de recuperação, nunca fui reprovado. A primeira nota vermelha que tirei foi na sétima série, numa matéria complicada sobre frações, recuperada na prova seguinte.
Quando estava para terminar a oitava série (hoje, nono ano), fiquei sabendo de um certo CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério) que, além de cursar o segundo grau (hoje, Ensino Médio), também oferecia bolsa de estudo e, com um ano extra, sairia como professor. Claro que esse era o melhor cenário para alguém naquele contexto. Não tive dúvida: prestei a prova de seleção e passei entre os primeiros colocados.
O CEFAM foi um divisor de águas em minha vida e na vida de tantos outros adolescentes que por ele passaram. Graças ao CEFAM e, portanto, à educação, consegui adentrar a diferentes círculos sociais; meu primeiro emprego foi no, até hoje, prestigiado colégio Nossa Senhora Aparecida ou colégio das irmãs, como é conhecido. Nele, pude ensinar para os filhos da mais alta sociedade araçatubense.
Em seguida, veio a faculdade de Letras. Com muito sacrifício, paguei todo o curso, sem nenhum tipo de bolsa de estudo, tornando-me o primeiro das famílias tanto de meu pai quanto de minha mãe, a ter um curso superior. Aí, já no mercado de trabalho, vieram outras graduações (em Artes Visuais e em Arquitetura e Urbanismo), as especializações e o mestrado. (Estou sendo bastante sintético por conta do espaço por aqui e para não ser tão cansativo, estimado leitor.)
Por fim, chegara o momento de prestar seleção para o doutorado. Num momento bastante delicado da minha vida, ainda com uma série de sequelas, físicas e emocionais, resultante de um período longo de internação pós-Covid 19.
Fui aprovado. Era iniciado, em 2022, um percurso de mais de quatro anos, principalmente na capital paulista, Instituto de Artes, UNESP, em meio a livros, congressos, espaços de pesquisa etc. Um trabalho de fôlego apresentado na semana passada para uma banca de cinco doutores, de diferentes universidades públicas do Brasil, abarcando literatura brasileira e artes visuais, as principais áreas de minha atuação profissional.
Enfim, o primeiro doutor da família. Digo isso com um misto de tristeza (visto ser preciso que muitos mais de nós cheguemos aos mais altos níveis formativos) e alegria, porque não é só de desgraça que a vida é feita.
Gostaria de agradecer novamente a todos e todas que percorreram este caminho comigo: meus familiares, meus amigos, meus professores e professoras de antes e de agora, ao meu orientador Prof. Dr. José Leonardo do Nascimento e aos demais professores da banca: Profa. Dra. Suély Souza, Profa. Dra. Sarah Vicentini, Prof. Dr. Omar Khouri e Prof. Dr. Rubens Correa, além das professoras suplentes: Profa. Dra. Érica Rossi, Profa. Dra. Luísa Santana e Profa. Dra. Rosa Amélia Barbosa, meu muito obrigado.
Do mesmo modo como o fiz na defesa, gostaria de oferecer este meu trabalho e este meu título a toda comunidade LGBTQIAPN+; as conquistas de cada um de nós é também por e para todos nós.
