Todas as vezes que vejo o Uruguai em campo, lembro-me do jornalista-poeta e historiador Eduardo Galeano, um apaixonado por futebol. Nas Copas do Mundo, ele se trancava em casa para assistir a todos os jogos possíveis. Para não ser incomodado em sua apaixonante quarentena, afixava na frente da casa uma placa com um aviso: “Cerrado por fútbol" ("Fechado por futebol")”.
No seu livro “Futebol ao sol e à sombra”, com a dedicatória poética, Galeano revelou que, como todos os meninos uruguaios, queria ser jogador de futebol. “Jogava muito bem, mas só à noite enquanto dormia. De dia, era o pior perna de pau que nasceu no Uruguai”. Sorte de quem aprecia literatura e da “Celeste” bicampeã mundial (1930 e 1950) que reservou sua camisa para os meninos que não tinham vocação para as letras. Galeano viveu 74 anos, assistiu a 17 Copas do Mundo, viu os uruguaios fazerem os brasileiros chorar de 1950 a 1958.
Triste ver no que se tornou o futebol uruguaio, que teve Obdulio Varela, Alcides Ghiggia (que calou o Maracanã em 1950), Pedro Rocha (esse eu vi in loco), Ladislao Mazurkiewicz (goleiro que duelou com Pelé na Copa de 70), Darío Pereyra, Diego Lugano, Luisito Suárez e uma porção deles, mas destaco apenas os que me recordo às 23h30 desta sexta-feira, 26 de junho, logo após a derrota para a Espanha.
Uma pena, e seria uma decepção para Galeano, um Uruguai que foi à Copa 2026 e apenas empatou com duas seleções inexpressivas: Arábia Saudita e Cabo Verde, em que pese a simpatia desta última. A famosa garra uruguaia ficou no banco de reservas e a violência foi a titular. Não poderia ser diferente: foi mais cedo para casa.
