Araçatuba avança nas discussões para implantação de um modelo de governança colaborativa voltado ao planejamento estratégico da cidade. A proposta busca reunir poder público, setor produtivo, universidades e sociedade civil organizada em um mesmo espaço de diálogo para definir prioridades de desenvolvimento econômico e social.
Em entrevista ao hojeCast, na sede do Hojemais Araçatuba, a consultora colaborativa de desenvolvimento Márcia Santin explica que a iniciativa tem como objetivo superar a lógica de decisões isoladas e dependentes de mandatos políticos.
“A governança colaborativa é a união de instituições públicas, privadas e da academia, representadas por lideranças engajadas, discutindo de forma organizada a agenda estratégica da cidade”
, afirmou.
Com atuação em diversas cidades brasileiras e experiência no setor cooperativista do agronegócio, além de passagem pela direção executiva do CODEM (Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá), Márcia destaca que o modelo já vem sendo aplicado há décadas em municípios que se tornaram referência em planejamento de longo prazo.
Planejamento
Segundo Márcia, um dos principais desafios das cidades brasileiras é a limitação do planejamento ao período de quatro anos dos mandatos eletivos. Para ela, isso compromete a continuidade de políticas públicas estruturantes.
“Os prefeitos e vereadores são eleitos para quatro anos. Muitos desafios exigem dez, vinte anos de planejamento. Sem uma governança contínua, a cidade fica sujeita a avanços e retrocessos”
, explicou.
Entre os principais pontos de atenção para Araçatuba, a consultora destaca o envelhecimento populacional como uma das mudanças mais significativas das próximas décadas.
“Hoje a faixa entre 40 e 64 anos já é predominante. Em poucos anos, a cidade terá uma população majoritariamente envelhecida, o que pressiona fortemente a saúde e os serviços sociais”
, afirmou.
Educação e reforma tributária
Além da questão demográfica, Márcia chama atenção para dois outros fatores que devem impactar diretamente o futuro dos municípios: a qualidade da educação e os efeitos da reforma tributária.
Segundo ela, indicadores educacionais abaixo do ideal comprometem a formação de mão de obra qualificada e limitam o desenvolvimento econômico.
“Um IDEB entre 6 e 7 ainda é insuficiente para sustentar uma economia competitiva. Isso impacta diretamente a capacidade de inovação e produtividade da cidade”
, disse.
A consultora também alerta para os impactos da reforma tributária nos cofres públicos municipais, o que exigirá reorganização das economias locais.
“Sem planejamento, os municípios podem enfrentar redução de arrecadação sem tempo hábil de adaptação. Isso precisa ser discutido desde já”
, destacou.
Tecnologia e novas economias
Temas como tecnologia, economia digital e inovação precisam fazer parte obrigatória do planejamento das cidades, independentemente de seu porte ou localização, segundo a especialista.
“Não existe mais separação entre interior e capital. A tecnologia eliminou essas barreiras. Todas as cidades competem no mesmo ambiente econômico”
, afirmou.
Ela também destaca a necessidade de repensar a matriz econômica dos municípios, considerando que atividades tradicionais podem não se manter sustentáveis no longo prazo sem adaptação.
Governança
Um dos principais objetivos da governança colaborativa é garantir maior continuidade de projetos estratégicos, reduzindo a dependência de mudanças políticas a cada eleição.
Márcia explica que o modelo não substitui o poder público, mas atua como instância de apoio e construção coletiva de soluções.
“A governança não executa, ela propõe e organiza o pensamento estratégico da cidade. O poder público segue sendo responsável pela execução”
, explicou.
Ela reforça ainda que o modelo precisa manter neutralidade política para funcionar de forma sustentável.
“Quem lidera a governança não pode ter vínculo partidário. Isso garante continuidade e foco técnico nas decisões”
, disse.
Sociedade civil, universidades e
economia
A estrutura da governança colaborativa é formada por três pilares: poder público, academia e sociedade civil organizada. Nesse modelo, universidades, entidades de classe, organizações sociais e lideranças comunitárias têm papel ativo na construção das diretrizes de desenvolvimento.
“As universidades são fundamentais porque trazem conhecimento técnico e ajudam a qualificar as decisões estratégicas”
, afirmou.
Outro ponto destacado é a necessidade de criação de uma matriz econômica de longo prazo, capaz de orientar investimentos e políticas públicas. Márcia cita como exemplo cidades que conseguiram estruturar seus principais vetores de desenvolvimento e mantêm crescimento contínuo ao longo dos anos.
Para ela, sem esse tipo de planejamento, os municípios tendem a reagir apenas a problemas, em vez de se antecipar a eles.
Futuro da cidade
A implantação da governança colaborativa em Araçatuba ainda está em fase de sensibilização e articulação entre lideranças locais.
Segundo a consultora, o sucesso do modelo depende diretamente do engajamento da sociedade civil e da compreensão de que o desenvolvimento da cidade é uma responsabilidade compartilhada.
“Quando a sociedade entende seu papel e participa ativamente das decisões, o desenvolvimento se torna mais consistente e sustentável”
, concluiu.