Cotidiano

Governança colaborativa propõe novo modelo de planejamento para Araçatuba

Consultora Márcia Santin defende integração entre poder público, iniciativa privada, academia e sociedade civil para decisões estratégicas de longo prazo 

Agência Trio Notícias
26/06/26 às 07h28

Araçatuba avança nas discussões para implantação de um modelo de governança colaborativa voltado ao planejamento estratégico da cidade. A proposta busca reunir poder público, setor produtivo, universidades e sociedade civil organizada em um mesmo espaço de diálogo para definir prioridades de desenvolvimento econômico e social.

Em entrevista ao hojeCast, na sede do Hojemais Araçatuba, a consultora colaborativa de desenvolvimento Márcia Santin explica que a iniciativa tem como objetivo superar a lógica de decisões isoladas e dependentes de mandatos políticos. “A governança colaborativa é a união de instituições públicas, privadas e da academia, representadas por lideranças engajadas, discutindo de forma organizada a agenda estratégica da cidade” , afirmou.

Com atuação em diversas cidades brasileiras e experiência no setor cooperativista do agronegócio, além de passagem pela direção executiva do CODEM (Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá), Márcia destaca que o modelo já vem sendo aplicado há décadas em municípios que se tornaram referência em planejamento de longo prazo.

Planejamento 

Segundo Márcia, um dos principais desafios das cidades brasileiras é a limitação do planejamento ao período de quatro anos dos mandatos eletivos. Para ela, isso compromete a continuidade de políticas públicas estruturantes. “Os prefeitos e vereadores são eleitos para quatro anos. Muitos desafios exigem dez, vinte anos de planejamento. Sem uma governança contínua, a cidade fica sujeita a avanços e retrocessos” , explicou.

Entre os principais pontos de atenção para Araçatuba, a consultora destaca o envelhecimento populacional como uma das mudanças mais significativas das próximas décadas. “Hoje a faixa entre 40 e 64 anos já é predominante. Em poucos anos, a cidade terá uma população majoritariamente envelhecida, o que pressiona fortemente a saúde e os serviços sociais” , afirmou.

Educação e reforma tributária 

Além da questão demográfica, Márcia chama atenção para dois outros fatores que devem impactar diretamente o futuro dos municípios: a qualidade da educação e os efeitos da reforma tributária.

Segundo ela, indicadores educacionais abaixo do ideal comprometem a formação de mão de obra qualificada e limitam o desenvolvimento econômico.  “Um IDEB entre 6 e 7 ainda é insuficiente para sustentar uma economia competitiva. Isso impacta diretamente a capacidade de inovação e produtividade da cidade” , disse.

A consultora também alerta para os impactos da reforma tributária nos cofres públicos municipais, o que exigirá reorganização das economias locais. “Sem planejamento, os municípios podem enfrentar redução de arrecadação sem tempo hábil de adaptação. Isso precisa ser discutido desde já” , destacou.

Tecnologia e novas economias

Temas como tecnologia, economia digital e inovação precisam fazer parte obrigatória do planejamento das cidades, independentemente de seu porte ou localização, segundo a especialista.  “Não existe mais separação entre interior e capital. A tecnologia eliminou essas barreiras. Todas as cidades competem no mesmo ambiente econômico” , afirmou.

Ela também destaca a necessidade de repensar a matriz econômica dos municípios, considerando que atividades tradicionais podem não se manter sustentáveis no longo prazo sem adaptação.

Governança

Um dos principais objetivos da governança colaborativa é garantir maior continuidade de projetos estratégicos, reduzindo a dependência de mudanças políticas a cada eleição.

Márcia explica que o modelo não substitui o poder público, mas atua como instância de apoio e construção coletiva de soluções.  “A governança não executa, ela propõe e organiza o pensamento estratégico da cidade. O poder público segue sendo responsável pela execução” , explicou.

Ela reforça ainda que o modelo precisa manter neutralidade política para funcionar de forma sustentável.  “Quem lidera a governança não pode ter vínculo partidário. Isso garante continuidade e foco técnico nas decisões” , disse.

Sociedade civil, universidades e  economia

A estrutura da governança colaborativa é formada por três pilares: poder público, academia e sociedade civil organizada. Nesse modelo, universidades, entidades de classe, organizações sociais e lideranças comunitárias têm papel ativo na construção das diretrizes de desenvolvimento. “As universidades são fundamentais porque trazem conhecimento técnico e ajudam a qualificar as decisões estratégicas” , afirmou.

Outro ponto destacado é a necessidade de criação de uma matriz econômica de longo prazo, capaz de orientar investimentos e políticas públicas. Márcia cita como exemplo cidades que conseguiram estruturar seus principais vetores de desenvolvimento e mantêm crescimento contínuo ao longo dos anos.

Para ela, sem esse tipo de planejamento, os municípios tendem a reagir apenas a problemas, em vez de se antecipar a eles.

Futuro da cidade 

A implantação da governança colaborativa em Araçatuba ainda está em fase de sensibilização e articulação entre lideranças locais.

Segundo a consultora, o sucesso do modelo depende diretamente do engajamento da sociedade civil e da compreensão de que o desenvolvimento da cidade é uma responsabilidade compartilhada. “Quando a sociedade entende seu papel e participa ativamente das decisões, o desenvolvimento se torna mais consistente e sustentável” , concluiu.

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