A estreia de Toy Story 5, produção do estúdio Pixar Animation em parceria com a Disney , prevista para 18 junho, recoloca em cena uma inquietação contemporânea que atravessa silenciosamente lares, escolas e comunidades em todo o mundo: o que acontece quando as crianças trocam os supostamente “inertes” brinquedos, as brincadeiras corporais e a imaginação compartilhada pela interação constante com as indefectíveis e “atrativas” telas digitais? A questão convoca reflexões filosóficas profundas sobre o que significa ser humano, produzir sentidos, desenvolver-se e construir relações significativas com os outros e com o mundo. Entre a sedução das telas e o aparente silêncio dos brinquedos tradicionais, emerge o debate sobre a infância nos dias de hoje como uma experiência predominantemente mediada por dispositivos digitais. Por conseguinte, na contramão da revolução educativa, a inovação tecnológica, aparentemente, descortina-se para uma tragédia anunciada.
Os brinquedos sempre ocuparam um lugar singular na constituição da infância. Para além de meros objetos destinados ao entretenimento, são mediadores da imaginação, da criatividade e da experiência de mediação simbólica no que se refere à construção de sentidos e significações. Quando uma criança, por exemplo, transforma uma caixa em um castelo, um graveto em espada ou um boneco em companheiro de aventuras, ela elabora entendimentos e narrativas, exercita a liberdade, tal e qual constrói formas de compreender a realidade.
Essa compreensão encontra eco nas reflexões do pensador e psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934). Segundo o proponente da Psicologia histórico-cultural, a brincadeira é uma das atividades mais importantes para o desenvolvimento humano porque permite ao sujeito, particularmente à criança, operar de forma que transcenda as limitações imediatas do tempo presente. Ao brincarmos, projetamos futuros, experimentamos papéis sociais e desenvolvemos as funções psicológicas superiores, como propõe Vygotsky. Ou seja, pensamento abstrato, memória, concentração, linguagem, dentre outras idiossincrasias humanas. Portanto, a brincadeira é uma forma privilegiada de aprendizagem, já que oportuniza circunstâncias que nos legitima como humanos, isto é, criadores de nossa própria história e de mundos outros.
Quando as telas passam a predominar as experiências da vida infantil, essa dinâmica muda sobremaneira. Diferentemente dos brinquedos tradicionais, que exigem da criança a tecitura de significados, muitos conteúdos digitais oferecem narrativas prontas, estímulos rápidos e recompensas imediatas. Em relação a esse tipo de narração, inerente à sociedade digital hodierna, Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, em A crise da narração , destaca o fluxo incessante de informações já finalizadas, dados, imagens e estímulos que acarretam uma fragmentação da experiência de construir empatia, senso de comunidade, escuta e atenção, pois essa facilidade narrativa a um toque do dedo dispensa o trabalho da geração de significados. Em vez de histórias que amadurecem na memória e na reflexão, os conteúdos instantâneos digitais são rapidamente substituídos por outros em questão de segundos. Em outras palavras, mais que a gênese de compreensões, há apenas o consumo de significados empacotados cumulativos. Desse modo, a imaginação deixa de ser um manancial de possibilidades e ocupa um papel secundário diante da avalanche de imagens e informações geradas pelos ininterruptos algoritmos, sempre eles.
Nesse sentido, bell hooks (1952-2021), artista e ativista antirracista estadunidense, ao defender a educação comprometida com a liberdade, insiste que o desenvolvimento humano depende de experiências relacionais genuínas, do diálogo e da presença. A infância mediada majoritariamente por telas pode empobrecer essas vivências ao substituir encontros humanos por interações programadas automatizadas. Certamente, não se trata de demonizar a tecnologia, mas de questionar uma organização social que frequentemente privilegia a conexão digital em detrimento da convivência concreta entre os corpos e outros meios de mediação, como com os brinquedos.
Além disso, o filósofo sul-africano Mogobe Ramose, um dos principais pensadores que popularizou a filosofia africana Ubuntu, assevera que a constituição da identidade humana ocorre fundamentalmente nas relações, já que uma pessoa é pessoa por meio das outras pessoas. Destarte, brincadeiras coletivas, jogos presenciais, conflitos negociados entre os sujeitos, em especial, as crianças, e momentos de cooperação constituem experiências insubstituíveis para a formação ética e afetiva, além de valorizar a força da coletividade e a convivência com a multidiversidade. Nenhuma tecnologia consegue reproduzir integralmente a potência dessas interações.
Ademais, a filósofa Angela Davis, ativista socialista americana, acrescentaria que a infância não pode ser compreendida separadamente das condições sociais que a cercam. Muitas famílias recorrem às telas porque enfrentam jornadas de trabalho exaustivas, ausência de espaços públicos seguros, impaciência com os pequenos, ou escassez de oportunidades de lazer comunitário. Assim, o problema não é apenas individual ou familiar, mas uma questão prática, conveniente, política e social. Legitimar o brincar e os brinquedos é defender o potencial da imaginação, da humanização, bem como de escolas mais acolhedoras e tempos de vida menos subordinados à lógica da produtividade e, por conseguinte, do cansaço, como diria Byung-Chul Han.
Curiosamente, Toy Story sempre foi uma metáfora sobre vínculos afetivos. Desde o primeiro filme, lançado em 1995, os brinquedos expressam muito mais do que objetos inertes, posto que simbolizam relações, memórias, afetos e experiências compartilhadas. Se os filmes anteriores discutiam o medo do abandono diante do crescimento das crianças, Toy Story 5 parece atualizar essa preocupação no que diz respeito à competição entre os brinquedos e os dispositivos digitais. Essa tensão não exige uma escolha radical entre tecnologia e brincadeira. Indubitavelmente, as telas podem ampliar horizontes culturais, favorecer aprendizagens e conectar pessoas. O problema surge quando ocupam quase todo o espaço disponível para a experiência infantil. A questão central não é tecnológica, mas filosófica: que tipo de ser humano estamos formando?
Talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo as crianças passam diante das telas, mas quanto tempo ainda lhes resta para imaginar, criar, explorar, errar, correr, construir, interagir, negociar, compartilhar, sonhar e brincar. Em última instância, preservar os brinquedos não significa defender objetos “inanimados ”. Mais do que isso, representa advogar em favor uma concepção de infância que reconheça o brincar como uma das expressões mais profundas da liberdade e criação humana.
Se o Woody, o Buzz Lightyear e seus companheiros, personagens icônicos da franquia, continuam emocionando diferentes gerações, possivelmente, seja porque nos recordam de que antes de sermos os famigerados consumidores de imagens e meros reprodutores de situações, somos essencialmente criadores de mundos outros, a contar com as inúmeras formas de mediação para além das onipresentes telas, sempre elas, que o mundo dispõe. A infância é o período inicial onde essa potencialidade pode florescer. Dessa maneira, a tragédia anunciada porventura não reside no desaparecimento dos brinquedos em si, mas no enfraquecimento das condições que permitem às crianças imaginar mundos diferentes, reinventar realidades, conviver com as diferenças e exercer, desde cedo, a liberdade de serem autoras, a contar sempre com o outro, de suas próprias histórias. Esse esvaziamento da experiência criativa e imaginativa, fenômeno social moderno, infelizmente, pode os tornar meros espectadores de realidades produzidas por outros.
