Se em minha juventude houvesse celular com máquina fotográfica, eu estaria nas fotos sempre com minha magrela. Em Araçatuba, a prefeitura exigia licenciamento. Bicicleta tinha placa.
Magrela era como o bicicleteiro chamava carinhosamente sua bicicleta, nada de bike como hoje. Ciclismo não era esporte, era necessidade. As ruas de Araçatuba viviam cheias de bols?es para estacionamento de bicicletas.
Com a magrela da firma eu exercia minha função de office boy. Com minha Monark ou Gorike eu passeava. Carregava as gatas na garupa. À noite, ia para escola a pé para não ter a minha magrela roubada.
Cinema à noite, bicicletas mil estacionadas. Motos não existiam. Até que tive o amargor na boca, a minha Monark roubada. Comprar outra, mais uma prestação. Era pobre roubando pobre.
O roubo de uma bicicleta em Birigui me fez lembrar tudo isso. Saudades. A juventude, mesmo miserenta, é um tempo bom.
MAIS UM DA LISTA
Ouvindo a música “A lista”, de Osvaldo Montenegro, dei um pulo no sofá. E a crônica do Sirlei, o Nogueira? Não fiz.
Antes de ele morrer, combinamos que o sobrevivente (dentre nós) faria uma crônica ao falecido. Com esse trato, tenho postergado a minha morte, pois meus amigos morrem e eu fico.
Sirlei Nogueira, o jornalista, era bem mais moço, morreu primeiro e não cumpri a promessa. Aquela alegria dele na hora da aposta foi falsa. Por isso que de vez em quando sinto um puxão em minha perna enquanto durmo.
Enteado de Naum Cury, conheci o Sirlei na administração Cido Sério-Carlos Hernandes. Sirlei era homem de confiança do vice-prefeito.
Pegamos uma amizade tão galhofeira, que para ele eu era o Alemão, o esquecido, mal de Alzheimer eu sintetizava sua vida folgada no apelido “Pilha Fraca”.
Depois fiquei sabendo que prestava assessoria de imprensa às entidades espíritas, sendo também defensor ferrenho do espiritismo. Admirador de Benedita Fernandes.
Sirlei Nogueira apresentou um projeto cultural e venceu o edital da secretaria municipal de Cultura com o filme “Benedita Fernandes: uma heroína invisível – o legado da superação”.
Tomamos muitas cervejas juntos. Nunca ouvi Sirlei maldizer alguém. Rimos muito.
