Opinião

Desobediência escrita

"Era a única ambição que ele ainda nutria"

Thiago T. Canossa
08/07/26 às 16h40

Desobedecer.

Era a única ambição que ele ainda nutria. Faltava-lhe a coragem. A vida era entre a poltrona, a televisão e o controle remoto, pequenos cetros de um império sem risco. Sabia de guerras, crimes, quedas de reis e mortes públicas. Sabia de tudo. Mas nada lhe acontecia.

Por isso, escrevia.

Naquela noite, sentado à mesa da velha casa do pai, abriu o caderno e escreveu:

Desobedecer era a única ambição que ele ainda nutria.

A campainha tocou.

Alguns passos. Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas uma carta sobre a soleira. Sem remetente ou selo, escrita à mão.

Levou-a para dentro.

Abriu o envelope.

Em tinta azul-escura, a mensagem:

Não dê sentido àquilo que está prestes a escrever.

Não confie na primeira frase. Ela parecerá sua melhor, e talvez seja.

Você pensará que se trata de ficção. Não se trata. Pensará que poderá interrompê-la quando quiser. Não poderá.

Não procure a pá.

O início é, com frequência, um perigo.

Não esqueça: não termine, meu amigo.

A carta vinha datada. Vinte anos adiantada.

Na letra, os mesmos cortes, a mesma pressa, o mesmo modo de comprimir as palavras no fim da linha, a margem do papel dedicadamente obedecida.

Olhou para o caderno.

A primeira frase já estava escrita.

A carta chegara tarde, como chegam todos os conselhos.

Tentou rir. Depois explicar. Obedecer. Guardou a carta na gaveta, retirou-a, leu novamente, dobrou-a outra vez. Por fim, sentou-se. Não escreveria.

Mas a caneta já se movia.

Escreveu...

Primeiro veio a sala, a mesa, a carta. Depois o quarto fechado, o armário, a garrafa de cachaça, o maço de Continental, o escapulário.

No caixão, pálido, maquiado por mãos alheias, com uma gravata que jamais escolheria. Conhecidos cochichando frases respeitosas, pequenas. Flores vivas, café em copos plásticos, olhos serenos de solenidade. A tampa descendo sobre seu rosto.

[A mão tremeu.]

[Parou.]

[A casa estava imóvel.]

[A carta, aberta ao lado do caderno, parecia aguardar não sua leitura, mas sua rendição.]

Continuou...

A chuva fina sobre o cemitério. A terra batendo na madeira. O som o feriu mais que qualquer imagem. Depois o silêncio. Os dias seguintes. A umidade entrando no cláustro, o escuro pesando sobre as pálpebras fechadas, a carne cedendo ao trabalho paciente da terra. O corpo apodrecendo.

[Não parecia invenção.]

[Sem que soubesse tê-la pensado, com maior pressão nos dedos assustados...]

“Meu pai sorria”.

[A caneta parou.]

[O sangue recuou-lhe das mãos.]

[Leu a linha outra vez.]

“Meu pai sorria...

O pai de pé no quintal, a camisa colada ao peito pelo suor, o rosto sisudo deformado por um sorriso pequeno, quase satisfeito. Limpava as mãos na própria camisa. Sangue sem pressa, já escuro.

[Tirou da carteira o pai em fotografia.]

[A imagem não mais o repreendia.]

[E isso era pior.]

[Olhou para a carta.]

Não esqueça: não termine, meu amigo.

[Leu de novo.]

[Achou que compreendia. Eram sinais de consumação. Ou não fosse isso mera obra da Ficção?]

[Na carta, o aviso:]

Não procure a pá.

Escreveu...

Na área de serviço, atrás do tanque, a pá. A chuva começava a cair no quintal. A terra junto à mangueira estava mais baixa, escura, úmida, respirando sob a água.

[A carta dizia para não terminar.]

[Mas desobedecer era a única ambição que ele ainda nutria.]

Cravou a pá na terra.

Cavou com a força que não tinha. Cavou, tentando acordar. Cavou como quem prova que vive. A lama grudou nos pés, nas pernas, nas mãos. A chuva escorria pelo rosto. O cabo feriu a pele. A terra cedeu fácil demais, como não fosse a primeira vez.

A pá bateu em algo duro.

O som foi baixo, quase delicado.

Ajoelhou-se.

Afastou a terra com as mãos.

Primeiro veio tecido.

Depois dedos manchados... rígidos.

Depois o rosto.

O seu.

O corpo... em putrefação, enterrado sob a mangueira, a boca entreaberta, os olhos já devolvidos à terra, a pele vencida pelo tempo que não mais existia. A roupa era a mesma que naquela noite vestia. A mão direita parecia ainda procurar uma caneta, ou ao menos insistia.

[Caiu sentado.]

Então abriu-se inteira, a memória.

O pai sobre ele.

O sorriso breve.

A pancada.

O sangue.

As mãos sujas, limpas na camisa.

Quem abrira a carta?

Quem a desobedecia?

Quem aqui escreve?

[Terminara.]

Foto: Divulgação

Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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