Desobedecer.
Era a única ambição que ele ainda nutria. Faltava-lhe a coragem. A vida era entre a poltrona, a televisão e o controle remoto, pequenos cetros de um império sem risco. Sabia de guerras, crimes, quedas de reis e mortes públicas. Sabia de tudo. Mas nada lhe acontecia.
Por isso, escrevia.
Naquela noite, sentado à mesa da velha casa do pai, abriu o caderno e escreveu:
Desobedecer era a única ambição que ele ainda nutria.
A campainha tocou.
Alguns passos. Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas uma carta sobre a soleira. Sem remetente ou selo, escrita à mão.
Levou-a para dentro.
Abriu o envelope.
Em tinta azul-escura, a mensagem:
Não dê sentido àquilo que está prestes a escrever.
Não confie na primeira frase. Ela parecerá sua melhor, e talvez seja.
Você pensará que se trata de ficção. Não se trata. Pensará que poderá interrompê-la quando quiser. Não poderá.
Não procure a pá.
O início é, com frequência, um perigo.
Não esqueça: não termine, meu amigo.
A carta vinha datada. Vinte anos adiantada.
Na letra, os mesmos cortes, a mesma pressa, o mesmo modo de comprimir as palavras no fim da linha, a margem do papel dedicadamente obedecida.
Olhou para o caderno.
A primeira frase já estava escrita.
A carta chegara tarde, como chegam todos os conselhos.
Tentou rir. Depois explicar. Obedecer. Guardou a carta na gaveta, retirou-a, leu novamente, dobrou-a outra vez. Por fim, sentou-se. Não escreveria.
Mas a caneta já se movia.
Escreveu...
Primeiro veio a sala, a mesa, a carta. Depois o quarto fechado, o armário, a garrafa de cachaça, o maço de Continental, o escapulário.
No caixão, pálido, maquiado por mãos alheias, com uma gravata que jamais escolheria. Conhecidos cochichando frases respeitosas, pequenas. Flores vivas, café em copos plásticos, olhos serenos de solenidade. A tampa descendo sobre seu rosto.
[A mão tremeu.]
[Parou.]
[A casa estava imóvel.]
[A carta, aberta ao lado do caderno, parecia aguardar não sua leitura, mas sua rendição.]
Continuou...
A chuva fina sobre o cemitério. A terra batendo na madeira. O som o feriu mais que qualquer imagem. Depois o silêncio. Os dias seguintes. A umidade entrando no cláustro, o escuro pesando sobre as pálpebras fechadas, a carne cedendo ao trabalho paciente da terra. O corpo apodrecendo.
[Não parecia invenção.]
[Sem que soubesse tê-la pensado, com maior pressão nos dedos assustados...]
“Meu pai sorria”.
[A caneta parou.]
[O sangue recuou-lhe das mãos.]
[Leu a linha outra vez.]
“Meu pai sorria...
O pai de pé no quintal, a camisa colada ao peito pelo suor, o rosto sisudo deformado por um sorriso pequeno, quase satisfeito. Limpava as mãos na própria camisa. Sangue sem pressa, já escuro.
[Tirou da carteira o pai em fotografia.]
[A imagem não mais o repreendia.]
[E isso era pior.]
[Olhou para a carta.]
Não esqueça: não termine, meu amigo.
[Leu de novo.]
[Achou que compreendia. Eram sinais de consumação. Ou não fosse isso mera obra da Ficção?]
[Na carta, o aviso:]
Não procure a pá.
Escreveu...
Na área de serviço, atrás do tanque, a pá. A chuva começava a cair no quintal. A terra junto à mangueira estava mais baixa, escura, úmida, respirando sob a água.
[A carta dizia para não terminar.]
[Mas desobedecer era a única ambição que ele ainda nutria.]
Cravou a pá na terra.
Cavou com a força que não tinha. Cavou, tentando acordar. Cavou como quem prova que vive. A lama grudou nos pés, nas pernas, nas mãos. A chuva escorria pelo rosto. O cabo feriu a pele. A terra cedeu fácil demais, como não fosse a primeira vez.
A pá bateu em algo duro.
O som foi baixo, quase delicado.
Ajoelhou-se.
Afastou a terra com as mãos.
Primeiro veio tecido.
Depois dedos manchados... rígidos.
Depois o rosto.
O seu.
O corpo... em putrefação, enterrado sob a mangueira, a boca entreaberta, os olhos já devolvidos à terra, a pele vencida pelo tempo que não mais existia. A roupa era a mesma que naquela noite vestia. A mão direita parecia ainda procurar uma caneta, ou ao menos insistia.
[Caiu sentado.]
Então abriu-se inteira, a memória.
O pai sobre ele.
O sorriso breve.
A pancada.
O sangue.
As mãos sujas, limpas na camisa.
Quem abrira a carta?
Quem a desobedecia?
Quem aqui escreve?
[Terminara.]
