Opinião

Você sabe receber amor?

"Muitas vezes, a dificuldade está em acreditar que se é digno de recebê-lo"

Jean Oliveira
11/06/26 às 14h21

Consegue aceitar um elogio sem desconfiar das intenções de quem o fez? Receber ajuda sem sentir que está em dívida? Acreditar que alguém possa admirar você, gostar de sua companhia ou amar quem você é?

As respostas para essas perguntas talvez estejam escondidas em outra, mais profunda e muitas vezes mais difícil de encarar: você ama a si mesmo?

À primeira vista, a questão pode soar simples. Mas a psicologia mostra que a capacidade de receber amor está intimamente ligada à forma como cada pessoa constrói sua percepção de valor. Em outras palavras, nem sempre o problema é a falta de amor ao redor. Muitas vezes, a dificuldade está em acreditar que se é digno de recebê-lo.

Existe uma contradição silenciosa na vida emocional de muitas pessoas. Elas desejam ser amadas, reconhecidas e acolhidas. Sentem falta de afeto, de atenção e de pertencimento. No entanto, quando essas demonstrações finalmente aparecem, algo dentro delas resiste. O elogio é minimizado. O carinho parece exagerado. A ajuda gera desconforto. O amor encontra desconfiança.

REFLEXÕES

Carl Rogers, um dos principais nomes da psicologia humanista, observava que indivíduos que cresceram recebendo aprovação apenas quando correspondiam às expectativas dos outros tendem a desenvolver uma percepção frágil do próprio valor. Aprendem, desde cedo, que o amor precisa ser conquistado. Como consequência, têm dificuldade em aceitar afeto oferecido de forma espontânea.

A psicanálise chega a conclusões semelhantes. Donald Winnicott destacou a importância das primeiras experiências emocionais na formação da identidade. Quando a criança encontra acolhimento e segurança, desenvolve confiança para existir e se relacionar. Quando predominam a crítica, a ausência emocional ou a instabilidade, podem surgir dúvidas profundas sobre seu merecimento.

AUTOESTIMA REAL

Essas marcas não desaparecem com o tempo. Muitas apenas trocam de cenário.

É por isso que a autoestima não deve ser entendida apenas como autoconfiança ou satisfação pessoal. Em sua camada mais profunda, ela representa a convicção íntima de que se é digno de amor. Quem não possui essa convicção frequentemente interpreta o afeto através das lentes da suspeita.

O paradoxo é que a vida raramente oferece amor da forma idealizada que aparece nos filmes ou nas redes sociais. O afeto costuma se manifestar em gestos discretos: na preocupação de um pai, na presença constante de um amigo, no cuidado silencioso de um irmão, na mensagem enviada apenas para saber se está tudo bem.

Muitas pessoas passam a vida procurando amor enquanto ignoram algumas de suas manifestações mais genuínas.

AMAR É UMA ARTE

Erich Fromm escreveu que amar é uma arte que exige aprendizado e maturidade. Talvez seja preciso acrescentar que receber amor também é. Exige derrubar defesas, abandonar antigas desconfianças e aceitar uma verdade que, para alguns, parece desconfortável: ninguém precisa provar diariamente que merece ser amado.

Nem sempre a ausência de amor é o maior problema. Às vezes, o desafio mais difícil é reconhecer que ele já está presente e acreditar que não é preciso conquistá-lo para que seja verdadeiro.

Foto: Divulgação

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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